Podia ficar olhando pra sempre esta foto de André Kertész

Estive em São Paulo no mês passado e fui com minhas amadas amigas de coletivo (Pri e Val) conferir a exposição de André Kertész lá no MIS. Com uma seleção de 189 fotografias, a mostra me renderia uma infinidade de “olhando pra sempre”.

As imagens de Kertész me enchem de alegria, porque ele é daqueles fotógrafos que sabem mexer um universo inteiro em apenas um quadro. Acho às vezes que vivemos em uma “ditadura do ensaio”, como se todo “trabalho” de um fotógrafo devesse ser sempre posto em uma série. Mas Kertész me deleita a cada foto que ele faz, como se cada uma se bastasse por um ensaio completo. Sua obra é o todo, mas são também fragmentos.

E foi já no final da minha experiência na exposição, porém na primeira salinha do térreo (que oficialmente era o começo dela), onde estavam imagens da Hungria (feitas entre 1894 e 1925), que eu encontrei a foto que me deixaria mais algumas horas ali, contemplando e pensando sobre a vida.

A foto foi feita em 1917, em um acampamento de ciganos na Hungria. A imagem retrata dois ciganinhos, nus, se beijando, em um campo rural aberto, com algumas árvores ao fundo. Eles não se tocam a não ser pela boca e por, talvez, algum ponto perto do umbigo. Suas cabeças descabeladas formam um coração, que repousa sobre seus peitos. Suas mãos estão soltas.

Gypsy Children Kissing | André Kertész

Boca, beijo, natureza, nudez, peito, umbigo, coração. Tudo me parece extremamente simbólico. E, para completar: duas crianças. Após viajar um bocado nas formas desta imagem, é inevitável refletir questões tão fortes da nossa sociedade a partir dela.

Ideias como pureza, inocência, sensualidade, amor, precocidade, descoberta do corpo, liberdade, tudo se mistura de uma forma muito confusa na humanidade. Uma imagem que parece gritar simplicidade, desenvolve angústias de uma complexidade brutal.

Vemos perplexos crianças que se sensualizam e sexualizam cotidianamente, desde os atos mais aceitos aos mais polemizados: meninas que põe batom vermelho e salto alto para imitar a mãe; meninos que folheiam revistas que objetificam corpos femininos; crianças que dançam freneticamente “vai potranca!” e coisas afins; brincadeiras que simulam movimentos sexuais; textos que falam coisas que muitos deles nem sabem o que dizem; prostituição infantil; abuso sexual. Por outro lado, vivemos uma sociedade ainda de controle (que Foucault criticou tão bem na sua História da Sexualidade e discutiu mostrando relações profundas entre sexualidade e poder), em que qualquer ato infantil masturbatório ou que exponha algum desejo é digno de repressão.

E, então, nos vem Kertész e joga na nossa cara uma imagem dessas! Duas crianças que parecem muito dignas. Dignas e despidas. Dignas e livres. Dignas e prontas para viver sua sexualidade, a experimentar seus desejos de corpos que também ainda se autoexperimentam. Dignas para se sentirem atraídas e para compartilhar o corpo e o amor do outro. Dignas e ainda crianças.

Até onde elas deveriam ser “infantilizadas” e, assim, repreendidas por se deixarem levar por impulsos tão “adultos”? Até onde nós é que temos que ter a maturidade e o respeito de autorizar que elas vivam sua sexualidade jamais nula de criança? Onde estão essas bordas? Qual o limite desta tal “dignidade”?

Porque a “cena de ciganos na natureza” parece ser mais pura que o shortinho e a dancinha do “é o tchan”? Até onde estamos forçando uma sensualidade desrespeitosa nas crianças e até onde, por outro lado, estamos inibindo que elas desenvolvam sua própria vivência de desejo? O que os pais desses ciganinhos pensam e estimulam sobre esse beijo entre eles? O que separa o que pode e deve um adulto do que pode e deve uma criança?

Sempre achei a questão do “natural x artificial” uma das grandes armadilhas que criamos para explicar qualquer coisa, principalmente quando falamos em gente. E caímos nessa mesma arapuca quando refletimos sobre o que é “tranquilo” e o que é “forçado” na nossa sexualidade, principalmente entre crianças. Tudo o que pode e o que não pode parece baseado em padrões ocultos de uma tal naturalidade soberana e indiscutível (quase sempre mascarada em religiões, tradições, economias e políticas).

Se, por um lado, lutamos para não perder o vínculo espiritual/ancestral/visceral que temos com uma tal natureza, mesmo que sempre um tanto artificializada, mas que nos liga a nossa essência animal como parte integrante do cosmos, por outro, temos que aceitar que o nosso natural é ser artificial. Nada no homem se dá sem mediações ou interferências de diversas instâncias.

E o que seria tudo isso afinal? Está tudo sempre muito mais misturado e confuso do que separável. E é nessa mistura que entram conceitos jamais mensuráveis como “bom-senso” ou a própria “dignidade”. Onde entra a medida do nosso bom-senso? Em que padrões baseamos nossos valores? O que reproduzimos com nossos gestos e discursos? O que há de interesse por trás deles?

No fim, são tantas coisas envolvidas e despertadas, mas que, basta olhar para a fotografia dos ciganinhos de Kertész de novo, para esquecer tudo e se perder nas formas da imagem, contemplá-la mais uma vez em sua simplicidade e perfeição, senti-la um pouco e parar de pensar por alguns segundos.

Sobre bellavalle

Fotógrafa, pesquisadora, professora da UFPB, mestre pela PUC/SP, doutoranda pela UFPE e amante da vida.
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Uma resposta para Podia ficar olhando pra sempre esta foto de André Kertész

  1. Marco Pimentel disse:

    um dos posts mais belos e reflexivos…

    eles sáo dignos, puros e livres.

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