Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Constantine Manos

Crete, Chania, 1962. Man reading newspaper | Constantine Manos

Crete, Chania, 1962. Man reading newspaper | Constantine Manos

Olhando o mar, sonho sem ter de quê.

Fernando Pessoa

Em tempos “líquidos”, como diz Zygmunt Bauman, de fast- food onde nada parece durar ou permanecer, quando tudo parece ser descartável e substituível, o tempo é precioso. Tempo é dinheiro, tempo é vida, como retrata o diretor Andrew Niccol no filme O preço do amanhã (In time, EUA, 2011) que mostra uma sociedade na qual o trabalho não se transforma em dinheiro, mas em tempo, ele é a moeda que faz o mundo girar. Não é lá um grande filme, mas é interessante, vale assistir e pensar um pouco sobre o assunto.

O tempo aparentemente tornou-se mais que um bem, um produto em termos utilitários, tornou-se uma entidade, de tão desejado, almejado e às vezes inalcançável, quase como se devesse ser adorado, como se tivesse uma existência independente, separada de nós. É muito estranho pensar dessa forma algo que deveria ser fluído e natural, como respirar, um respiro longo e fortalecedor, que acalma e nos prepara para os desafios de cada dia.

O que melhor do que ter tempo para usufruir dos pequenos prazeres da vida? Aqueles que nos dão forças, ânimo e alegria, como tomar uma boa e quente xícara de café, dormir o suficiente, poder ler o seu jornal com calma, dar um longo beijo de bom dia em quem se ama, ou mesmo não fazer nada, apenas ter espaço em nossas rotinas para apreciar os prazeres mundanos sem pressa.

Quando olho a fotografia acima vejo a paz e serenidade que gostaria de sentir, uma composição perfeita entre os signos, as linhas, o limite, o silêncio, o tempo e o espaço, quase ouço somente o barulhinho do mar, e não há nada tão belo. A composição parece resultar de um acordo entre os elementos para a harmonia do momento. Mas não se trata apenas de um instante congelado na eternidade, é como se alguém houvesse realmente parado o tempo naquele lugar, dando aquele senhor o direito e o dever de estar ali compondo o cenário e se deleitando com o tempo que tem, e ele parece ter todo o tempo do mundo!

A imagem é de autoria de Constantine Manos, fotógrafo norte-americano, descendente de emigrantes gregos, membro da prestigiada agência Magnum desde 1965. Reconhecido por seus trabalhos em torno destes dois países, é autor dos livros The Bostonians, lançado em 1974, onde retrata os moradores da cidade de Boston e A greek portfolio, 1972, que se tornou um clássico e é de onde saiu a fotografia deste olhando pra sempre.

Manos ficou durante três anos viajando pelas áreas rurais da Grécia e ilhas gregas, o livro reúne registros dos vilarejos gregos em imagens que buscam mostrar lugares em que o tempo parece não ter passado, onde vemos um estilo de vida inalterado, intacto aos efeitos dos anos e das mudanças do modo de vida moderno. A julgar por esta foto, e pelo sucesso do livro, o objetivo parece ter sido alcançado e sua bela mensagem transmitida.

Sobre Maíra Gamarra

Maíra Gamarra é alagoana, com um pé na Bolívia. Turismóloga, fotógrafa (com bacharelado em Fotografia) e produtora. Vive e fotografa por amor, para aprender e conhecer, ter múltiplas experiências e estar em contato com o mundo em toda a sua diversidade.
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3 respostas para Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Constantine Manos

  1. Concordo plenamente. Infelizmente, o nosso tempo tem se tornado mais escasso, talvez uma foto como essa possa nos trazer à memória a importância de reservarmos nem que seja um momento para tentar obter um pouco de paz nessa bagunça de cidade.

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