Diário de bordo – Mesa7: Caminhos de articulação da fotografia em Pernambuco. Contra o pessimismo da individualidade, com o otimismo da articulação.

Para compartilhar com vocês o que rolou durante a #Mesa7 optamos por dividir o conteúdo em algumas etapas, afinal, seria inviável descrever tudo em um único post, temos sempre a intenção de apresentar nossos conteúdos de forma consistente, que permitam que vocês se envolvam e realmente entendam o que foi vivenciado durante o evento. Para tanto, neste primeiro momento, convidamos o querido amigo Afonso Jr. para escrever o texto sobre o debate que iniciou a programação, nos próximos dias daremos continuidade a esse #Diário de bordo!

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Por Afonso Jr*

Nos últimos dez anos, aproximadamente, o cenário da fotografia no Estado de Pernambuco mudou de forma radical. Isso pode ser percebido através das diferentes articulações de produção, formação, canais de exibição, mostras e políticas de fomento.

Tendo isso em tela, fica mais compreensível entender o debate promovido pelo 7Fotografia, no primeiro domingo de agosto de 2012, para celebrar antecipadamente o dia da fotografia. O debate reuniu o Gerente de Fotografia da Prefeitura do Recife, Josivan Rodrigues; a Fotógrafa Roberta Guimarães, com 13 livros publicados entre participações e produção própria;  o Galerista da Arte  Plural, Fernando Neves; o Fotógrafo Chico Barros; e o também Fotógrafo, professor e pesquisador, Eduardo Queiroga. A Mediação foi de Ana Lira, uma das componentes do 7Fotografia.

Convidados participam do debate na #Mesa7 | Afonso Jr.

Para quem pode acompanhar o debate “Caminhos de articulação da fotografia em Pernambuco” o perfil de composição da mesa teve muito a ver com o desenvolvimento do tema proposto. Fica-se com algumas sensações em mente. A primeira delas, é que tratou-se de uma convocatória. Não em modo institucional, mas à própria comunidade de fotógrafos, propondo um sacode-geral que seja capaz de vencer a inércia entorno da ideia que o fazer fotográfico é algo essencialmente solitário.

A segunda impressão, é que formou-se, de modo espontâneo e não previsto, algo como um grupo de trabalho, capaz de refletir sobre as potencialidades articulatórias da fotografia no cenário local.

Vamos aos avanços, aos elementos presentes que foram mencionados e situados no debate.

Olhando para a última década, podemos perceber que a consolidação de políticas de Estado para fomento a Cultura, atingiu a fotografia, demandando inclusive a criação de gerências específicas. Não sem problemas. Como levantado por Josivan Rodrigues, referindo-se aos limites que se encontram na gestão governamental, por vezes, complicada. Colocando-se como otimista, Josivan fez um panorama das ações da gerência (as semanas de fotografia, o planejamento do encontro em homenagem a Edmond Dansot, recentemente falecido), mas ressaltando que ainda há o que se conquistar como, por exemplo, a efetivação de um edital regular na esfera municipal para a fotografia, e alternativas de micro ação, que tenham um potencial seminal. Mas, reforçou que este não é o único caminho, pois são possíveis ações fora da dependência direta do poder público. Josivan afirma isso com a consciência de quem recentemente viabilizou um trabalho totalmente financiado através de financiamento colaborativo. O livro-projeto, Buenos Aires, Brasil, é um claro aceno que a lógica da articulação na fotografia, parece estar diretamente influenciada por uma cultura de redes, de troca e acesso à informação.

Saber reverter isso como engenharia criativa para a fotografia é uma das chaves a serem acionadas. Justamente nesse sentido, Roberta Guimarães destacou a extrema diferença entre o cenário preexistente aos Editais, ainda nos anos 1990, e o momento atual. “No projeto em que tive a primeira participação que depois se transformou em Livro, no caso o Projeto Lambe-Lambe (atualmente sob coordenação dos fotógrafos Breno Laprovítera e Jarbas Araújo Jr.), aquilo foi um momento de introdução do trabalho em fotografia, mas o modelo foi bater na porta e ir buscar patrocinador”.

Roberta Guimarães | Afonso Jr.

