Diário de Bordo – Foto em Pauta 2012 – Momentos em Tiradentes

Antes de qualquer coisa, uma carinhosa observação…

Sempre que fazemos a proposta do Diário de Bordo em algum festival ou ação relacionada com a fotografia, temos a intenção de usar esta ferramenta que se chama internet para nos comunicarmos mais rapidamente com as pessoas. Às vezes é possível, outras vezes, não. Foi o que ocorreu desta vez. A internet não ajudou muito em Tiradentes e, entre ficar procurando uma boa conexão e conseguir acompanhar o festival, Suelen Pessoa optou pela segunda opção (nós fizemos isso ano passado, também, em alguns dias em que a conexão ficou bem lenta). Diante destes imprevistos e da velocidade com que as coisas no evento ocorreram, refizemos o nosso pacto para publicar no 7 uma boa síntese do que ocorreu na cidade mineira. Boa leitura!

Por Suelen Pessoa

Eustáquio em Pauta

Eu já tinha visto algumas poucas obras do Eustáquio Neves pela internet, no blog SobreImagens mas não sabia muito sobre ele. Fiquei bastante impressionada de saber como é o processo criativo dele, pois ele já tem a imagem final pronta na cabeça muito antes de começar a fotografar. Para quem já viu o trabalho dele de perto ou sabe como é feito, isso se torna tão genial quanto assustador, pois são imagens muito complexas, cheias de camadas de sentido.

Todo o trabalho dele é baseado em técnicas alternativas de ampliação dos negativos e montagem das cópias, com interferências físicas nos negativos, sobreposições, rasgos, escritos sobrepostos, tudo de forma bem artesanal. Isso quer dizer que uma única imagem é feita de, provavelmente, de vários outros trechos de imagens sobrepostas, e ele consegue conceber cada trecho de imagem antes de fotografar e montar tudo!

Eustáquio Neves

O Pedro David enquanto apresentava a biografia do artista fez o comentário que todo o trabalho do Eustáquio é sobre tentar entender a fotografia do ponto de vista da alteridade, da experiência e da artesanalidade e eu realmente pude perceber isso mesmo. Ele é um fotógrafo graduado em Química (o que talvez traga algumas vantagens na hora de pesquisar materiais e soluções para suas interferências na foto), mas ele também faz vídeos. Foram mostrados alguns trabalhos com viés bastante crítico da composição social da cidade, alguns sobre a objetificação do corpo feminino e outros sobre a memória da cultura afrodescendente no Brasil.

Ele é nascido na mesma cidade que eu, Contagem (região metropolitana de Belo Horizonte), que é um grande pólo industrial, onde a fumaça e fuligem das numerosas e gigantescas fábricas é paisagem para o modo de vida modesto da periferia. O trabalho do Eustáquio sobre a comunidade dos Arturos em Contagem é realmente lindo, e marca um momento de retorno às suas próprias raízes. Ele também fez uma série de auto-retratos mais ou menos nessa mesma época. Atualmente ele tem pesquisado bastante as mídias eletrônicas e tem inserido alguns elementos de sequências e movimento no trabalho.

Eustáquio Neves

Eu vi a exposição dele no Iphan, na Rua da Câmara e fiquei bem impressionada com o trabalho. Só me incomodou um pouco o fato de serem imagens impressas, como se fossem reproduções das obras originais, então toda a textura, a artesanalidade, o tamanho real, tudo se perdeu… Eu fiquei imaginando como seriam as obras reais, provavelmente bem menores (as impressões eram bem, bem grandes), com as sobreposições de emulsão, de polaroid, de escritos, as corrosões dos químicos, tudo em várias camadas, dando quase uma tridimensionalidade na imagem, ou pelo menos uma “espessura” maior. Mas isso eu imaginei, porque nas reproduções não dava para ter essa sensação…Também vi um quadro dele na galeria do Cícero Mafra, que também estava lá em Tiradentes, mas era uma impressão grande, em papel fineart.

O Estáquio é um “figuraça”, super divertido. Em vários momentos fez a platéia rir bastante, como quando ele contou de uma exposição que fez em um lugar (acho que no Canadá, mas posso estar enganada, pois não anotei) e recebeu um retorno muito positivo. A crítica gostou de tudo, amou o trabalho, o tema, a montagem… foi 100% de sucesso. O Eustáquio disse que deveria ter alguma coisa muito errada, pois não é possível que as pessoas tenham gostado de tudo e que, se isso realmente aconteceu, estava na hora de mudar o caminho. E foi o que ele fez e continua fazendo, pois é um eterno inquieto e muda a todo momento suas intenções, seus discursos e sua forma de apresentar a arte. Aliás, a inquietude é o motor que nos move, né?

Eustáquio Neves

Portfólio e Experiência

A sexta-feira começou sensacional pra mim. Fiz a leitura de portfolio com a Isabel Amado e a Rosely Nakagawa e ouvi tudo o que eu precisava para direcionar melhor o meu trabalho. É impressionante como precisamos de um olhar treinado para nos ajudar a entender a nossa própria forma de enxergar o mundo…Fiquei o dia todo meio aérea, pensando sobre o que elas haviam falado.

Se tem uma dica que posso compartilhar com outros colegas que estão no mesmo pé que eu, de começar a querer expor um trabalho autoral é: façam tantas leituras de portfólio quantas forem possíveis fazer. Eu fiz as primeiras leituras da minha carreira e acho que deveria ter reservado mais horários com outras pessoas, pois cada curador é capaz de observar aspectos diferentes do que é mostrado e é capaz de fazer diferentes associações entre uma série e outra apresentada. Mas já vou garantir isso para os próximos festivais desse ano.

