Diário de Bordo – I Encontro Pensamento e Reflexão

Estou em São Paulo para participar do I Encontro Pensamento e Reflexão na Fotografia, que está sendo realizado na sede do Museu da Imagem e do Som (MIS). O encontro foi articulado com o intuito de agregar fotógrafos, pesquisadores, curadores, produtores e representantes de outros setores que movimentam a rede da fotografia em torno de uma questão: por que pensamos a fotografia?

A programação foi organizada com curadoria de Alexandre Belém e Geórgia Quintas, que nesta primeira edição optaram por trabalhar um panorama histórico e crítico da fotografia brasileira nas sessões principais e apresentar linhas mais específicas de discussão por meio de uma convocatória de artigos – que vem apresentado os resultados dos projetos de jovens pesquisadores latino-americanos – e dos dois workshops.

O primeiro deles está sendo ministrado por Claudi Carreras, que vem discutindo com quase quarenta participantes o desenvolvimento de projetos culturais e pessoais. Os participantes foram orientados a selecionar um projeto de sua autoria para trabalhar durante o workshop e os resultados do primeiro encontro geraram várias trocas de ideias nos corredores e espaços coletivos do MIS.

O segundo workshop tem como tema A produção do discurso fotográfico: exercícios de curadoria e edição e está sendo orientado pelo curador cubano, residente no México, Juan Antonio Molina. É este workshop que estou fazendo junto com várias outras pessoas queridas e muita gente de outros estados e até de fora do Brasil. Para este workshop nós recebemos quatro textos para ler antes de entrar em aulas e fomos orientados a conhecer com mais cuidado os trabalhos de Ana Casas, Marcos López, Gerardo Montiel Klint, Pedro Meyer, Daniela Edinburg e do coletivo Cia de Foto.

El cumpleanos de la diretora | Argentina 2008 | Sub-Realismo Criollo | Marcos Lopez

Destes, eu conhecia os trabalhos da Cia; de Gerardo Montiel, que nos foi apresentado no Paraty em Foco, em 2009; e o de Pedro Meyer, por causa da pesquisa de doutorado de Ana Carolina Lima Santos, que é uma das organizadoras do I Ciclo de Fotografia – Teoria, Técnica e Poética, que está sendo realizado em Aracaju até o mês de julho. Os demais foram novas descobertas, que ganham cada vez mais surpresas ao longo das discussões do workshop.

A minha grande surpresa com o curso foi a maneira tranquila com que Molina discute o papel do curador e do editor. Em nossa primeira aula, ele pediu que olhássemos para os trabalhos dos fotógrafos e artistas visuais como forma de encontrar chaves para a elaboração do discurso acerca daquela obra ou de um conjunto de obras (ou de fotógrafos). Partir dessa leitura cuidadosa seria uma forma de evitar construir um discurso que não dialogasse com as imagens que estão sendo apresentadas naquela edição ou trabalho curatorial.

Em sua fala, ele apontou que, entre outras coisas, é importante para o curador verter um olhar para o seu papel político, ideológico e para as dinâmicas que permeiam as diversas histórias da arte. Porém, ele considera igualmente significativo abrir espaço para a experimentação e para o erro, como parte dos debates derivados da produção do discurso sobre uma obra ou trajetória de um fotógrafo ou artista visual.

Documental | México | Pedro Meyer

A experiência de ouvi-lo foi muito bonita e reveladora. Além de sair da aula com várias ideias, foi possível perceber que muito do que alguns de nós fazíamos intuitivamente dialogava com a leitura que ele faz de um trabalho de curadoria. A grande questão, contudo, continua sendo como colocamos essas percepções em prática. Há um belo caminho de reflexão pela frente, que vai continuar sendo estimulado pelas próximas duas aulas com Molina e pelas trocas com pessoas que estamos conhecendo no workshop. Foi um belo presente!

