Diário de Bordo – Fest Foto PoA 2011 – Os múltiplos espaços do festival

Mestre Julio Santos fala sobre técnicas, escolas e história da fotopintura em almoço com integrantes do Fest Foto Poa no Mercado Central de Porto Alegre – Foto: Ana Lira

Com colaboração de Ana Lira

O meu caminhar pelo terceiro dia do festival ocupou múltiplos espaços. O dia começou com um almoço no Mercado Municipal de Porto Alegre. E foi uma delícia ver João Roberto Ripper, Alexandre Sequeira e Dante Gastaldoni descobrirem o mestre da Fotopintura: Júlio Santos. As histórias de Mestre Júlio encantaram a todos. Bonito de ver tanta gente que “não bota chifre na profissão”como pontuou Santos. Bonito de ver tanta gente que se respeita e tem carinho pela humanidade do outro.

Ontem, também, foi o dia de flanar por entre as imagens. Fiz um belo passeio pelos espaços dedicados às fotografias. Me encantei com as fotos de Nair Benedicto e Mario Cravo Neto projetadas no lugar destinado ao Álbum de Família. Elegi o Espaço Memória como meu cantinho do festival, uma salinha criada para reproduzir as fotografias que guardam a memória visual dos rastros familiares. Foi bom rever o belo trabalho da Anna Kahn.

Também vi a exposição de Marc Riboud e me encantei com mostra Luiz Carlos Felizardo. Foi bom passear com ele, ou como bem disse o Cristiano Mascaro no primeiro dia do festival, deu uma vontade danada pra fotografar. E a única mesa que acompanhei durante o dia foi a Encontros com o Autor, com Carine Waullauer e Gabriel Honzik e com os nossos amigos Priscilla Buhr e Alexandre Severo, ambos vencedores do Fotograma Livre de 2010. Depois de várias conversas com Ana Lira, decidimos que escreveríamos juntas o texto sobre o que vimos no debate, de modo que a produção do texto abaixo traz reflexões coletivas.

Alexandre Severo, Priscilla Buhr, Carine Waullauer e Gabriel Honzik – Foto: Ana Lira

A mesa ficou claramente dividida em dois momentos bem distintos. Carine Waullauer e Gabriel Honzik, ganhadores da categoria coletivo do Fotograma Livre de 2010, mostraram suas fotos separadamente (várias realmente lindas, diga-se de passagem). Assim, o público que não esteve presente no ano em que eles ganharam o prêmio ficou sem saber que ensaio eles apresentaram ou como construíram a edição das imagens, uma vez que as fotos do ensaio foram diluídas entre outras que cada um deles produziu desde então.

Diante da apresentação dos dois, ficou a pergunta: eles são um coletivo ou apenas um casal que decidiu expor suas fotos juntos? Isso os torna um coletivo? Eles não falaram sobre isso durante a exibição das fotos, pontuando apenas que não se consideravam fotógrafos, que a fotografia era uma atividade como outra qualquer na vida deles e as imagens eram resultado do material que eles produziam no cotidiano familiar, sem qualquer pretensão.

Gabriel também causou polêmica ao afirmar que hoje ninguém consegue definir o que é uma foto boa ou ruim. Recebeu de volta uma avaliação do diretor do FotoRio, Milton Guran, que disse que talvez ele (Gabriel) não soubesse o que era uma fotografia boa ou ruim, mas que uma pessoa experiente em fotografia sabe reconhecer quem tem olho e quem não tem. E disse ainda: “vocês têm olho, mas precisam investir nisso, estudar fotografia para saber o que estão fazendo”.

Priscilla Buhr e Alexandre Severo, ganhadores da categoria individual do mesmo ano, apresentaram os trabalhos e seus respectivos processos de criação, comentando desde o que os motivaram a desenvolver cada proposta até as soluções que deram para os desafios encontrados no fazer próprio de cada técnica fotográfica utilizada para compor os ensaios.

Alexandre mostrou Os Sertanejos, uma pauta feita para o Jornal do Commercio, de Recife, baseada nos 100 anos do livro Os Sertões, de Euclides da Cunha. Para desenvolvê-la, ele utilizou uma estrutura mais enxuta de estúdio para fazer os retratos, que a princípio, seriam 3×4, mas ele optou por construir duas outras formas de narrativas e negociar com a editoria a publicação de uma idéia mais inovadora.

Priscilla Buhr apresentou o Auto-Descontrução, um ensaio pessoal realizado em 2010, que foi motivado pela experiência que a fotográfa teve em uma oficina de Claudio Feijó. Desenvolvido com light painting, o ensaio gerou 14 imagens finais que foram expostas em Recife junto a uma mesa com algumas fotografias “não selecionadas para a edição final” que foram acompanhados por textos da fotógrafa.

Milton Guran também fez ponderações sobre os trabalhos de Severo e Priscilla Buhr. Ele comentou que Buhr poderia ter refinado mais o ensaio, mas informou à fotógrafa, em primeira mão, que a exposição dela foi selecionada para a edição deste ano, que ocorre em junho, o que a deixou bem feliz. Guran fez reflexões ainda sobre as escolhas que Severo fez para o jornal, pontuando o quanto foi importante ele ter realizado um plano B para a negociação. As avaliações de Guran, contudo, tomaram um espaço significativo do tempo, de modo que o público não fez mais perguntas depois de suas colocações.

Pelo avançado da hora foi bom, mas por outro lado, o festival perdeu a oportunidade de discutir algumas questões importantes. Diante da produção em massa de fotografia no mundo é de extrema importância discutir sobre esta balança que tende a pesar igualmente duas formas de produção completamente distintas. Talvez isso tenha ficado mais claro no FestFotoPoa porque a mesa era chamada Encontro com o Autor.

Em geral, esse recorte mostra trabalhos em que a autoria é consciente e os trabalhos se situam em perspectivas políticas, filosóficas, afetivas produtivas, artísticas, sociais, econômicas, entre outras. De repente, uma mesa chamada simplesmente de “Fotograma Livre”, pudesse abarcar as diferenças entre as propostas fotográficas presentes sem antagonizá-las ou criar situações delicadas. Apesar disso, o resultado foi muito bom tanto para os participantes quanto para o público, que desdobrou as conversas nos dias seguintes do festival.

Mais imagens do dia:

Leituras de Portfólio mobilizaram boa parte dos presentes em dois dias do festival – Foto: Ana Lira

Dez leitores, cinco a cada dia, viram e discutiram os trabalhos dos fotógrafos – Foto: Ana Lira

Exposição de Felizardo foi um dos pontos altos do festival – Foto: Ana Lira

Esse post foi publicado em Diário de Bordo e marcado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s