Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Fábio Messias

Fábio Messias

Fábio Messias

Às vezes uma fotografia nasce pela força de futuro, outras vezes pela insistência do presente: existo, existo, existo – resisto. Há, no entanto, fotografias que surgem porque o que já não existe persiste como fantasma, do mesmo modo que a estrela que, separada pelos milhões de anos luz – só encontra sua imagem quando já silenciada (…)”

Essas palavras de Cláudia Linhares Sanz, publicadas no Icônica, me fizeram imediatamente pensar nessa fotografia de Fábio Messias que há dias vinha mexendo, bem fundo, os meus sentimentos. Na verdade estou “olhando pra sempre” essa imagem há meses. Quase todos os dias paro alguns minutos diante dela e fico, estática, tentando entender o que sinto ao olhá-la. Talvez nunca entenda, talvez eu nem precise entender o porquê de tanta inquietude. Talvez me baste o coração acelerado e a respiração curta. Talvez não caibam conceitos para esse sentimento.

Essa fotografia faz parte do ensaio chamado “Essa Luz Sobre o Jardim” em que Fábio, durante cerca de um ano, fotografou a sua Avó, que sofria do Mal de Alzheimer, e o universo de sua casa. Na verdade diria que Fábio fotografou o sentimento que impregnava cada objeto e pessoa que ali viviam. O ensaio é mais do que um registro de um cotidiano, é um registro de um coração aberto, de sentimentos expostos, de um sofrimento silencioso e da beleza que existe até mesmo na dor.

O título do ensaio é um trecho da música “O Deus Que Devasta Mas Também Cura” de autoria de Gui Amabis e Lucas Santtana. Estou comentando isso porque essa fotografia que me levou a escrever esse “olhando pra sempre”, de alguma forma, me devasta mas também me cura. Ela me destabiliza. Não falo só em relação a sentimentos, mas também de sensações físicas. As mãos ficam frias, o coração perde o compasso, o ar chega difícil aos pulmões… Mas basta ficar olhando por alguns minutos que o alento vem. A fotografia me coloca no colo e acalma aquele choro que não veio. É o meu refúgio. Um pequeno grande esconderijo que busco quando preciso de cura.

Retorno ao texto de Linhares e para ideia da força de futuro. O que sinto é como se tudo começasse e acabasse no pequeno universo dos cabelos de Miguel (sobrinho de Fábio). É como se cada fio de cabelo fosse um caminho e que cada caminho, tomados de estrelas, guiasse uma vida. O futuro indefinido e o universo em sua totalidade e infinitude cabem nas mãos, no carinho de um afago. Olho para sempre não sei bem porque. Talvez me falte o universo nas mãos. Talvez essa fotografia exista e resista em mim justamente por eu não entender e nem mensurar os sentimentos que nela habitam. E isso é devastador.

update: o ensaio Essa Luz Sobre o Jardim, de Fábio foi o grande vencedor do Prêmio Brasil Fotografia 2012!!

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Sobre Priscilla Buhr

Fotógrafa, Recife
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8 respostas para Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Fábio Messias

  1. Vazos capilares, fios de cabelo e uma cabeça. Elementos bem inusitados para uma composição, não é?
    É por isso que amo fotografia: ela simplesmente consegue mexer com a gente usando situações comuns e objetos rotineiros.
    Não sei o que você vê, mas eu vejo uma galáxia envolta em uma nebulosa…. que coisa não….

  2. Chico Peixoto disse:

    não sei bem a razão, mas olhei essa foto por um tempo e só consigo associá-la ao filme ‘a árvore da vida’, de terrence malik. acho que não é pelo enredo, já que fábio trabalhou uma abordagem bem particular. talvez seja pela semelhança na habilidade de revelar o universo em cada detalhe (no caso de fábio, como pri mesmo escreveu, o universo da casa da avó dele). ora vejo fios de cabelo, couro cabeludo. ora vejo o cosmos. muito bom.

