Diário de Bordo – Fest Foto Poa 2012 – A Experiência Coletiva I

Pensar essa temática da experiência coletiva no campo da fotografia foi uma das melhores ideias do Fest Foto Poa. Desde que eles anunciaram a linha de debate do evento que eu ansiava para ver as discussões. Esperava encontrar integrantes de vários coletivos fotográficos em Porto Alegre para conhecer outros trabalhos, dividir experiências e compreender mais outras propostas de trabalho neste campo.

Eis que o evento começa e, para a minha surpresa, quase não vi coletivos da minha geração (se assim posso chamar) participando das atividades. Exceto pelo Imagens do Povo, a Cia de Foto (representada por Pio Figueirôa) e os moços queridos do Baita Profissional, eu não consegui mapear outros coletivos mais recentes em Porto Alegre (se alguém mais esteve presente, por favor diga um alô!). Fiquei pensando um bom tempo sobre isso ontem a noite.

Por que não conseguimos nos conectar? O que falta para estarmos juntos discutindo esta experiência? Fazemos isso com coletivos de outros países e não conseguimos fazer entre nós. O que falta?

Fotógrafos, estudantes, pesquisadores (diversos!) acompanham Fest Foto 2012 | Foto: Ana Lira

Enquanto representantes de agências de imagens, cooperativas e outras formas de organização, que marcaram o meio fotográfico brasileiro, estavam no encontro discutindo e nos presenteando com referências do que deu certo e do que precisa ser repensando, as experiências mais recentes marcaram uma presença muito tímida nos debates até o momento. O que poderia ter sido feito de maneira diferente, tanto entre nós quanto do próprio evento, para ampliar essa participação? Deixo com carinho esse pensar.

Trajetórias Históricas

As agências que estavam nas primeiras discussões foram a Focontexto, representada por Ricardo (Kadão) Chaves, e a F4, representada por Juca Martins na mesa e pelas presenças de Nair Benedicto, João Roberto Ripper e Fausto Chermont na plateia. As discussões dos dois projetos foram pautadas pelos modelos de organização de cada uma delas e pelos desdobramentos de suas ações no cotidiano do meio fotográfico.

O que me impressionou de início na apresentação de Kadão Chaves é que ele mostrou uma imagem dos integrantes da Focontexto, que trazia os fotógrafos, a secretária, o office boy e o arquivista. Achei muito interessante essa presença das pessoas que possuem função administrativa, na agência de imagem, porque quase sempre se esquece da importância delas para a construção coletiva do trabalho.

Equipe da Focontexto mostrada na apresentação de Kadão Chaves | Foto: Ana Lira

É interessante e pensar nisso porque quando esmiuçamos mesmo a trajetórias de várias agências de imagens, vamos descobrindo diversos projetos fotográficos cujas ideias e desdobramentos foram efetivamente motivadas ou construídas com a colaboração dessas pessoas. Então, olhar esta experiência coletiva de maneira ainda mais expandida – com a inclusão de quem fica nos bastidores – foi muito bom!

Outro ponto bacana da apresentação de Kadão Chaves foi mostrar o processo de rotatividade que existia na Focontexto. Embora os fotógrafos da agência tivessem perfis de trabalho com os quais se identificavam mais ou fossem especialistas em determinadas áreas, havia uma rotatividade de tarefas, de acordo com as necessidades. Um profissional com experiência de estúdio poderia ser solicitado a cobrir esportes, por exemplo, e isso ajudou a ampliar o campo de atuação da equipe da agência, o que foi muito bom para todos eles, segundo Kadão.

Chaves também situou o público com diversos relatos de experiências vividas por eles, como o caso de sua primeira viagem internacional, para cobrir uma eleição no Uruguai, em que era menor de idade e precisou viajar com um termo de autorização dos pais para fazer o trabalho. Segundo ele, a situação mais peculiar de toda a equipe de cobertura política deslocada para país vizinho naquele momento. Estas e outras experiências renderam ao fotógrafo uma série de reconhecimentos, entre eles a que soube no final da mesa: será o fotógrafo homenageado do Fest Foto Poa 2013.

Juca Martins, por sua vez, apresentou a experiência da antológica Agência F4. Formada por uma equipe de fotógrafos que havia feito parte dos principais meios de comunicação do país, eles foram pioneiros na discussão de uma série de ações que ainda hoje são discutidas no campo da fotografia. Martins relatou que o desejo da equipe da F4 era desenvolver trabalhos de maneira independente, com pesquisa e pautas elaboradas por eles, que seriam comercializadas com os meios de comunicação dentro e fora do país.

Juca Martins apresenta alguns trabalhos da Agência F4 que foram realizados por ele, como a cobertura da guerra de El Salvador | Foto: Ana Lira

A F4 foi responsável por pautar no meio fotográfico brasileiro a discussão e efetivação do crédito do fotógrafo na imagem – um direito que ainda hoje vem sendo desrespeitado por diversas publicações, indivíduos, grupos e instituições,  que contratam serviços fotográficos e na hora de divulgar a imagem não creditam ou utilizam os anônimos mais famosos do mundo: os fotógrafos Divulgação e Acervo Pessoal.

Além do crédito, outra ação importante da F4 foi a elaboração de um contrato de licenciamento de imagens próprio. Quando eles realizavam um trabalho e comercializavam a imagem para os veículos de comunicação, o fotógrafo não assinava o termo de direitos autorais do jornal ou revista. Era o meio de comunicação que assinava o contrato elaborado pela agência. Esse contrato, inclusive, não usava o termo cessão, mas licenciamento.

O veículo comprava, na verdade, uma licença de uso de uma imagem ou grupo de imagens para uma publicação específica. Se quisesse usar em outra edição ou publicação, pagava por uma segunda licença. Essa prática da F4 foi usada por diversas agências do país, até o fechamento da maioria delas na década de 1990. O que ficou na minha cabeça depois de ouvir o depoimento de Juca Martins e pensar nos contratos cada vez mais vorazes de direito de imagem que tem nos enviado é:

– como é que a gente conseguiu regredir tanto?

João Roberto Ripper, que também integrou a Agência F4, comenta sobre a importância da organização dos fotógrafos para conseguir os resultados a que eles chegaram | Foto: Ana Lira

Será falta de discussão, união e politização dos fotógrafos? A F4 encerrou as atividades durante o período do governo Collor. À época, eles contavam com três escritórios: São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. O processo de confisco das poupanças e a política econômica do período dificultou bastante a continuidade da agência que, depois de uma série de diálogos, decidiu encerrar as atividades. Nos anos seguintes, vários deles fundaram outras agências. Algumas continuam até hoje, como a NImagens, de Nair Benedicto, e a Terra Brasilis, do próprio Martins.

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