Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Carolina Pires

Foto: Carolina Pires

Carolina Pires é uma daquelas fotógrafas que eu acompanho há tempos, mas que ela nem imagina isso. Antes mesmo de que eu começasse a fotografar, Carol saiu do Recife, onde morou por um bom tempo. Porém os amigos que ela deixou por aqui, vez ou outra, citavam sua competência profissional em comentários desinteressados, o que me fez, curiosa que sou, ir atrás de descobrir o trabalho desta moça na internet.

Descobri, então, o seu blog e não parei mais de acompanhar as histórias que Carol conta, em textos e imagens. Fotógrafa de casamento premiada e reconhecida internacionalmente, ela sabe emocionar com o que poderiam ser apenas fotos clichês de um evento tradicional. Porém, Carolina surpreende.

Bem, e esta foto… Ah! Esta foto!

(pausa para olhá-la por mais um tempinho antes de continuar escrevendo)

Esta foto foi encontrada “sem-querer-querendo” no portfólio de Carol. Eu planejava, na verdade, fazer um #Plataforma com ela, para mostrar aqui o trabalho bacana de uma pessoa que sabe fazer fotos de casamento com personalidade. Mas aí, me deparei com essa foto… Senti um nó na garganta e, coincidência (ou não) do destino, consegui lê-la de uma forma muito intensa e senti-la forte no peito, porque eu havia simplesmente acabado de reler o texto “Robert Campin: a imagem como enigma”, do livro Lendo Imagens (que já citei no meu último diálogo), em que o autor, Alberto Manguel, analisa minuciosamente toda a simbologia a ser descoberta, por pistas, em um quadro holandês chamado “A virgem e o menino à frente de um guarda-fogo”.

A virgem e o menino à frente de um guarda-fogo,atribuída a Robert Campin (datada entre os séculos XIV e XV)

Na mesma hora, troquei o plano de #Plataforma por um #Olhando pra Sempre e entrei em contato com Carol para pedir a devida autorização para publicar a foto dela aqui no nosso blog (já que estava protegida por direitos de propriedade e não permitia download no site). Ela foi muito simpática, elogiou nosso trabalho aqui no 7 (\o/) e permitiu com todo carinho. E, depois disso, de presente, ainda escreveu um post no seu blog contando a história da foto, na seção Por trás da Fotografia, e colocou a imagem como avatar profissional no facebook.

Já citei por aqui a minha criação religiosa e não pude fugir de interpretações católicas a essa imagem, ainda mais com o texto de Manguel martelando no meu espírito. Para mim, o autor poderia ter dedicado todo seu capítulo em função desta foto de Carolina Pires.

A noiva, Silvia, se veste de branco e, assim como Maria, coberta por uma aura de santidade (muito bem trabalhada em termos de iluminação por Carol) amamenta Luiza, sua filha, tão frágil como o menino Jesus, que precisa dos cuidados da mãe para seguir viva. Ser mãe é dar o sangue, o leite, a vida. Toda mãe é uma santa, num momento como este representado.

Há tantas “versões” conhecidas de Nossa Senhora: Aparecida, Conceição, Piedade, Dores… Quantas Marias não lutam todos os dias no mundo para nutrir seus filhos de leite, educação, amor, persistência, carinho? Silvia, na foto de Carol, é mais uma dessas representações de Maria lactante para mim. Carol, na sua foto, fez como Robert Campin e inúmeros outros artistas ao longo da História da Arte, e, talvez sem muitas intenções conscientes, mas com muito talento e sensibilidade, criou mais um quadro de Maria amamentando Jesus, a partir da experiência de Silvia amamentando Luiza.

A fotografia é tão forte na cena clicada por Carol, que só assim eu pude sentir no peito (e não só entender na mente) toda a simbologia que essa imagem clássica carrega, a partir das reflexões de Manguel e do meu próprio repertório. A fotografia não me perdoa. Nunca.

Não sei se todos conhecem esta foto de Gertrude Käsebier, uma das mais importantes fotógrafas estadounidenses do começo do século XX. Assim como Carol fotografa noivas, Käsebier fotografava mães. E, sua mãe amamentando (The Manger) também possui um véu, típico de noiva. Não sei se Carol conhece esta foto de Käsebier, mas ambas se completam com muita força para mim. Noiva e mãe, mãe e noiva, Maria, José e Jesus, Maria e a Igreja, Jesus e Maria, Maria mulher. Tudo carrega significados arraigados na cultura ocidental, arquétipos, desejos, sonhos, imagens.

TheManger, Gertrude Käsebier (datada entre 1899 e 1901)

Maria lactante é a santa que põe os peitos para fora. Ela grita sua feminilidade. O divino é o mais humano possível. O divino é o mais mulher possível. Maria, sendo Sílvia, assume seu papel de noiva e se entrega a uma vida de compromisso (à Igreja, a Deus, a José, ao casamento).

Silvia, sendo Maria, é também mãe, a loba que amamentou Rômulo e Remo e permitiu todo o nascimento de Roma e, assim, da sociedade ocidental. Ou Hera, que do seu leite respingado na amamentação de Hércules deu origem à Via Láctea.

Todas elas, Carol, Silvia, Maria, Gertrude e até a pequena Luiza, como mulheres, mostram a sua força nutriz ao mundo. Força de quem assume, cada uma, o seu papel simbólico, como fotógrafa, como artista, como noiva e mãe, como filha, na história do mundo.

E não há imagem mais poderosa do que esta. Quem nunca ouviu comentários polêmicos por aí sobre alguém que deu, em público, seus peitos para nutrir um filho? Doce e sensual, íntima e universal; generosa e controladora; forte e delicada; mas, sobretudo, feminina.

Ps – acabo de me dar conta de que a pintura holandesa atribuída a Campin e a foto de Gertrude Käsebier são datadas de viradas de séculos. Será que Carol fotografou Sílvia e Luiza nesta última virada de século também?

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Sobre bellavalle

Fotógrafa, pesquisadora, professora da UFPB, mestre pela PUC/SP, doutoranda pela UFPE e amante da vida.
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6 respostas para Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Carolina Pires

  1. Denise Bittencourt disse:

    Sou mãe da Carol e suas palavras me deixaram emocionada . Cada vitória dela minha alma se alegra e ao ler suas palavras, imaginando suas imagens decorrentes ,surgiram doces lágrimas de emoção materna. Grata por seu apreço.

  2. Silvia disse:

    Ola! Sou a Silvia da foto! Fiquei arrepiada com o texto, com as fotos apresentadas! Amo essa foto, Carol tem uma sensibilidade, um olhar incrível ! Qdo a conheci tive a certeza de que seria a pessoa certa para fotografar minha Familia, ela transmite em suas fotos, nossos sentimentos, e nessa foto não foi diferente, momento único, NOIVA, Mulher e Mae! Emocionante seu texto!

  3. Eduardo Tavares disse:

    Foto lindíssima !

  4. São fotos lindas.Mostram a sensibilidade da fotógrafa.

  5. bellavalle disse:

    Obrigada, gente! É muito bom “olhar pra sempre” em coletividade. =)

  6. Marco Pimentel disse:

    muito lindo

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