Plataforma – Photographs Not Taken

Este é o primeiro Plataforma que eu publico dividida: de um lado está a obra, que vale a leitura da primeira à última página; do outro lado está o meu dilema de falar sobre um projeto que apenas parte da comunidade fotográfica pode acessar, porque a obra é escrita em inglês. Eu sempre faço um esforço de pesquisar materiais bonitos e acessíveis para serem discutidos aqui no blog, porque nunca parto do princípio de que a minha realidade norteia a vida dos demais fotógrafos do país; e tento disseminar o máximo de informação que eu posso entre quem dialoga comigo. Hoje, contudo, eu vou abrir uma exceção porque Photographs Not Taken é um dos livros mais lindos que eu encontrei este ano.

O livro é editado pelo fotógrafo e escritor Will Steacy e publicado pela editora Daylight. Steacy pediu a 62 fotógrafos que “deixassem de lado um pouco as ferramentas necessárias para se fazer uma fotografia e, ao invés disso, descrevessem as experiências que não ultrapassaram as lentes da câmera”. Assim, surgiram os relatos que inundam o livro de enredos, dilemas, acasos e reflexões acerca das imagens e contextos que jamais seriam transformados fisicamente em fotografia. Um momento em que os fotógrafos são convidados a usar outras habilidades para narrar o que viram.

Este livro se mostrou importante no meu atual contexto porque ouço, com muita frequência, que “os fotógrafos geralmente não sabem escrever muito bem, não sabem editar textos e nem falar direito sobre os próprios trabalhos”. Para onde eu viajava, de Recife a Porto Alegre, de Aracaju a Belém, escutava a mesma coisa. Enquanto ouvia, a minha mente fazia uma lista dos fotógrafos que, além de produzirem fotografias respeitáveis, escreviam e refletiam sobre a imagem e suas temáticas muito bem.

Meu pensar passeava não apenas pelos primeiros fotógrafos (que relataram suas descobertas e nos ajudaram a pensar muitas outras questões técnicas, estéticas e discursivas), como também recordava de nomes que são clássicos neste assunto: Ansel Adams, com a sistematização das experiências que o levaria a escrever a trilogia A Câmera, O Negativo e A Cópia; Bresson e suas reflexões sobre o papel da fotografia no contexto social, o eterno debate sobre o instante decisivo e as polêmicas envolvendo o processo criativo de Sebastião Salgado. Encontrava ainda eco no meu coração, o jornalismo literário de Robert Capa, as inquietações de Luiz Humberto, as pesquisas de Boris Kossoy e os textos poéticos de Walter Firmo, entre outros.

Fotografia e escrita nunca precisaram morar em casas separadas.

Eu não sei em que momento da trajetória humana alguém resolveu podar a liberdade de um indivíduo fazer as duas coisas e determinou que uma pessoa que escreve bem não pode ser fotógrafa e um excelente fotógrafo jamais pode exibir o seu talento com palavras. O mais angustiante é que isso é tão repetido mundo afora que, em algumas conversas, encontrei iniciantes no campo da imagem evitando desenvolver as próprias habilidades com a escrita por medo de deixarem de ser fotógrafos. “Se eu escrever muito ou pensar demais nos meus trabalhos, eu não vou conseguir ver direito”, ouvi um dia desses.

“Estes negativos mentais revelam as formas de mundo que não caberiam em um único frame” – Will Steacy, no prefácio do livro.

É por relatos como esse que Photographs Not Taken virou o meu novo xodó fotográfico; o exemplo que passei a citar em quase todas as conversas em que este tema aparece. Fotógrafo pode e deve escrever! Fazer diários escritos e gráficos. Fotógrafo pode e deve ler o que os outros fotógrafos, músicos, literatos, pesquisadores, jornalistas e escribas de toda a sorte elaboram textualmente. A palavra não é inimiga da imagem. Ela amplia sentidos e oferece um universo imenso de percepções sensoriais para o ato fotográfico, como pode ser visto nos relatos publicados pelos colaboradores de Will Steacy.

É muito bonito ler os textos e perceber vestígios dos processos criativos dos participantes em seus respectivos depoimentos – quando não somos agraciados com discussões sobre os processos criativos em si. Em cada “fotografia não realizada” é possível observar as crenças que norteiam suas produções e os parâmetros considerados na hora escolher não clicar – ou quando, diante dos momentos em que desejam ou antecedem o clique, o próprio contexto envia um sinal de Pare!