Hoje, podemos observar que a cadeia de produção do livro encontra mecanismos de captação de recursos mais regulares e estáveis. No entanto, vale ressaltar que neste modelo de trabalho é necessário, senão inevitável, pensar de modo articulado. O livro de fotografia, por si só, é uma mídia complexa, que demanda vários saberes especializados. Planejar executivamente, fotografar, editar, paginar, planejar visualmente, supervisionar impressão, planejar distribuição e lançamento. Nem de longe, e nem de perto, isso pode ser suportado com eficiência pelo fotógrafo. Embora este tenha que atuar transitando entre essas práticas, vale observar cadeias culturais semelhantes, como o cinema e a música que, naturalmente, assimilaram essa fragmentação das competências necessárias à geração do seu produto superando há muito o estágio do profissional “faz-tudo”.

Pensar o livro de fotografia para além dos seus objetivos culturais, envolve ampliar o horizonte de competências a ser desenvolvido e como ele deve ser integrado. Envolve um crescente domínio técnico, conceitual e conjuntural da produção e, obviamente, a sua consequente especialização e profissionalização.

Roberta reforça que o livro como forma é um produto valioso. Não somente pelo que carrega, mas pelo alcance e articulação inerentes. Além disso, a riqueza de projetos editoriais revaloriza a importância dos bancos de imagem pela capacidade modular, de cada imagem, poder ser justaposta com outras, formando um discurso visual a partir do processo de editoração. Se isso é verdade, há de se reforçar que o alcance ocorre também pelas novas mídias, cada vez mais ágeis, portáteis, com melhor qualidade e quantidade de recursos visuais. Pensar novos sistemas e esquemas não envolve a anulação dos precedentes. Pensar a singularidade de temas locais, permeados por diversidade, riqueza e multiplicidade de valores regionais, não anula o campo de interesse por esses mesmos temas em cenários culturais diversos.

Vale lembrar, ainda no esforço de olhar retrospectivamente e panoramicamente, que a fotografia de Pernambuco, se apresentando como tal, tem ganho visibilidade em espaços qualificados, como o Paraty em Foco de 2009 (aliás, oportunidade não tão potencializada proporcionalmente ao tamanho da janela aberta. Mas isso é assunto pra outra Mesa7!), a participação em fóruns, em encontros nacionais e ações privadas. No caso, como exemplo, o Pernambuco convida, organizado pela Galeria Arte Plural (esta iniciativa é anual, e organiza uma exposição de fotógrafos dos estados convidados. Em 2010, foi organizado o Pernambuco convida São Paulo; em 2011, o Pernambuco convida o Ceará; e para 2012, o estado escolhido será o Pará).

É interessante perceber esse eixo pelo fato que os processos articulartórios são diversos e envolvem, tanto produtos, como os livros, como eventos, exposições, semanas de foto, seminários, pesquisas. O esforço nesse caso, parece estar situado em uma via de mão dupla: dar visibilidade ao local e trazer nomes e repertórios visuais de referência no cenário nacional.

Fernando Neves | Afonso Jr.

Fernando Neves, sócio da Galeria Arte Plural, acredita neste eixo. Fico me perguntando se isso valida a fotografia local por estabelecer um campo de diálogo, ou mesmo colocando patamares de comparação e alteridade entre os epicentros da fotografia no Brasil. Em outras palavras, estes e outros esforços parecem estar vinculados com uma qualificação não exclusiva para a produção dos espaços e dos produtos, mas também do público que transita pela fotografia. Na ótica de um galerista, faz todo o sentido pensar numa ampliação na formação do público. Afinal, ao passo em que a linguagem da fotografia passa a ocupar espaços mais amplos e é reconhecida no mercado da Arte, o circuito de exposições é um dos canais viáveis para a criação de condições mais sustentáveis para o setor.

“Mas não é fácil”, sublinha Fernando Neves. Em “Pernambuco tem mais artista que comprador de arte”, alfineta e brinca ao mesmo tempo. Isso gera um problema onde “o mesmo público que alega querer mais galerias, não enxerga, na galeria, um espaço qualificado, com curadoria independente, e prefere, até por hábito, comprar direto do artista. Talvez um vestígio de uma tradição provinciana, colonialista”, conclui.