Outra grata surpresa foi ver a quantidade de pessoas interessadas nas demais discussões do evento. Além de vários participantes de São Paulo, muita gente de outras regiões do país e da América Latina estão circulando pelos corredores do MIS. Várias delas vieram por conta própria, independente de terem sido selecionados para a convocatória de artigos ou workshops. Vieram motivados pelas discussões e pela possibilidade de agregarem novas referências aos caminhos que estão traçando na fotografia – caminhos esses que possuem várias composições possíveis: pesquisa, crítica, produção ou a atuação em mais de uma dessas opções, que me parece ser boa parte dos casos.

Entre as sessões que ocorreram na parte da tarde pudemos ver melhor exemplos de como a reflexão na fotografia tem se desdobrado em várias formas de atuação. Eduardo Monteiro, do Coletivo Fotonauta, apresentou uma pesquisa em que traçou paralelos entre a obra da artista Lygia Clarck e do fotógrafo Marcel Gautherot sob a perspectiva de que seus trabalhos possuem o que ele chamou de corpos vibráteis.

Ruth Moreira de Souza, por sua vez, debateu conceitos da filosofia de Gilles Deleuze em trabalhos de diversos fotógrafos contemporâneos, a exemplo de Cindy Sherman, Michael Levin, entre outros. Em um dos comentários que fez sobre o trabalho de Levin, por exemplo, ela mostrava que o fotógrafo optou por discutir o holocausto não fotografando os vestígios dos corpos, mas o espaço vazio quase uma década depois. O espaço que permanecia após o processo de decomposição dos mortos, quando os sinais da violência cometida pairavam sob o meio social por meios não visíveis, mas igualmente dolorosos.

Quem fechou a primeira sessão de trabalhos foi o pesquisador Rodrigo Fontanari com a pesquisa Barthes e a fotografia – Exame de uma “pochette” pouco conhecida intitulada “illustrations”, do “Grand Fichier”, de Roland Barthes entre os anos de 1968-1980. Fontanari teve acesso à parte das fotografias e anotações que o pesquisador francês realizou entre 1940 a 1980, e que deram origem a vários textos, incluindo o clássico A Câmera Clara.

A pesquisa de Rodrigo mostrou um Barthes completamente fascinado por fotografia, que em alguns momentos desafiou o seu meio com reflexões sobre essa paixão. Perguntei a Fontanari se Barthes havia escrito algo que não tivemos acesso ainda por meio do material publicado sobre ele e ele disse que o francês tem diversas reflexões escritas sobre a relação entre o haicai e a fotografia. Ele disse que desconhecia a discussão dessa vertente no Brasil, mas o professor Milton Guran informou que o poeta Paulo Leminsky havia escrito um texto curto sobre o tema para uma das semanas de fotografia de Curitiba. Dica anotada e comentada por muita gente depois da mesa.

A sessão seguinte trouxe o professor e crítico Rubens Fernandes Junior elaborando um Panorama do Pensamento Crítico na Fotografia Brasileira. Em sua fala, ele afirmou que contou com a colaboração de outros parceiros para elaborar o conteúdo, porque apresentar um contexto desta natureza era um trabalho muito difícil e que precisaria de muito tempo de pesquisa. Mesmo assim, ele trouxe informações preciosas de publicações, linhas de reflexão e desenvolveu ponderações sobre a ausência de uma crítica fotográfica efetiva nos periódicos que circulam nacionalmente, de modo a isolar esta crítica em revistas especializadas e na academia.

Revista Photogramma seria chamada de Revista Fotografia, mas não foi possível registrar o nome e as edições precisaram ser alteradas. A Photo Revista do Brasil foi uma das publicações que eram do mesmo grupo e publicou alguns textos que estão na trajetória da crítica no Brasil.

Pela própria conjuntura que vivemos hoje, no meio fotográfico, em que a reflexão é desenvolvida quase sempre distante da prática e vice-versa, ver tantos fotógrafos ouvindo Rubens Fernandes Junior incentivar uma aproximação entre pesquisa, crítica, produção e criação – e concordar que esse é um caminho que precisa ser fortalecido – foi uma experiência bem emocionante no evento.