O espectro de variáveis que impedem a concretização do ato fotográfico é muito amplo e, ao ler este material, é impossível não pensar nos nossos próprios caminhos e em quanto somos diferentes de outros fotógrafos – mesmo os que admiramos e temos como referência; mesmo os que estamos conectados por afinidades visuais ou aqueles que nos dizem que estamos “copiando”. É diferente! Refletir e escrever são maneiras de trazer um pouco mais de concretude a esses processos.

Pedir que 62 pessoas redigissem suas vivências foi uma maneira, mesmo inconsciente, de Will Steacy nos dizer que as “fórmulas de mestres” não devem ser camisas de força porque, na hora H, são as crenças pessoais que vão determinar os caminhos, como se pode ler no relato cheio de conflitos de Nina Berman. Diante de uma personagem que facilmente viraria “um objeto a ser estudado fotograficamente”, ela se viu questionada naquilo que estava tentando dizer com as suas imagens. Será que a fotografia que você acredita é aquela que vem à tona no seu cotidiano fotográfico?

Muitas questões surgem durante a leitura…

Outro tema que aparece é a afinidade. Se não nos ligamos a todas as fotografias que vemos e nem com todos os tipos de produções fotográficas, o mesmo ocorre com os relatos. Há alguns em que nos sentimos parceiros dos fotógrafos, reforçamos ideias, repensamos outras e descobrimos novos amores. Há depoimentos, porém, que, dependendo do contexto de quem estiver lendo (neste caso, estou falando da minha própria experiência), a conexão será menor. Saber que dificilmente seremos tocados de forma igualitária pelas 62 experiências do livro também é uma forma de conhecer mais a nossa própria trajetória, de modo que nenhuma leitura é irrelevante.

No mais, o que posso dizer, para não correr a tentação de revelar todos os segredos do livro, é que torço tanto para que ele seja traduzido em breve no Brasil – e, assim, mais gente tenha acesso – quanto para que possamos ter uma iniciativa semelhante no país, uma vez que essas trocas são imensamente positivas. Para dar um certo gostinho da leitura e socializar um pouco mais a informação, para os não-leitores de língua inglesa, eu fiz a tradução de dois textos que eu gostei muito e que me serviram bastante de reflexão estes dias. Um foi escrito por Timothy Archibald e outro por Joni Sternbach! Boa leitura!

Thimothy Archibald clica o texto para divulgar em seu blog após o lançamento do livro.

TIMOTHY ARCHIBALD, página 13.

Quando eu tinha 15 anos, eu estava morando com meus pais em Schenectady, New York. No dia de São Patrício (San Patrick´s Day) haveria um desfile comemorativo em uma cidade nos arredores de Albany. Eu perguntei ao meu pai se ele poderia me levar e caminhar um pouco pela cidade enquanto circulava para fazer algumas fotografias. Eu tinha sido um imenso fã do trabalho Os Americanos (The Americans), de Robert Frank e, como eu havia observado o dia nublado que se colocava diante de nós, eu senti que o desfile proporcionaria um rico material a la Robert Frank. Meu pai tinha o dia livre e concordou em me levar.

O dia estava nublado, mas com uma temperatura aquecida e agradável. Eu amava fotografar com filme Tri-X e eu sabia que a luz filtrada do dia, com poucas sombras, seria perfeita para chegar a bons resultados. A cidade estaria essencialmente fechada durante o dia; as únicas coisas abertas eram bares e restaurantes; tudo estava preparado para este dia de celebração da classe trabalhadora. Meu pai e eu achamos um lugar para estacionar e concordamos em nos encontrar três horas depois.

Assim que eu deixei meu pai e entrei pela cidade, eu tive uma intuição. Na pressa para sair e me organizar, eu havia esquecido de trazer filmes comigo. Eu havia pedido ao meu pai para me trazer e encorajado-o a trazer um livro para ler enquanto esperava por mim, e eu havia arruinado completamente as coisas e esquecido de trazer o filme. Não havia lojas abertas. Eu não tinha dinheiro. Eu não podia voltar e contar a ele…eu precisava vivenciar aquilo como foi efetivamente planejado.

