Podia ficar olhando para sempre esta foto de Richard Avedon

“Não existiu essa pessoa, Marilyn Monroe…[Ela foi] inventada, como um autor cria um personagem”
Richard Avedon

Marilyn Monroe, actress, New York, May 6, 1957 | Foto: Richard Avedon

Há algumas semanas assisti “Sete dias com Marilyn” (Simon Curtis, 2011), que rendeu a Michelle Williams uma indicação ao Oscar de melhor atriz pelo papel principal. Vi o filme mais pela curiosidade de saber como se daria a transformação quase impensável de Michelle em Marilyn do que por interesse direto na história.

Não que eu não ache Marilyn interessante, pelo contrário – justamente por achar que ela é o tipo de mito que jamais decifraremos, um mito que escapou à ansiedade da nossa geração em dar conta de todas as imagens, inclusive às imagens da privacidade alheia, um mito que nos permanece intocável. Essa sensação se manteve em mim, mesmo depois de assistir o filme. O que por si só já é significativo, visto que geralmente estes filmes nos aproximam o pouco que seja das personagens e caminham pelo interesse óbvio de humanizá-las. Ao contrário, Michelle não tenta humanizar o inumanizável.

Das coisas que li sobre sua atuação, uma me chamou especialmente a atenção: uma entrevista em que a atriz comentava a dificuldade de imaginar uma voz para Marilyn, uma voz que tivesse um quê de espontaneidade – diferente da sua voz nas interpretações teatrais do cinema da época. M Williams comenta o quão difícil era encontrar algum registro de Marilyn num momento de naturalidade, despida de si mesma.

E é na verdade, essa procura que me leva à foto acima. Tirada em 1957 pelo tão espetaculoso fotógrafo Richard Avedon, a foto mostra uma Marilyn num segundo de pausa,  aqueles momentos tão humanos em que a gente descansa o olhar e passeia com o pensamento. Entremeio a uma sessão de fotos com o fotógrafo-artista, Marilyn pausa, como tantas vezes fazemos, no trânsito, na fila do supermercado, na frente da tevê.

São esses pequenos segundos que definem, não a personalidade do fotografado, eu acho – ao contrário do que muitos dizem, tenho a impressão de que esta nunca é tocada -, mas a personalidade do fotógrafo, seu brilhantismo. Penso que fazer um retrato não é fotografar uma pessoa como ela é, “fotografar a sua essência” como diz o senso comum, mas fotografar quem você vê, afirmar algo sobre ela, apresentá-la como a pessoa que você percebe. Essa é a magia.

Marilyn encara o infinito, dirigindo o seu olhar a um horizonte mais baixo que ela. Não é um olhar de esperança, mas um olhar de constatação, o olhar de quem pensa algo que nós nunca iremos saber, como uma Mona Lisa loira e fotografável.

Comentando a imagem mais tarde, Avedon disse: “Durante horas, ela dançou e cantou e flertou e fez essa coisa – ela foi Marilyn Monroe. Então houve a queda inevitável… ela sentou-se no canto como uma criança, e tudo já tinha passado”. Avedon disse que naquele momento fez apenas mais um clique, não o clique da surpresa, mas do consentimento. “Eu não iria fotografá-la sem o seu conhecimento. E quando eu vim com a câmera, ela não disse não”.

Marilyn se deixa fotografar nesse instante. E a dúvida que me toma quando olho pra sempre essa imagem é se essa Marilyn vive um momento seu , ou se brinca com quem a observa, deixando-nos achar que quase podemos tocar a Norma Jean que ela foi um dia. Diante dela, o meu olho não descansa, apenas espera que ela viva.

**************

Em 2007, quando esse retrato completou 50 anos, a New York Magazine convidou alguns fotógrafos para recriarem essa imagem. A publicação com os resultados – e de onde tirei as aspas de Avedon nesse texto – pode ser vista aqui.

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3 respostas para Podia ficar olhando para sempre esta foto de Richard Avedon

  1. Não sei se é por causa do filme, do mito ou da história, mas essa foto a mim parece retratar a dúvida entre ser Norma Jeane Mortensen ou ser Marilyn Monroe. Os olhos, o cansaço… não sei, mas é uma foto que dentro do contexto diz muita coisa.

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