Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Eustáquio Neves

“Val, olha isso aqui.” Foi o que me disse uma amiga com a simplicidade e a sabedoria de quem vai apresentar um mundo a alguém. Eu não sabia, mas ela me apresentava um desvio no meu caminho.

Eu peguei o livrinho sem muita curiosidade, mas atenta as instruções de olha-lo com calma. E a cada página um mundo se revelava. E era tanto o que transbordava, que eu podia ficar olhando pra sempre todas as fotografias de Eustáquio Neves.

As cores, os temas, o movimento e a plasticidade de suas imagens, construídas com manipulações de negativos e cópias, somadas a uma realidade feita de fragmentos, são uma belíssima e delicada maneira de tratar questões sociais. Uma verdadeira assemblage fotográfica.

E foi a fotografia dessa mulher, nua e quase sem rosto, que me transportou para um lugar pouco conhecido, um lugar onde a razão e os instintos se misturam, onde as nuances se esvaem e não há possibilidade de definição e de controle.

Essa fotografia, assim como todas as outras, abriu uma brecha em mim, trouxe o desassossego e me encheu de uma música selvagem. Criou um espaço novo, de uma alegria profunda e desconhecida, um lugar de névoas e sonhos, de cores e de uma nova dança.

Eu podia ficar olhando pra sempre essa foto de Eustáquio Neves, que inaugurou em mim a necessidade de um outro corpo e de um outro olhar, que me fez ter olhos pra ver.

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