7Perguntas – Georgia Quintas

No nosso primeiro #7Perguntas do ano trazemos para vocês uma conversa bem gostosa com Georgia Quintas sobre a curadoria da exposição coletiva “Fábulas e Encontros”, em cartaz desde o dia 9 de fevereiro na Fauna Galeria, em São Paulo, que apresenta os trabalhos de Ana Beatriz Elorza, Bruno Vilela, Claudia Jaguaribe, Flávia Sammarone, Ilana Lichtenstein, Luana Navarro e Sheila Oliveira.

Georgia é pernambucana, mora em São Paulo, desenvolve um belo trabalho como professora e pesquisadora no campo da teoria, filosofia e crítica da imagem fotográfica, é autora do blog ExtraQuadro (que tanto gostamos e indicamos muito a leitura) e ao lado de Alexandre Belém, edita o Olhavê. A parceria entre os dois também se faz presente na curadoria de atividades para o Festival Foto em Pauta – Tiradentes, que terá a sua segunda edição entre 14 e 18 de março de 2012. Atualmente, Georgia também é a Coordenadora da Pós-graduação em Fotografia da Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP, em São Paulo.

Nessa conversa conosco, Georgia fala dos processos de concepção e edição da exposição, entre outras questões bem instigantes sobre a mostra. Agradecemos a ela por ter aceito participar da nossa seção e pela atenção e carinho em suas respostas.

 Ao longo de toda história da fotografia, ela foi utilizada como linguagem de concretizar sonhos, fábulas, encenações oníricas, autorrepresentações de memórias e ilusões. Você selecionou imagens contemporâneas que integram esse universo. Em sua opinião, essa construção estaria relacionada a alguma essência fotográfica? Estaria a estética da fotografia, mais do que em uma questão indicial, nesta relação de concretização visual de um imaginário? Fale um pouquinho sobre isso…

Não consigo compreender a fotografia sem entrar ou sair da imagem sob esta dimensão do simbólico. Há vários pressupostos teóricos e contextos diacrônicos e sincrônicos que nos dão referências de análises e significações. Pessoalmente, como pesquisadora, sempre me surpreendo com o que vai além da emanação do real. E é nesta conduta que sigo na busca de imagens contemporâneas de fotógrafos e artistas visuais. É acachapante o vigor do mundo imagético que nos cerca. Apesar desta premissa que você coloca da “concretização visual de um imaginário” – que norteia também minhas colocações, há também a fotografia das estratégias, que parte de projetos, conceitos delineados (mesmo que a priori esboços), buscas profundas que configuram trabalhos mais conceituais que requerem em muitos casos, o exercício das residências… Diria que algo que se aproxima da imersão da ideia.

Acho que, cada vez mais, os fotógrafos pensam sua imagens, é o objetivo, o carinho por elas e a tentativa de transfigurar seus desejos que tornam um ensaio interessante. Devemos ter sempre em mente que sem elas – as imagens – esse outro mundo que tentamos abarcar em seus mistérios e profundidades é um elo não perdido, mas sim permeável pela percepção e os discursos do que era, é e será uma imagem fotográfica. O mais importante será sempre a imagem, mas temos que considerar (como certa vez falou Joan Fontcuberta) que a fotografia vem se tornando também a maneira de como a recepcionamos. O próprio François Soulages aborda esta perspectiva da construção da fotografia a partir do Outro.

Percebemos uma forte unidade estética e narrativa nos trabalhos apresentados no “Fábulas e Encontros” mesmo se tratando de ensaios conceitualmente heterogêneos produzidos em momentos diferentes da vida de cada artista. Como se deu o processo de edição desse material? Os artistas tiveram que participação nesse processo?

A edição e o recorte são a parte mais importante de uma curadoria para uma mostra coletiva como esta. Tive aproximações e encaminhamentos de pesquisa distintos com cada autor. Conhecer trabalhos e ir atrás da produção de fotógrafos não tão difundidos é uma das minhas inclinações. Nesta exposição, caminhei por esta busca. Chego a estes artistas por várias frentes.

O trabalho da Sheila Oliveira eu conheci através do edital que fizemos no Olhavê para a projeção em Paraty. Com a Claudia Jaguaribe, que tenho mantido um diálogo com seu acervo, desde o começo queria integrar imagens do seu arquivo com jovens artistas. Flavia Sammarone, uma lembrança, que me fez a procurá-la pela internet e conhecer mais de perto sua produção delicada e poética. Ilana e Ana Beatriz são minhas alunas. Luana Navarro, já conhecia alguns trabalhos e nos aproximamos pela web e em Paraty. E Bruno Vilela que é um artista querido que já acompanho há bastante tempo. Depois de ver as possibilidades de cada artista, escolhi os ensaios ou fiz a edição.

Os artistas participam sempre, coloco para eles meus argumentos para tais escolhas e/ou edição. Vejo o processo curatorial como ordenação e conceituação para que a proposta de dada exposição tenha coerência a fim  que as obras sejam enfatizadas em suas particularidades, conceitos e poéticas.