  3. Olá Chico!

    Rapaz, curioso demais você lembrar justamente do filme “A Árvore da Vida” ao ver a imagem. Tomei até um susto quando li o que você escreveu.
    Eu já tinha feito boa parte das imagens que fazem parte do ensaio completo, mas quando assisti esse filme, eu saí do cinema completamente fascinado pelo quanto a forma que o Malick usou pra abordar o tema tinha a ver com a forma que eu andava pensando o meu trabalho naquele momento.
    Já de cara, a abordagem de contrapor o “macrocosmo” de toda a criação do universo e sua evolução até aqui, ao “microcosmo” da vida daquela família tão envolta em regras sociais, religiosas, tirania e amor paternalistas, tem TANTO a ver com o que eu penso sobre esse meu trabalho que se eu te contar… hehe… daria um super post e uma análise num divã, haha.
    Esse conceito pro trabalho veio até mim quando ouvi a canção do Lucas Santtana que a Priscilla comenta no post (até ouvir essa música, eu tava meio perdido de como encarar o trabalho), e quando assisti o filme, que veio uns dois meses depois do lançamento desse disco, foi só a confirmação de que o caminho era muito bom pra seguir.
    Sei que não chega nem perto do tamanho dessa obra do Malick, mas algo que acho que nunca falei pra ninguém que viu esse meu trabalho é que, na minha cabeça, ele é o meu “A Árvore da Vida”. 🙂
    Agora, o mais engraçado é que, pra mim, a ligação máxima desse ensaio com o filme é justamente essa imagem, comentada lindamente aqui pela Priscilla. Não sei como e nem porquê, você captou isso.
    Muito legal. Valeu por comentar! 🙂

    Abração!

    • Chico Peixoto disse:

      putz, agora quem ficou assustado foi eu! na veia mesmo, hein?! ahahah! cara, eu nem racionalizei muito. essa relação terreno/cósmico do filme tá muito clara pra mim na imagem. digo com tranquilidade que essa foto, sozinha, já tem muita força. e se parte de sua inspiração vem mesmo do filme, só prova que você capitou bem o conceito, o que agrega ainda mais valor ao trabalho. abraço pra você também!

    • joanafpires disse:

      Fábio, vale dizer que o 7 está de portas abertas a horinha em que você quiser escrever um “super post” sobre o tema, viu?! Sinta-se sempre convidado 🙂
      umabraço,

  4. vladia freitas ferreira lima disse:

    Incrível essa imagem! Quando entrei aqui, estava dando uma pausa de um filme que fala dos “Crop Circles”, fenômenos que aparecem no solo, em plantações, geralmente de trigo, em forma de pictogramas… Quando vi a foto, fiz logo a relação com os vários desenhos que o filme mostra, como redemoinhos mesmo. O filme é o “Thrive”. Vale a pena conferir, segue o link: http://www.youtube.com/watch?v=YRRmgwgTg3s

    Adorei o texto Priscilla. Fazia tempo que não visitava vocês ó! Mas agora já sou uma seguidora!!!

    • Olá Vladia!

      Que barato a associação com crop circles! Adorei, hehe. Um dos meus nerdismos desde moleque é gostar de coisas relacionadas a extraterrestres. E Crop Circles sempre esteve relacionado a isso né?! Comecei a assistir o filme no link que você passou mas tô no começo. Comento mais depois! 😉

      Valeu! Beijo!

  5. bellavalle disse:

    Eu tou arrepiada ainda com a ligação que Chico fez e que casou com um fato real na vida de Fábio. As coisas fluem demais no mundo. Isso é lindo demais! As coisas se sintonizam de forma tão encaixada, mesmo sem se conhecerem, né? Parabéns a Pri por partilhar com a gente essa imagem e seus sentimentos. Parabéns a Fábio pela foto e pelo trabalho. E obrigada a todos que estão agregando ideias e emoções aqui nos comentários!

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