Plataforma – São Paulo 1971-2011

Há muito tempo eu não lia quatro contos em uma manhã. Hoje acordei com esse propósito: ler as quatro narrativas publicadas no livro São Paulo 1971-2011, antes de rever as imagens produzidas para a obra. Queria ver como a minha percepção visual reagia a essa inversão de prioridades entre as linguagens textual e fotográfica, uma vez que, nos últimos anos, quase sempre me agarrei com as fotografias antes de ler os textos publicados em paralelo.

A experiência foi bastante prazerosa, embora eu confesse que as imagens geradas por meio dos textos estavam um pouco enevoadas, como memórias vencidas. A falta de prática cobra seus tributos. Embora eu esteja bem conectada à fotografia nos últimos seis anos, a literatura sempre foi para mim uma incontrolável fonte de referências visuais. Passava dias refazendo cenas de contos que me entusiasmaram e consigo lembrar plenamente das várias noites em que fiquei sem dormir, assombrada com as imagens que criei do enredo de Passeio Noturno, de Rubem Fonseca.

Diante dos contos de São Paulo 1971-2011 não foi diferente. Mesmo sob névoas, meu museu imaginário foi acionado diante das deliciosas palavras de Luiz Ruffato, Ignácio de Loyola Brandão e Vanessa Bárbara – que além de imagens vigorosas e observações sociais afiadas, foi responsável por uma das melhores crises de risada nervosa que eu tive nos últimos tempos. O texto de Tony Belloto foi o que me rendeu menos estímulos. Tive dificuldade de mergulhar na visualidade do seu Hiroito porque este me parecia envolvido em uma crise de “ser ou não ser”, em que a identidade do escritor afeta a independência narrativa da personagem.

Essa minha percepção, no entanto, não diminui o valor do conjunto textual da publicação enquanto proposta de representação da cidade de São Paulo. Foi muito bacana pensar sobre ela por meio desses enredos e experimentar as sensações provocadas pelas histórias. Olhar para a trajetória da personagem de Água Estagnada, de Luiz Ruffato, e pensar em uma São Paulo de vários passados interrompidos, caminhos desviados e fugas. Passar para o conto seguinte, de Loyola Brandão, e ler a palavra frege, que nunca mais eu tinha visto alguém dizer, e ver borbulhar um dicionário inesperado de expressões populares que em momentos típicos assim são acionadas.

Drive In | Foto: Coletivo Paralaxis

Em meio a isso, foi possível também recriar vestígios visuais dos cheiros e cenários, que começaram a fazer parte da minha biblioteca imaginária quando eu li Contos de Bordel, de Ana Laura Diniz, Michelle Izawa e Renata Bortoleto em 2008. Essas referências foram importantes para mergulhar na rotina do centro de São Paulo criada por Loyola Brandão, antes de migrar para a atmosfera do bairro da Liberdade, descrita por Tony Belloto como um labirinto. Labirinto-Liberdade. O interessante é que durante a leitura, embora as horas do dia passassem, eu só conseguia visualizar Hiroito à noite, perambulando pelas ruas no escuro, como se estivesse no labirinto imaginado por Jorge Luis Borges, em que o encontro com o minotauro conduz à morte.

Este é um tema que toca em três dos quatro contos, em especial no de Vanessa Bárbara, em que a sua presença é poucas vezes citada, mas muitas vezes insinuada. O que está morrendo em São Paulo? Quantos suspiros por dia a sua dinâmica leva embora sob “custosas consequências sociais e territoriais que todos nós conhecemos, sobretudo os que, por receio ou insegurança, ainda não aderiram a essa entidade crescente de indivíduos em eterna expectativa, esticando os pescoços para enxergar mais além”, escreve em A Fila, que traz como subtítulo É preciso se arrepender dos pecados antes de chegar ao guichê. Fenomenal.

Cidade Tiradentes – construída no boom dos conjuntos habitacionais | Foto: Coletivo Paralaxis

Todo esse universo de referências literato-visuais encontra a companhia das cinquenta e uma imagens publicadas pelo Coletivo Paralaxis, formado por Luciana Cavalcanti, Stefan Schmeling e Fernando Martinho. Fotógrafos com marcas visuais bem próprias, é sempre bonito ver como eles conseguem elaborar um diálogo em seus trabalhos coletivos. Especificamente neste recorte que foi feito para a publicação, a São Paulo representada pelo coletivo ganha um tom bem menos melancólico do que a relatada nos contos e em outras histórias visuais.

Embora não fuja dos problemas enfrentados no cotidiano, entre eles a difícil relação no trânsito e o constante apagamento da antiga memória arquitetônica da cidade, a perspectiva do Paralaxis é capaz de reposicionar alguns estereótipos construídos acerca da metrópole como uma cidade impossível. É uma São Paulo poética e bem menos sufocante. Uma capital que ainda oferece meios de transitar por histórias interessantes, como a do Parque da Juventude, que abriga as ruínas do que seria um presídio e hoje é ponto de encontro de grupos que praticam Le Parkour.

É um respiro que propõe uma nova relação com a cidade e entre regiões que tradicionalmente não dialogam. Uma narrativa visual que instiga um desejo de circular por cenários que, mesmo estando naquela cidade há tanto tempo, estão a ponto de deixar de existir, seja pela tradicional substituição do “derruba-constrói” ou pelo esquecimento. Trazer esses espaços à tona é renovar a sua participação nos relatos que se fazem sobre a cidade atualmente, em que a fotografia tem sido uma linguagem ativadora de boas colaborações.

Playcenter, construído em 1973 | Foto: Coletivo Paralaxis

Instituto Tomie Otakie | Foto: Coletivo Paralaxis

Lanchonete e vestígios dos anos 70 | Foto: Coletivo Paralaxis

Por essa idéia de repensar as quatro últimas décadas da maior cidade do país, sob a ótica de um coletivo fotográfico e quatro escritores de expressões literárias completamente diferentes, São Paulo 1971-2011 é uma publicação que merece um carinho. Por meio dela eu percebi que é preciso criar mais conexões entre as linguagens que nos permeiam; afinar esse olhar que transita de dentro para fora (e vice-versa); e transcender, nem que seja por alguns momentos, o que Otto Lara Resende chamava, em uma de suas crônicas para a Folha de São Paulo, de vista cansada. Segundo ele, é por meio do exercícios de novos modos de ver que conseguimos evitar o monstro da indiferença.

Extras

Notícias e textos sobre o livro circulam pela internet há algumas semanas, mas ele será lançado hoje, às 19h, na Livraria da Vila, na Alameda Lorena, 1731, Jardins, São Paulo. Em breve deve estar sendo vendido nas livrarias do país.

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Uma resposta para Plataforma – São Paulo 1971-2011

  1. Projeto Verena disse:

    Proposta interessante, de primeiro momento para até complexo fazer essas reflexões, mas a integração imagem/texto às vezes pode ser bem sucedida.

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