"Dores da Alma" (2010-2011) | Sheila Oliveira

“Dores da Alma” (2010-2011) | Sheila Oliveira

"Uma e Outra Erupção" (2009-2011) | Ilana Lichtenstein

“Uma e Outra Erupção” (2009-2011) | Ilana Lichtenstein

"Ofélia" (2010) | Bruno Vilela

“Ofélia” (2010) | Bruno Vilela

Memória, encenação e fantasia foram três elementos que você utilizou para alinhavar os trabalhos desta exposição, mas faz um bom tempo que eu percebo que estes são temas que sempre retornam nos trabalhos em que você se envolve. O que te atrai na memória, na encenação e na fantasia? Em que momento da sua vivência como pesquisadora da imagem você percebeu que esses temas traziam questões centrais para você e por quê?

As imagens sempre “flutuaram” em minha formação e digo isso de forma extensiva à minha infância. E elas perpassavam por várias expressões a fotografia propriamente, mas também pela palavra – a literatura – e a pintura. A fotografia se desenvolve e contempla não só esses três elementos que você coloca na pergunta porém mais ainda. Os desdobramentos epistêmicos da imagem fotográfica são infindáveis, cabe a nós mantermos a sensibilidade sobre a aderência de aspectos de comunicação e sentido; de estratégias de discurso e intuição; função histórica e sociológica; da construção e desconstrução de imaginários, entre outras linhas de pesquisa.

O trabalho do curador é, ainda, um tanto quanto polêmico, mas já se entende o papel fundamental deste como agente no processo de criação da exposição. Como você percebe esse papel? Qual o maior desafio de um curador?

Não entendi o que você quis dizer com “polêmico”. Não ficou clara essa colocação. A figura e função do curador é algo que se define mais claramente na contemporaneidade. Há várias inflexões, motivações e objetivos curatoriais. Não esqueçamos que a curadoria passa pelo olhar e portanto é um trabalho também de cunho subjetivo.

A curadoria é fundamentalmente um processo de conexões artísticas, de justaposição de situações conceituais nas quais as obras se desvelam ou que são suscetíveis de serem organizadas numa conduta de apresentação. Uma proposta que coloque o olhar e a fruição para com a imagem de modo coerente e acessível. E sobretudo cuidadosa com a produção imagética, matéria fundamental para que a atividade do curador exista.

Além de curadora, você também coordena o curso de pôs-graduação em fotografia pela Faap. Partindo do ponto de vista de uma profissional que acumula funções tão importantes no circuito social da fotografia, como você enxerga a formação de uma platéia mais interessada em consumir fotos no Brasil?

Acredito que a questão principal e fundamental é a formação. Formação do fotógrafo e o aumento do seu repertório. Formação de profissionais que queiram trabalhar a fotografia de um modo mais teórico e de pesquisa.

Você também tem contribuído com a construção da programação de alguns eventos e festivais, como o Foto em Pauta – Tiradentes. De que maneira estes espaços contribuem para a construção de novas percepções da fotografia? Existe algo que ainda não foi abordado (ou é pouco abordado)? Do que você sente falta?

Todos os festivais e eventos que tem ocorrido no Brasil servem para a formação de público. A prova é os encontros da Funarte de décadas passadas que reverberam até hoje na geração de artista consagrados como Tiago Santana e Miguel Chikaoka. No Festival de Tiradentes, procuramos (eu e Alexandre Belém) levar a fotografia na sua forma mais abrangente. A fotografia é múltipla, em interesses, problemáticas, dinâmicas conceituais, amadora, diletante, profissional… É na imagem que todos a acessam para então discuti-la em outros âmbitos teóricos (histórico, filosófico, antropológico, sociológico, etc.).

Para o público de Tiradentes, com o Ciclo de Ideias, temos o momento de discutir, refletir distintos autores e questões que envolvem a criação e o mercado fotográfico. Como também, haverá encontros sobre fotografia de natureza, fotografia com iPhone, etc.

É nessa perspectiva de debater a fotografia e suas especificidades que estamos em outro projeto que tem também essa linha de força sobre o pensamento fotográfico. Somos os curadores de um evento que ocorrerá no MIS em São Paulo. Se chama I Encontro Pensamento e Reflexão na Fotografia – Por que pensamos a Fotografia? Acabamos de fechar a programação.

Do que ainda você pode contemplar que ainda não imaginou?

Não sei. Que os fotógrafos me mostrem. Que sempre possa ver o novo, o encanto, uma história, uma imprevisível narrativa…

___

Exposição coletiva Fábulas e Encontros
Onde: Fauna Galeria :: Al. Gabriel Monteiro da Silva, 470. São Paulo
Quando:  de 10 de fevereiro a 24 de março de 2012
Terça a sexta, das 11h às 19h, e sábado, das 11h às 15h.
Entrada franca
Informações: (11) 3668 6572

Sobre 7 Fotografia

Fotografia estudos discussões
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6 respostas para 7Perguntas – Georgia Quintas

  1. clicio disse:

    Sensacional a exposição; lúcido, abrangente e inclusivo o discurso da Geórgia.
    Sou fã!

  2. Pingback: #Diário de Bordo – II Encontro Pensamento e Reflexão |

  3. Pingback: Diário de Bordo – II Encontro Pensamento e Reflexão – 1 | 7 Fotografia

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