Eu entrei pelas ruas, a câmera e eu. Eu olhei em volta e me dei conta que eu deveria simplesmente fingir…agir como se eu tivesse filme na câmera e ver o que viria a partir disso. O desfile estava iniciando…as bandas marciais escolares estavam alinhadas em seus uniformes costumeiros. Grupos de veteranos se agruparam e se preparavam para adentrar o desfile…alguns estavam desanimados, outros pareciam exultantes com a energia acolhedora oferecida pelas bebidas alcoólicas ingeridas no começo da tarde. Eu sempre havia enfrentado dificuldades de fotografar estranhos. Eu sentia medo sempre que precisava abordar pessoas que eu tinha curiosidade a respeito, ou até aqueles que eu não tinha interesse nenhum…era sempre o mesmo temor ou vergonha pela posse da câmera. Hoje, foi diferente. Todo mundo estava aberto, todo mundo estava acessível. Eu fotografei no meio das pessoas como se fosse invisível, quase sempre reforçado por um sorriso de aprovação. Seria eu? Seria o feriado?

Mesmo sendo menor de idade, eu consegui acesso a uma taberna irlandesa. Todo mundo parecia extasiado e, mais uma vez, todos me encorajaram a tirar suas fotografias. Aqui estou eu, sentado na janela com um grupo de estranhos sorridentes e acolhedores, fazendo retratos de cada um deles. O rapaz da cabeça da mesa, usando um chapéu de papel, passou mal e vomitou. Eu entrei em pânico e olhei em volta, mas todo mundo apenas riu. O sol derramava-se atrás dele. O dia nublado se foi, mas a luz de fim de tarde estava ainda melhor. A senhora sentada perto de mim, corpo largo e cabelos longos, camisa suada e sorriso maroto, me pediu para tirar uma fotografia sua no fundo do edifício, onde seu carro estava estacionado. Eu me obriguei.

Este era o acesso e abertura que eu sempre quis que minhas fotografias tivessem…mas eu nunca soube como conseguir. Esta foi minha revelação fotográfica pessoal, acontecendo exatamente ali no momento em que o sol se debruçava sobre a janela; aqueles celebrantes bêbados estavam me mostrando como tudo era possível de ser feito.

Eu deixei o bar e retornei para encontrar com meu pai. Eu estava obsecado e feliz tanto com o secreto efeito da cerveja acolhedora da taberna quanto com o sentimento de levar para casa o tipo de fotografia que eu sempre havia previamente fantasiado fazer. Passados dois quarteirões, pensando nos cliques, eu fui trazido de volta à terra quando me lembrei que não havia filme na câmera. Por um segundo, eu senti que arruinei tudo. Estranhamente, o sentimento passou rápido. Ao caminhar de volta e encontrar o caminho até meu pai, eu percebi que alguma porta havia sido aberta para mim. Eu havia encontrado um jeito com as pessoas, eles aceitaram a mim e a câmera, e eu não estava com medo. Esta habilidade para entrar no mundo das pessoas estava no horizonte. Estava diante de mim seguir em frente. Aquelas fotografias que nunca foram feitas me levaram a compreender que não há motivo para ter medo.

—-

JONI STERNBACH, página 179.

Uma fotografia que seria irrealizável.

Como um fotógrafo jovem, eu aprendi a andar com a câmera no pescoço, como um pingente. Eu estava preparado para clicar todo o tempo, ajustando minhas paradas assim que eu virava a esquina, do nascer ao pôr-do-sol. A câmera vivia dentro do meu casaco no inverno e fora da blusa no verão; era parte de mim, uma segunda pele. Eu andava com ela quando voltava para casa para visitar a família, até mesmo para a cama dos meus pais quando minha mãe, irmão e eu tínhamos “discussões” familiares que se transformavam facilmente em gritos. Eu documentava até esses momentos.

Eu também usava a minha câmera como um escudo para me proteger das situações temerosas que eu encontrava, como os flashers* nas ruas de New York ou enquanto eu estava fotografando no metrô tarde da noite. Eu usava a câmera como uma forma de ver, interpretar, gravar, e possivelmente atenuar o mundo em volta de mim. Ter a minha câmera perto me fazia sentir seguro, me dava estrutura e um certo senso de propósito.

Agora, como alguém que envelheceu, eu não uso mais a minha câmera no corpo como uma forma de experimentar o mundo. Minha escolha de câmera agora é uma grande formato 8×10, que não pode ser usada como uma Leica 35mm. Meus métodos de clicar também mudaram. Nestes tempos muito do meu trabalho é sobre acasos. Eu vou para lugares onde os encontros aleatórios e ocasionais com estranhos terminam em fotografia.

