Podia ficar olhando pra sempre a abaporu de Bill Brandt

Bill Brandt | Hampstead, London, 1956

A fotografia acima (Hampstead, London, 1956) pertence à segunda metade da carreira de Bill Brandt, em que ele se dedicou aos retratos, às paisagens e aos nus. É no tratamento que ele dá aos retratos de corpos femininos nus que ele expressa mais claramente sua linguagem peculiar. Essa imagem pertence a uma série de retratos fotografados em Hampstead, em Londres, a partir do ano que marcou o fim da II Guerra Mundial e que, por isso, dizem fazer referência à celebração da sobrevivência do corpo num período marcado pela destruição.

É de impressionar a colocação do corpo feminino na obra de Brandt. Ao contrário da relação com a sensualidade (que já debatemos no Diálogo 55 ) , a mulher de Brandt sugere uma espécie de estranhamento, provocada por uma distorção intensa de suas medidas. Sua presença é oferecida ao espectador por meio de uma perspectiva deformada, capturada com lentes grande-angulares e aguçada pelos close-ups.

Em Hampstead, London, essa característica mantém-se e o fotógrafo retrata uma mulher gigantesca que pode até seduzir, mas principalmente inquieta o espectador como um sonho estranho faz. Nessa imagem vertical, em preto-e-branco, a mulher está sentada no chão, com a perna direita dobrada, provavelmente sobre a perna esquerda, que não aparece de forma clara no quadro. A mulher ocupa a parte central da imagem com seu corpo apontando e preenchendo um pouco do lado direito da foto.

Nessa imagem, predomina uma relação entre a luz e a sombra bastante recorrente na obra de Brandt. É possível notar, pela recorrência de sombras quase em preto absoluto, que Brandt oferece apenas algumas partes do corpo da mulher para serem observadas. Outras, mais  responsáveis inclusive por sua identidade como mulher – como o rosto ou os seios – são simplesmente escondidas, negadas.

A mulher está sentada no chão, sobre uma espécie de carpete estampado. Mas a distorção provocada pela lente coloca as duas limitações espaciais – chão e parede – de forma quase verticalmente contínua. A sensação é de que o solo desliza da parede quase como uma rampa o faz, sem ser de forma brusca, sem provocar rompimentos.

A mulher de Brandt lembra a famosa Abaporu de Tarsila do Amaral, que causou furor no movimento cultural brasileiro da década de 1930. Numa entrevista que li, Tarsila falava que o quadro causava estranhamento nela mesma, que não sabia de onde havia tirado aquelas formas e proporções. Para a pintora, a figura de perspectiva deformada e quase monstruosa de Abaporu mais parecia uma lembrança psíquica que ela devia guardar inconscientemente, talvez relacionada às empregadas da fazenda de sua família, mulheres corpulentas que contavam histórias e embasavam seus pesadelos de criança.

Abaporu | Tarsila do Amaral

A monstruosidade quase abaporesca da mulher na foto de Brandt provoca uma dramaticidade, uma atmosfera de ameaça, como se aquela mulher gigante fosse capaz de oferecer algum perigo ao espectador – qualquer perigo, nem que seja o de esmagamento.  Com sua imponência de monstro, a mulher de Brandt pode não ser identificada exatamente como uma mulher, mas guarda um movimento, uma curva de corpo, linhas que são traços, índices de figura feminina. Somos obrigados a acreditar na existência dela mas confrontados com a ausência de credibilidade que uma imagem tão distorcida possui. Acho que é o mesmo desafio lançado a nós pelos sonhos: emocionantes porque são reais e incríveis porque não são.

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