Rodrigo Lima/Agência Nitro

Já de início eu dei uma super mancada achando que ia arrasar. Levei meu portfólio no Ipad do meu amigo e tomei uma “catracada” de cara, pois a leitura de portfólio é feita com as fotos impressas e eu não sabia. Bastante juvenil da minha parte, eu sei, mas estou aqui para compartilhar as experiências e ajudar outras pessoas a não cometerem os mesmos erros. Você pode até levar fotos de tamanhos como 15×21 cm, impressas em papel fotográfico comum, que é preferível ao computador ou tablet, pois as fotos são espalhadas na mesa e rearranjadas pelo leitor, enquanto falam. Então, fica a dica: imprima as fotos.

Como a tela do tablet é super boa e mais ou menos calibrada, eu pensei que seria ótimo, mas não é assim. Minha sorte é que eu, além do Ipad (que foi totalmente ignorado pelas duas), levei uma pastinha super modesta com algumas impressões toscas e algumas outras em fineart, mas não era exatamente o que eu queria mostrar.

A Chuva Não Parava de Chover | Suelen Pessoa

Apesar dos pesares, tive um retorno super bom das duas e descobri que o “texto” do meu trabalho não era o que eu achava que era…Eu apresentei três séries diferentes de fotografias (uma sobre sexualidade e opressão, outra sobre paisagens sujas e outra série de retratos feitos em casamentos) e acabei sabendo que existe um corpo de trabalho muito interessante que perpassa as três séries com um outro tema que me instiga muito: a observação da composição do tecido social e os papéis que as pessoas desempenham em uma ou outra situação e os jogos de poder que as envolve. Fiquei ABSOLUTAMENTE surpresa e com as forças totalmente renovadas para perseguir isso daqui pra frente!

Participação Geral

Duas coisas me atrapalharam um pouco: a lotação do auditório e a chuva. A quantidade de pessoas participando do festival triplicou do ano passado para este e, enquanto no ano passado algumas palestras eram mais esperadas que outras (e por isso algumas ficavam menos cheias e outras completamente lotadas), esse ano em TODOS os horários houve fila gigante para pegar a senha uma hora antes de começar cada atividade (e tudo acabava em menos de 5min), independente do assunto abordado. A participação foi massiva do pessoal, o que é muito mais que ótimo! Fiquei bem feliz por esse sucesso todo. Só que eu não consegui pegar a senha para o ciclo de ideias do Eder Chiodetto com o Jochen Volz sobre a coleção de fotografias do Inhotim – Instituto de Arte Contemporânea e o mercado de arte.

Assim como no ano passado, foi montado um espaço do lado de fora do auditório com a transmissão simultânea do que está ocorrendo dentro, mas com a chuva era impossível ficar lá, porque o espaço é a céu aberto. Resultado: não consegui ver essa atividade nem a próxima, que era um bate-papo com o Miguel Aun, homenageado do festival esse ano. Fiquei bastante chateada, mas aproveitei esse tempo extra para visitar algumas exposições em espaços fechados que eu ainda não tinha visto.

Auditório Centro Yves Alves | Suelen Pessoa

Comecei pela do Tiago Santana, que estava no hall do auditório, com várias impressões enormes em papel fineart da Hahnemühle de imagens feitas no interior do Ceará, onde ele nasceu. Depois fui para uma outra exposição, ainda dentro do Centro Cultural Yves Alves, chamada “Zonas de Densidade e de Rarefação”, dos fotógrafos Pedro Motta, Pedro David, André Hauck e Rodrigo Zeferino, com curadoria do João Castilho. As imagens discutem mudanças no território e na paisagem da cidade e do campo. Como a chuva custava a dar uma trégua só animei andar mais um pouquinho e ir para o Espaço da Fototech, que estava ali pertinho, para ver mais uma exposição mista dos fotógrafos associados e participar do Fotoescambo, que estava acontecendo em um quiosque no quintal do mesmo espaço.

Exposição Tiago Santana | Rodrigo Lima/Agência Nitro

Espaço Fototech | Rodrigo Lima/Agência Nitro

Zonas de Densidade e Rarefacao | Rodrigo Lima/Agência Nitro

Eu quis trocar 5 ampliações minhas no Fotoescambo, mas não coloquei todas de uma vez, não. Levei primeiro três e coloquei no varal e peguei outras três imagens lindas que estavam lá, obviamente sem identificação (pois essa é a graça da coisa). Dei uma volta no bar do Espaço Fototech, esperando a chuva diminuir antes de voltar para a pousada para tomar um banho e me aprontar para as atividades “extracurriculares” noturnas. Nesse meio tempo as minhas fotos foram escolhidas por outras pessoas. Fiquei bastante feliz que elas tiveram aceitação tão rapidamente!

Em seguida houve a noite no Espaço Nitro, com o lançamento do vídeo do projeto Moradores que eles fizeram e é uma ideia muito legal! Mais sobre isso no próximo texto…

Sobre 7 Fotografia

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3 respostas para Diário de Bordo – Foto em Pauta 2012 – Momentos em Tiradentes

  1. Peguei uma foto sua no FotoEscambo, Suelen! A dos quatro quadrados de nuvens. Muito bonita!
    Parabéns pelo talento, pela cobertura e por ajudar a manter esse blog que sempre acompanho.
    Grande beijo!

    • Suelen Pessoa disse:

      Ei Felipe! Nossa, que legal que você escolheu uma foto minha! Fico muito feliz de saber!
      Entrei no seu site agora (http://scarlae.com) e achei tudo muito lindo! Com certeza, se tivesse visto alguma dessas fotos lá eu teria escolhido também – e seria massa a gente trocar!
      um beijão!

  2. Projeto Verena disse:

    Deu vontade de estar lá….

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