Mais emocionante, contudo, foi vê-lo mostrar uma série enorme de publicações realizadas por fotoclubes, associações fotográficas independentes, jornais, fotógrafos, editoras, entre outros, que tentavam exercitar algum modelo de reflexão e crítica em paralelo ao debate técnico, à divulgação de portfólios e aos reviews e propagandas de vendas de equipamentos de cinefoto.

Entre a Revista Photographia (1909) e as publicações especializadas que estão nas bancas de jornais e na internet, hoje, Rubens Fernandes acredita que há muito conhecimento para ser revisto, sistematizado e, quem sabe, republicado, mas ele diz que algumas das questões centrais do pensamento crítico continuam sendo:

a) como cada fotógrafo elabora e organiza a sua linguagem e percebe a própria sintaxe?

b) como a crítica pode efetivamente ser feita em meios que várias pessoas tenham acesso?

Durante os debates, ele contava em diversas conversas com Aracy Amaral ela o interrogou sobre o papel da crítica na fotografia, afirmando que a crítica hoje tinha um foco muito psicanalítico e era escrita como meio resolver as questões pessoais do comentarista, a partir do que ele via no olhar do fotógrafo. Amaral sentia falta de uma crítica que realmente se debruçasse sobre o processo de produção e apresentação dos trabalhos, que observasse os caminhos traçados pelo fotógrafo e pensasse nos dispositivos que mediavam a interação entre os envolvidos com a abordagem dos temas apresentados nas imagens.

O debate, infelizmente, não pôde durar muito devido à mesa que viria a seguir com Boris Kossoy. Porém, ela trouxe muitas curiosidades e desejos de ver com mais calma o conteúdo das publicações apresentadas por Rubens em sua sessão.

Boris Kossoy, como foi dito, fechou o primeiro dia do evento. Ele havia sido convidado para falar sobre por que pensamos a fotografia? E decidiu fazer isso por meio de um recorte pessoal, mostrando como ele construiu um legado de reflexão sobre a fotografia. Durante a sua apresentação, ele mostrou as bases do pensamento que elaborou para compor os seus livros, entre eles a trilogia de história da fotografia mais lida do país: Fotografia e História, Realidades e Ficções na Trama Fotográfica e Os Tempos da Fotografia.

Um pensamento que está calcado na ideia de que não existe fotografia inocente e que a investigação criteriosa dos elementos e do contexto em que a fotografia foi feita é uma das maneiras mais significativas de acessar as sutilezas do discurso do fotógrafo. Entre os exemplos dados por Kossoy estavam uma fotografia de sua própria autoria, que foi feita dentro da sua série dedicada ao realismo fantástico, mas que discutia a situação brasileira na época da ditadura. A imagem foi publicada em diversos veículos de imprensa por editores que sabiam das intenções de Kossoy, mas apresentavam o trabalho aos censores como arte.

Série Realismo Fantástico | Boris Kossoy

Kossoy também defendeu a importância de uma crítica fotográfica séria e disse que, apesar de existirem espaços de elaboração desta crítica, que estão em desenvolvimento no país há pelo menos três décadas, ainda estamos aquém de aproveitar devidamente o potencial oferecido para o desenvolvimento desta atividade. Boris disse, ainda, que a crítica pode ser desenvolvida de diversas formas, inclusive a partir da produção fotográfica, quando ela se propõe como espaço de reflexão da banalização dos discursos e dos usos da imagem.

Citou entre seus trabalhos a série Cartões Anti-Postais, em que ele interrogava a avalanche de belas paisagens e de uma cultura de publicidade e turismo que, por meio de um ideal equivocado de relação com as cidades, modelava sonhos nos cartões-postais. Kossoy fechou a apresentação com uma revisão da sua carreira como fotógrafo, em que pontuou as linhas de força de seu trabalho e as suas crenças na fotografia.

Depois de tanta intensidade, as conversas continuaram em outros espaços de São Paulo! Amanhã voltamos com mais ideias sobre o segundo dia de atividades no I Encontro Pensamento e Reflexão na Fotografia!

Um cheiro!

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Uma resposta para Diário de Bordo – I Encontro Pensamento e Reflexão

  1. Vládia Lima disse:

    Belo relato Aninha!
    Valeu! Um cheiro!!!

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