Plataforma – Welcome Home

Welcome Home | Gui Mohallem

Uma das coisas que mais me fascinam na relação que estabeleço com qualquer pessoa é conhecer o seu processo criativo. É compreender, mesmo que minimamente, as motivações de quem está do outro lado construindo um sentido de estar no mundo. Entre os fotógrafos que eu tive a oportunidade de conhecer melhor nos últimos anos, Gui Mohallem está entre os que mais me interrogam com os seus trabalhos.

Entre eles está Welcome Home – um dos seus projetos de maior repercussão ao lado de Ensaio Para a Loucura (Rehearsal to Madness) –, em que Gui elabora com muito cuidado uma leitura pessoal de temas como acolhimento e abandono. O ensaio surgiu durante a sua convivência com as pessoas que participavam da celebração do Beltane, em um santuário localizado no estado do Tennessee, nos Estados Unidos.

Entre as leituras que fiz sobre o ritual, fui descobrindo que a celebração do Beltane remonta aos cerimoniais celtas que eram realizados no hemisfério norte em homenagem aos ciclos naturais, à fertilidade e à união das energias masculinas e femininas, que proporcionavam o renascimento. Os festivais atuais, no entanto, celebram o reencontro com a vida agregando, também, uma necessidade de vivência mais harmônica com a sensualidade humana.

Além disso, no caso do santuário fotografado por Gui Mohallem, há ainda o desejo de estabelecer por meio de outras referências pessoais e coletivas um novo sentido de família. É um “retorno à casa (…) O fotógrafo se põe no meio da entrega sensual, da partilha da comida; se põe ali, com passos de libélula, contemplando a celebração (e portanto está fora) e participando da sua construção (e portanto está dentro), ao mesmo tempo”, diz o curador Gabriel Bogossian, no texto de abertura do trabalho, que depois de quatro anos itinerando pelo Brasil e pelos Estados Unidos vai ser transformado em livro.

Decidi falar sobre a produção desta publicação no #Plataforma não apenas porque é bacana ver este projeto materializado em livro, mas por envolver um processo de criação que vai além do desejo de querer figurar nas prateleiras das pessoas. Gui Mohallem e Bogossian andavam conversando sobre possibilidades e desdobramentos do Welcome Home até que, durante as leituras de portfólio que Gui participou ano passado no PhotoEspaña, a maioria dos curadores indicou a produção do livro.

Eles, então, pensaram em fazer um livro eletrônico como forma de conseguir atrair a atenção das editoras para uma publicação impressa. Gui iria aproveitar a oportunidade para rever todo o conteúdo produzido e ir editando o material para um futuro impresso, incluindo os textos e outros desdobramentos, como os vídeos que participaram da campanha de pré-venda da publicação.

Porém, algumas conversas com o programador mostraram que talvez o e-book não fosse a melhor solução. Gui contou que foi um choque saber que a Apple poderia censurar parte do conteúdo por conter cenas de nudez. “Welcome Home poderia ser publicado, mas parte importante da série que traz um viés sensual/sexual do trabalho poderia (e poderá) ser suprimido pela loja oficial. E essa série só faz sentido na combinação do desejo e do pertencimento.”

Por ser uma temática muito significativa para a representação simbólica do ensaio, Mohallem optou por buscar outras soluções para viabilizar o livro. Descobriu, então, que os 1200 pôsteres feitos para divulgar o trabalho, quando ele esteve exposto na Galeria Emma Thomas, em São Paulo, no primeiro semestre de 2011, haviam esgotado. Assim, surgiu a idéia de fazer prints-pôsteres e comercializá-los como forma de pré-venda do livro, que deve sair ainda este semestre.

Um detalhe importante do processo criativo de Gui é que ele se estende da conceituação à produção. Ele pesquisa cada etapa da materialização de seus ensaios, participando da escolha das formas de impressão, apresentação, exibição e divulgação. Isso também ocorreu com os prints de Welcome Home. “Fiz vários testes de impressão e acabei por decidir imprimir eu mesmo, um a um, na minha impressora fine-art pequenininha. Comprei vários papéis para testar e acabei conseguindo tons que me agradaram muito em um de papel de algodão para aquarela pra canson, o Montval.”

Print de Welcome Home | Gui Mohallem

Essa relação de proximidade que o fotógrafo constrói até chegar em quem está do outro lado do diálogo se desdobra em suas reflexões sobre o livro e o caminho que ele pode percorrer nas mãos das pessoas.

“Resolvi fazer um livro íntimo, de leitura lenta, de mergulho individual. O livro tem dimensão pequena, páginas grossas e alguns intervalos. Editei as 50 imagens do Welcome Home em 5 movimentos, com pausas entre eles. Ainda estou em dúvidas quanto ao quarto movimento. Está na hora de começar a dividir esse processo que, até agora, foi bem solitário. (…) Vejo o livro com um trabalho, um outro suporte para se dizer algo. O livro dá uma chance ao trabalho de ficar mais complexo (dada a sua extensão e possibilidades quase infinitas). Ele desobriga aquele com quem se quer falar de ir até onde a exposição está montada – e exige de mim outras estratégias para conduzir essa percepção, nas quais eu tenho pouca experiência, mas alguma intuição. Não posso controlar, por exemplo, as condições de luz que as páginas serão vistas. Nessa nova dança não faz sentido as horas e inúmeros testes no ateliê de impressão. Os testes ainda são muitos, mas são outros bem diferentes e desafiadores.”

Esta crença é talvez o que transforma os trabalhos de Gui Mohallem em mais do que simples ensaios fotográficos. Existe um fio condutor em suas discussões que procura diálogos e de alguma maneira encontra retornos em quem abre espaço para a sua obra. Não é à toa, por exemplo, que faltando apenas três dias para o final das vendas do prints (que se encerram no próximo sábado, dia 03 de março, pelo próprio site do fotógrafo), a quantidade de pessoas que atenderam aos chamados do fotógrafo, dentro e fora do país, garantiram a publicação do livro. Welcome Home aos poucos vai agregando à sua trajetória mais um sentido de acolhimento. Mais um laço de família.

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2 respostas para Plataforma – Welcome Home

  1. Já tinha visto virtualmente e a impressão de acolhimento, de ser benvindo, de muito amor é bastante forte. Um ensaio que mostra a nuvem e o cheiro dessa celebração.

    muito bunito, muito forte, muito bom
    .

  2. Pingback: Workshop e lançamento do Welcome Home com Gui Mohallem no Recife |

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