6 respostas para Diálogo 2 – Desdobramentos: sobre matrizes e filiais

  1. Um grande problema de hoje em dia é a falta de editoração (?) das nossas memórias: nós tentamos juntar tudo de todo tipo, ignorando que existem coisas que devem ser vagamente lembradas só por ser diversão ou afim, e coisas que são de suma importância, e não devem nunca ser esquecidos.
    Isso se aplica inclusive aos nossos backups da vida: não custa, na hora de jogar aquele monte de fotos, vídeos e textos no HD externo ver o que realmente vale a pena continuar existindo e o que não precisa mais de jeito nenhum ficar ocupando aquele espaço. É um exercício às vezes cansativo, e se você for autor(a) daquele material, meio angustiante, mas é necessário, e não é mal, é um bem.

  2. Ana Lira disse:

    Eu acho que existe diferença entre a era da reprodutibilidade citada por Benjamin e este a que você se refere hoje. A reprodução no texto dele, pelo que eu entendi, trazia como característica a tentativa de imitação da obra original e não uma releitura a partir dela.

    O que eu sinto na arte contemporânea é um desejo de fugir dessa imitação (é o que aparenta, pelo menos), quando no texto de Benjamin me parece que ele faz uma leitura de uma sociedade que vê na possibilidade de reproduzir a realização do desejo de ter para si uma cópia da obra de arte “original” tal e qual ela era – mesmo que, na prática, uma cópia em papel couchê da Monalisa não seja a mesma coisa que a pintura em tela (até mesmo pelo suporte ser diferente e reagir de forma diversa às cores, luzes, sombras, etc), para quem pega aquele papel e emoldura para colocar na parede aquela é a musa de Da Vinci e pronto.

    Apesar disso, eu não sei até que ponto a proposta de releitura/reprodução da arte contemporânea dialoga no mesmo nível com o descuido com as matrizes, uma vez que a arte contemporânea tem uma proposta tão fortemente exaltada pelos conceitos que até o estrago seria considerado de alguma forma no processo – ou ele seria visto como ponto de partida para um novo trabalho.

    Então, para mim, uma coisa é descuidar com o desejo de criar artisticamente ou ver no descuido do outro um motivo para iniciar um processo de criação. Outra coisa é falta de responsabilidade e como estamos reagindo com naturalidade a isso, a ponto de achar que esse elemento em vez de ser requisito básico deve ser um luxo a mais a contar no orçamento do serviço.

    Gostei de conversar sobre isso. Quem mais quer falar?

    • joanafpires disse:

      Aninha, discordo com sua leitura de que a reprodutibilidade de Benjamin seja simplesmente a tentativa de imitação do original. Muito pelo contrário, essa tentativa de imitação é inerente à obra de arte – o original e sua imitação sempre existiu. O que Benjamin percebe é que a arte se torna, com a fotografia e o cinema, uma técnica serial, produzida não com o objetivo de ser original, mas de ser copiada e divulgada intensamente. Mesmo a fotografia analógica, já é uma cópia do negativo. É isso o que ele diz.
      Claro que existem diferenças enormes entre a época que ele analisa e a que vivemos hoje. Mas acredito que ele trata de uma prática (reprodutibilidade) que se impõe na produção ocidental até os nossos dias. Todos os arquivos digitais, todos os arquivos que publicamos na internet, são cópias. Acho que a matriz, no mundo digital, não é importante.
      Não falei bem em releitura, mas em compartilhamento, cópia e divulgação. E é isso que acredito que se impõe na nossa forma de lidar com todas as matrizes, nessa prática de dizer que “qualquer problema, é só passar no photoshop”. Acho que essa prática de copiar, reproduzir, e repassar provocou toda uma mudança de comportamento. Que tem como uma das consequências, essa desvalorização da matriz. Não estou aqui defendendo: “queimem todos os negativos”. Só acho mesmo que as coisas não acontecem por acaso, nem por descuido descontextualizado.
      *e conversar é muito bom! =)

  3. Assunto fundamental.
    A arte não pode ser tratada como artigo perecivel. As mutações naturais pelo tempo, ainda assim, devem ser cuidadas para que não morra a obra original do artista.
    Muito bom esse papo.
    Abs,
    Fernando

  4. Bella disse:

    Meu comentário ao post anterior traz bem essa discussão. Acho que ele se aplica para comentar esse post aqui também, até porque tudo acaba se desdobrando.
    Concordo com Joana que devemos pensar na memória e reforço que a idéia de reprodutibilidade presente no modo de ser moderno, industrial, mudou a forma de percebermos as matrizes. E deve mudar mesmo.
    No digital, isso é levado ao extremo, não apenas no pensamento, no ser cultural, mas tecnicamente mesmo. Não existe mais original e nem matriz com o digital.
    No vinil, havia reprodutibilidade. Era a industria: milhões de discos iguaizinhos sendo reproduzidos e vendidos por ai. Mas, para reproduzir um vinil, precisa-se de um original em matéria a ser copiado. No digital não.
    O arquivo RAW que nossas câmeras geram é o mesminho (mesmo sendo “outro”) do que descarregamos no computador. Informação é informação, não é matéria. E digital é informação. Se eu escrevo a palavra “FOTO” aqui e você escreve a palavra “FOTO” ali, ela continua a mesma palavra: F+O+T+O. A minha não é a matriz da sua, nem o contrário. Nenhuma é cópia, todas são a mesma coisa.

    Enfim, tou aqui bolando o próximo post do blog. Simbora continuar essa discussão?

  5. Maíra Gamarra disse:

    Opaa, cheguei para o debate! E queria contribuir apenas levantando a questão do nosso papel e responsabilidade diante de questões como as que debatemos esta semana. Falamos aqui sobre descuido com matrizes e arquivos (analógicos e/ou digitais), contratos (obrigada Diogo!), e, além do grande orgulho de ver estes temas sendo abordados e comentados em nosso blog, sinto a necessidade de lembrarmos que nós (fotógrafos) somos os agentes que movem este mercado. Então, até que ponto somos responsáveis pelos problemas que vivemos na pele, ou deveria dizer no negativo?
    Como as meninas muito bem falaram, sofremos com diversos problemas: memória, conservação, armazenamento, reprodução, direitos e deveres… Mas acredito que o principal problema é mesmo de comportamento! Nossas práticas e posturas diante de situações aberrantes que vivenciamos em nosso dia-a-dia e que tantas vezes vemos como comuns.
    A era da tecnologia é sim ma-ra-vi-lho-sa, sem dúvida, mas ela trouxe também a “mudança de comportamento” de que Joana falou, e é onde vejo um perigo enorme. Não, não podemos pensar que “qualquer problema, é só passar no photoshop” (mesmo que ele seja um recurso incrível) ou aceitar que se pagamos pouco estamos sujeitos a receber serviços ordinários. Nossa responsabilidade é muito maior e não podemos esquecer que ela está em nossas mãos.

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