Há uma tensão presente entre o objetivo de ter mais visibilidade e, simultaneamente, ter amarras simbólicas em moldes coloniais. Perceber este contexto, aparentemente contraditório, permite ver a fotografia pernambucana sendo permeada por uma espécie de cosmopolitismo periférico. O termo não é meu. Tomo emprestado da colega e Prof.a. Ângela Prysthon, para ilustrar esse viés de projetar voos para além das auto-referências locais, buscar um diálogo mais amplo com instâncias produtoras diversas, mas, ao mesmo tempo, revelar traços arcaicos. No choque entre a cultura de bits com a do massapê; dos modelos transculturais com os sobrados do século XIX, podem ser encontradas não somente as contradições, mas, justamente, eixos de exploraração capazes de propor novos formatos e modelos de trabalho.

Um modelo que atua nas sobreposições entre estúdio / escola / galeria foi proposto por Chico Barros. “Talvez como uma forma de se vencer o isolacionismo, a falta de interesse dos fotógrafos se articularem entre si. A ideia é criar um núcleo de preservação do preto e branco, da fotografia de base química, analógica. Atuando no ensino, na produção de material e exibição do resultado dos alunos”.

Chico Barros | Afonso Jr.

A visão de Chico Barros de dividir a fotografia entre a que toma banho (analógica) e a que não toma (digital), vem no sentido de conciliar práticas de mercado, este, totalmente imerso no numérico, com alternativas de cunho estético e experimental. Chico não enxerga problema no modo como se pode hibridizar as duas matrizes tecnológicas, preservando tanto os eixos autorais como os mercadológicos.

Pensar articulação entre pares, não é, no horizonte plausível, uma tarefa livre de perigos. Há interesses, conflitos, objetivos, dimensionamentos e graus de comprometimento diferentes. No entanto, na perspectiva de Eduardo Queiroga é justamente a vinculação entre articular e potencializar que sintetiza a força desse movimento. Para ele, os focos articulatórios devem ser direcionados para ações coletivas, buscando o crescimento coletivo como um objetivo. “E essa agregação pode ser norteada através de projetos, de galerias, de coletivos fotográficos, grupos de pesquisa, de modo a reforçar o lugar próprio da fotografia, não como uma linguagem das artes plásticas, mas como um espaço legítimo de expressão e articulação”.

Eduardo Queiroga | Afonso Jr.

Afonso Jr.

Através destes posicionamentos e de outros que se deram na continuação do evento, através de conversas e trocas de ideias, tem-se a leitura do que mudou na última década. Para além do campo tecnológico, compreender a fotografia envolve perceber a sua inserção neste espaço de articulações de saberes e práticas, que, em que pese a necessidade de manter a individualidade como um dos traços de autoria e singularidade dos trabalhos, encontra, atualmente, nas possibilidades de articulação, um espaço capaz de conciliar o lado individual, necessário e central na discussão sobre fotografia, com possibilidades de ampliação e aprofundamento do que é feito e de como passa a ser produzido.

A iniciativa do 7Fotografia transbordou o objetivo inicial de realizar um debate. Na verdade, depois de algum tempo, poderemos olhar com tranquilidade para este evento como uma mesa de trabalho capaz de motivar, gerar fagulhas, lançar propostas e dar visão aos desafios situados entre os limites e potencialidades de pensar a fotografia menos como uma relação pautada em primeira pessoa. Aquele chavão entre o quem vê, o que é visto, e como é visto como o único caminho da singularidade autoral. Parece que começamos a ver uma fotografia mais preocupada em encontrar e sistematizar caminhos produtivos como os debatidos em um fim de tarde, de um domingo de agosto.

* Fotógrafo, Professor e Pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPE.

Sobre 7 Fotografia

Fotografia estudos discussões
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3 respostas para Diário de bordo – Mesa7: Caminhos de articulação da fotografia em Pernambuco. Contra o pessimismo da individualidade, com o otimismo da articulação.

  1. claudio gomes disse:

    Sempre acompanho vcs, adorei esta mesa de debates que coloca em pauta toda uma tradição fotografica , com suas ideias e amarguras que este mestres da fotografia coloca ” entre linhas ,”, sou do interior e fiquei triste porque perdi o prazo de mandar algumas fotos de meu acervo , parabenizo pela bela iniciativa, o ano passado estive na primeira mostra como admirador de vcs, e hoje continua admirando mais e mais, abraçoa minha amiga gamarra que estendo a vcs 5 , 6 , 7 ,8 9 ou 10 não importa o numero vcs sempre serão sempre 10 em fotografia.

    claudio gomes
    Afogados da ingazeira – PE.

  2. Pingback: #Mesa 7: os caminhos da articulação em Pernambuco | RETRATOGRAFIA

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