7Aniversário – Fotografando para (se) reconhecer

Falar da minha história com a fotografia é uma coisa delicada. Eu sempre fujo de assuntos de origem, porque é como se a origem estivesse em cada parte do percurso. Eu me vejo, até hoje, vivendo momentos que parecem novos começos de alguma coisa minha com a fotografia. É difícil separar meus pensamentos e minhas emoções da minha relação com imagens.

Mas a relação da fotografia com memória e reconhecimento é algo que sempre mexeu comigo, mesmo quando eu não tinha consciência disso. Vou contar um “causo”: quando eu era criança, eu costumava acreditar que era adotada. Explico: Meus pais tinham fotos do parto da minha irmã do meio, Thais, (e depois, da caçula, Bruna, também) e não tinham do meu. Eu achava muito estranha a existência do álbum dela, mostrando seu nascimento, e não encontrar nenhum registro desta espécie do dia em que vim ao mundo. E, como desde criança eu sou meio adepta a teorias da conspiração, ao ouvir o mundo inteiro me dizendo ser “a cara” da minha mãe (coisa que o espelho não me dizia), eu desconfiava que se tratava de um complô, para me convencer de que eu era filha dela.

Os tempos passaram e eu nunca levei como grave o fato de poder ser adotada (tava tudo bem com meus “pais adotivos” mesmo, mesmo eu tendo certeza hoje de que eles também são geneticamente meus pais ), mas a coisa de buscar minha história e meu reconhecimento como gente na fotografia sempre foi uma marca minha. Pedia para minha mãe contar histórias dos momentos fotografados, inventei lembranças, criei situações, me confortei com mentiras, conheci verdades, tudo através de poucos álbuns de família.

Nascimento de Thais | Álbum de família

Esse negócio de registrar imagens pirava minha cabecinha infantil. Lembro que, pensando em ser cientista (e já fascinada por tecnologia e essas coisas – nós mesmos – que hoje chamamos de ciborgues), meu sonho era inventar uma lente de contato que fotografasse, focasse, tudo isso, só com o uso do olho (e do cérebro, claro). Vi depois todas essas “minhas invenções” aparecerem em filmes de ficção científica ou até mesmo virarem invenções de verdade (câmera que dispara com sorriso, gente!). Mas nunca tinha pensado em ser fotógrafa. Nunca mesmo.

Até que um dia eu quis ser cineasta e fui fazer jornalismo (sim, porque não havia ainda curso de cinema no Recife). Aí viajei pra passar um ano na Espanha, estudando cinema. E, lá, a fotografia disse “oi” pra mim de forma mais cruel. Ver mundos diferentes e querer registrá-los foi um pulo pra eu querer comprar uma boa câmera e explorar melhor as imagens que tanto desejava fazer e possuir. Sim, fotografando meus “turismos” mesmo. Depois disso, eu pensei em ser fotógrafa. E simplesmente fui.

Essa vontade de reconhecer lugares em que passei, de me reconhecer como pessoa, de construir identidades, de entender quem eu sou e as experiências que me cercam é que me move como fotógrafa. Meus autorretratos desconexos são frutos disso. Não há uma série, não há um trabalho pensado, há uma ou outra fotografia de mim mesma desejada. Eu me experimento através da fotografia.

E a minha vida hoje é fotografia. É imagem. É pensar o mundo, olhá-lo e buscar entendê-lo, ou mesmo me situar nele, experimentando-o também. É assim na minha pesquisa acadêmica, no meu trabalho de professora, nos freelas que pego, nas conversas em mesa de bar, nas brincadeiras. Respiro fotografia, penso por imagens, e nem eu mesma esperava que viesse a ser conscientemente assim. De repente, meu movimento me levou a isso, e, pelo que tenho observado, me levará cada vez mais.

Autorretrato no chuveiro | Bella Valle

Sobre bellavalle

Fotógrafa, pesquisadora, professora da UFPB, mestre pela PUC/SP, doutoranda pela UFPE e amante da vida.
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