Há alguns anos eu estava na Califórnia e eu tinha uma seção planejada com um surfista e o treinador em uma praia de Rincon. Eu não os conhecia, então, cheguei cedo para ajustar o maquinário e testar o tempo de exposição. Enquanto eu estava lá, eu localizei um pai brincando com o filho em torno da praia. O pai estava fazendo maravilhosos movimentos de Ioga com a ajuda de um graveto, criando e invertendo cada movimento, como a pose da vaca. Era final de tarde e não havia muita coisa ocorrendo, então, eu os assisti por um momento. Mais tarde eles foram surfar. Quando retornaram, eu me aproximei do pai e perguntei se podia fazer uma foto deles. Ele concordou, e foi ao encontro do filho para perguntá-lo. Ele voltou para dizer que, enquanto ele estava disposto a posar, o filho não estava. Minhas fotos são quase que definitivamente sobre colaboração, então, eu deixei que a foto se fosse, mesmo que eu realmente quisesse fotografá-los juntos.

Como o pai havia concordado em posar, eu fiz a foto dele sozinho na pose de Ioga que eu havia admirado. Mais tarde, enquanto eu fotografava o surfista e o treinador, o garotinho veio até mim segurando uma polaroid de si mesmo. Ele não se importava que eu tivesse uma imagem dele; ele só não queria que ela fosse feita por mim. Eu guardo a imagem comigo no meu kit como um acolhedor prêmio de consolação.

*Flashers (de New York) são descritos como indivíduos que costumavam perseguir pessoas e mostrar as partes íntimas com o intuito de intimidar. Podia haver casos de violência associados a eles. Em um dos episódios citados nos jornais norte-americanos, um homem de 40 anos perseguiu uma menina de 11 anos.

Lista dos fotógrafos participantes:

Dave Anderson, Timothy Archibald, Roger Ballen, Thomas Bangsted, Juliana Beasley, Nina Berman, Elinor Carucci, Kelli Connell, Paul D’Amato, Tim Davis, KayLynn Deveney, Doug Dubois, Rian Dundon, Amy Elkins, Jim Goldberg, Emmet Gowin, Gregory Halpern, Tim Hetherington, Todd Hido, Rob Hornstra, Eirik Johnson, Chris Jordan, Nadav Kander, Ed Kashi, Misty Keasler, Lisa Kereszi, Erika Larsen, Shane Lavalette, Deana Lawson, Joshua Lutz, David Maisel, Mary Ellen Mark, Laura McPhee, Michael Meads, Andrew Moore, Richard Mosse, Zwelethu Mthethwa, Laurel Nakadate, Ed Panar, Christian Patterson, Andrew Phelps, Sylvia Plachy, Mark Power, Peter Riesett, Simon Roberts, Joseph Rodriguez, Stefan Ruiz, Matt Salacuse, Alessandra Sanguinetti, Aaron Schuman, Jamel Shabazz, Alec Soth, Amy Stein, Mark Steinmetz, Joni Sternbach, Hank Willis Thomas, Brian Ulrich, Peter Van Agtmael, Massimo Vitali, Hiroshi Watanabe, Alex Webb, and Rebecca Norris Webb.

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4 respostas para Plataforma – Photographs Not Taken

  1. Caramba, também fiquei doidinho pra que publiquem aqui no Brasil… será que a Photos pode pegar?

  2. Julia disse:

    Muito bom o testo Aninha! Vamos torcer para que ele seja publicado em mais linguas!

    Beijos
    Julia da Escossia

  3. diariodefoto disse:

    Gostei muito e, mais ainda, fiquei curioso para ler. Deu pra sentir um pouco a fotografia além das imagens. Interessante como a fotografia acontece naturalmente. Uma das minhas `chatices´ agora será fazer da fotografia um documento que conta uma história, e não simplesmente uma imagem que registra uma história. Minha tese é que é necessário, ao menos, saber o nome do retratado, saber o que cada momento representa e anotar tudo que for relevante. Alguma coisa aqui também me inspirou.

  4. Ricardo Torres disse:

    Será que um dia também perderei o medo de me aproximar de pessoas com minha câmera para fazer retratos como citado no primeiro texto. Me identifiquei com o citado pelo autor. Muito bom mesmo. Parabéns Ana.

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