Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Simona Ghizzoni

Aftermath | Simona Ghizzoni

Esta não foi a primeira imagem de Simona Ghizzoni que mexeu comigo. Pelo contrário, entre as onze que eu conhecia do ensaio Aftermath, essa foi a que mais demorou a assentar na minha mente e, talvez por isso, foi a única que eu não esqueci várias horas depois de ver parte do trabalho. Eu estava particularmente interessada em outra imagem do mesmo projeto, mas sempre que começava a dialogar com a que escolhi primeiro, esta fotografia interrompia meu fluxo de pensamento como se me pedisse uma conversa.

É possível negar uma conversa a uma imagem que te chama?

Durante um bom tempo pensando nesta pergunta refleti que nossas escolhas são feitas, também, por meio de temáticas que ficam rondando a nossa psique enquanto tentamos resolver nossas questões cotidianas. Assim, mais do que ser uma bela imagem, esta fotografia fixou-se em mim porque me falou de transmutação. O momento em que percebemos que não somos mais. Ou que somos alguma outra coisa…bem…diferente. E melhor, apesar do medo.

E qual não foi a minha surpresa quando fui ler sobre o ensaio e descobri que Ghizzoni realizou as fotografias de Aftermath para expressar este momento em que as mulheres percebem em si uma ruptura e celebram o adeus das ilusões ligadas às crenças que evitam o amadurecimento. Ela abordou neste trabalho a perda da inocência e as suas fantasias infantis que hoje diz serem “visões etéreas de um mundo que eu não consigo mais alcançar”.

Por isso, eu fui buscar um pouco mais os bastidores das produções de Simona e encontrei uma apresentação publicada na edição impressa da Burn Magazine que diz que ela se especializou em história da fotografia, por meio de um estudo que enfocava a fotografia psiquiátrica. Um belo campo de pesquisa, no qual seu próprio trabalho se alimenta e propõe outras questões.

O nome do ensaio, por exemplo, é uma metáfora para o que fica após as grandes tempestades. A essência. A base. A semente do recomeço. E esta imagem do post, em específico, continua me tocando porque remete à coragem de dizer não ao colo quentinho dos valores que aprisionam e à queima daquilo que não nos pertence mais.

A capacidade da fotógrafa de tocar no assunto por meio de imagens é impressionante É um dos poucos ensaios que consegui ver a maturidade da discussão em cada uma das fotografias singularmente, na narrativa em sua ordem direta e em uma tentativa que fiz de lê-las na ordem inversa – que, por sinal, me pareceu muito mais instigante. Um exercício que reforçou ainda mais a força sintética de Aftermath e minha conexão com a imagem que sutilmente me chamou a conversar.

Assim, Olhar Para Sempre esta foto de Ghizzoni é lembrar de abrir o caminho no momento em que a fissura aparece; não ficar insistindo na primeira tentativa quando outras te instigam para novas conversas; e saber que algumas vivências, por mais significativas que sejam, trazem apenas o ponto de partida para um universo bem mais resolvido. Universo esse que pode aparecer impresso em provas-contato, nas mudanças que provocamos no nosso entorno ou naquelas sutilezas que mais ninguém além de nós é capaz de distinguir.

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Uma resposta para Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Simona Ghizzoni

  1. Val Lima disse:

    Aninha, algumas pessoas tem bastante sensibilidade para ver as mudanças e silenciar sobre elas. Acredite!

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