7Aniversário – Fotografia para sentir

A fotografia nunca foi um caminho muito fluido na minha vida. Talvez porque as coisas assim não o eram para mim. Ela foi um aprendizado difícil e, por vezes, doloroso, de um processo que hoje se mistura com a pessoa que eu sou.

Tenho a leve impressão de que foram as fotografias que me ensinaram a sentir…

Aniversário | Arquivo Pessoal

Quando criança, eu adorava remexer nos álbuns de família e era capaz de permanecer horas olhando aquelas imagens que me falavam de um tempo em que eu não existia.

Eu também gostava de rever minhas próprias fotos e lembrar dos meus momentos queridos. E foi remexendo nessas imagens que eu descobri, ainda muito pequena, o que era solidão.

Era a mesma foto de mais um aniversário. O vestido branco e azul que eu tanto amava, a boneca Emília em cima do bolo e eu provavelmente ensaiando uma pose para ser fotografada. Não lembro bem a idade que eu tinha, talvez uns seis, sete anos, quando olhei para essa foto de uma maneira diferente. Não era mais uma fotografia do meu aniversário, era eu mesma, sozinha, sentindo a mais absoluta solidão.

Lembro dos meus olhos enchendo de lágrimas, do nariz entupido e do desespero por me sentir tão só. Não me conformava de estar alí sozinha, me sentia abandonada.

Fui até minha mãe perguntar o porque e, insatisfeita com a resposta, de que estava sozinha apenas para posar para foto, pus-me a soluçar e chorar copiosamente.

Nunca tinha parado para refletir sobre esse episódio, mas hoje, revendo essa foto, sinto quase que a mesma dor que senti quando criança. Acho que a menina que eu era tinha razão de reclamar da solidão. É uma foto triste.

Quando adulta, já na faculdade de Letras, eu não sabia exatamente o que queria fazer da vida e vivia um período bastante delicado e de muitas incertezas. Foi quando resolvi estudar o que há tempos eu paquerava de longe. E de novo, através da dor e da tristeza, a fotografia invadiu a minha vida, tentando me dizer dos meus próprios sentimentos e me apontando, o tempo inteiro, um caminho. Mas ainda faltavam os olhos de ver…

Foi quando ganhei uma bolsa para participar de um encontro de estudantes na França. Saí do Brasil com uma câmera analógica nas mãos e feliz por ver a vida fluir.

Museu do Louvre | Val Lima

O que eu não podia imaginar era que na primeira noite em Paris, no pátio vazio do Museu do Louvre, eu sentiria as mesmas coisas que senti quando entrei num laboratório pela primeira vez: vida pulsando forte e sensação de liberdade. Impossível não pensar na minha relação com a fotografia na cidade luz. Me fiz flaneuse em Paris e ganhei os olhos de ver…

Hoje, percebo que finalmente ouvi essa jovem senhora, mas sinto que ela ainda tem muito para me dizer. Ainda preciso sentar na cadeira da sala, com a cabeça em seu colo, e chorar, levantar a cabeça insolente de mulher e fotografar mais.

E foi me fotografando que eu descobri que fotografo para saber o que sinto, para entender o mundo e para me entender. Porque é através da fotografia que eu descubro quem eu sou, que eu me reinvento.

Autorretrato | Val Lima

Engraçado, há pouco tempo sonhei com a menina que fui, a mesma que chorou pela sua solidão, nós nos encontrávamos num saguão de aeroporto, ela me pegava pela mão e não estava mais triste, pelo contrário, ela me sorria cúmplice, como se soubesse das fotos alegres que eu estou prestes a fazer.

E agora, diante de uma vida nova, posso dizer que a fotografia é corpo, sentimento e liberdade. E que eu aprendi a sentir.

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