Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Claudia Andujar

Claudia Andujar

Azul. Ou seria lilás? Luzes mágicas que envolvem uma escuridão quase absoluta. Riscos, contrastes, silhuetas. Eu vejo movimento, fluxo, leveza. Estou hipnotizada. A contemplação atinge um nível de transe.

É incrível quando uma imagem se basta em si só, indescritivelmente. Na semiótica, chamamos isso de “ícone puro”, o que, na verdade, é uma coisa impossível de ser alcançada para os seres humanos (é que temos a tendência de querer interpretar tudo), mas essa imagem me presenteia com um tempo expandido de “apenas sentidos”. Olhei, vi o azul, senti o azul, com toda sua força, para só depois poder concluir: azul. É nessa conclusão que o ícone puro nos escapa. Mas me permitiu um mergulho fantástico no não-simbólico.

Eu ficaria para sempre olhando essa imagem e não me importaria saber sobre ela, nem sobre o que ela quer me mostrar. Mas apenas sobre mim e o que eu estou sentindo diante dela. O transe que talvez esteja representado nela não me prende ao me deparar com ela, mas, sim, o meu transe ao experimentá-la. Num primeiro momento, ela ME atinge. Ela me faz mergulhar em sensações, sentimentos e experiências só minhas. Não sou transportada para o mundo da fotógrafa, nem mesmo do objeto fotografado, mas para o meu próprio. E ficaria extasiada nesse primeiro momento por um bom tempo, sem sair do meu próprio mundo/ego/corpo/pensamento. Uma meditação profunda. E bastaria apenas essa primeira viagem para já me bastar a existência dessa fotografia, pois poucas delas me permitem esse tipo de vivência.

Mas, com o fim desse longo transe, naturalmente logo vou me questionar sobre a imagem, para além de mim. Uma pessoa dança com um bastão na mão. Seria mesmo um bastão? Quem seria essa pessoa? Ela dança mesmo? Tem certeza que é uma fotografia? Tem certeza que é uma imagem estática? Que lugar é esse? Parece cinema. A viagem segue em outro rumo: o que será isso que se apresenta diante de mim? Passeio o meu olhar naquela imagem, naquele retângulo preenchido de objetos, confusos ao meu olhar. Seriam mesmo informações? Eu saio do nível do ícone, para atingir um nível de índice, de rastro, de vestígio, que essa fotografia me dá. Tento desvendar seu objeto, mas tudo me diz que não consigo sair do mundo mágico.

Então, preciso passar para o nível do simbólico. Preciso interpretar, buscar informações, traduzir, pesquisar. Preciso saber. E descobrir que se trata de uma fotografia de reportagem torna tudo mais mágico ainda. A que ela me reporta? O que ela me provoca criticamente? Índios yanomami. Rituais. Magia. Mesmo no nível do simbólico, essa imagem de Cláudia Andujar exala o fantástico. O que ela quer dizer? Não sei verbalizar. Mas ela diz. Olhar as outras fotografias que compõe o mesmo ensaio é entrar mais ainda na dança.

Obrigada, Andujar, por nos dá lições de fotografia, lições de verdadeira reportagem, lições de arte, lições de quem sabe criar imagens com sensibilidade e vida própria, sem rótulos, sem clichês. Obrigada por nos permitir esse transe. Amém.


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Sobre bellavalle

Fotógrafa, pesquisadora, professora da UFPB, mestre pela PUC/SP, doutoranda pela UFPE e amante da vida.
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