Diário de Bordo – Fest Foto Poa 2012 – A Experiência Coletiva II

As vivências da Focontexto e da F4 foram seguidas da mesa-tema do festival que agregou, em torno do debate da experiência coletiva, o fotógrafo Eduardo Queiroga (das agências Lumiar e Algaroba, um dos fundadores do Fotolibras e idealizador do projeto Imagem.Experiência) e as pesquisadoras Lívia Aquino (autora do blog Dobras Visuais e professora da FAAP São Paulo), e Claudia Linhares Sanz (professora da UnB e colaboradora do blog Icônica). A mesa foi mediada por Pio Figueirôa, da Cia de Foto, que abriu a conversa com um belo texto sobre o tema.

Eduardo Queiroga, Livia Aquino, Claudia Linhares e Pio Figueirôa refletem sobre a Experiência Coletiva | Foto: Ana Lira

Livia Aquino apresentou uma reflexão intitulada A Kodak e o Coletivo Amador, em que ela observa, na trajetória das campanhas da Kodak, os dispositivos que a empresa utilizava para incentivar grupos cada vez maiores de pessoas a fotografar o próprio cotidiano. Aquino enfocou especificamente a fotografia de viagem, um segmento que contou com campanhas tão fortes que criaram, no imaginário coletivo, a sensação de que determinados momentos não existiram se você não fotografou.

Se observarmos a reação das pessoas quando encontram alguém sem câmera, em férias, por exemplo, teremos uma noção do que essas campanhas foram capazes. Eu mesma me peguei pensando, ontem a noite, que devia ter fotografado mais essa minha passagem por Porto Alegre e o cotidiano com as pessoas que me são queridas e que estiveram presentes no evento. Esse sentimento de que tem algo faltando e de que não vamos ter como mostrar o que vivemos cai bem na discussão.

Porém, o perfil do turista-fotógrafo, discutido por Lívia Aquino, evidencia um elemento ainda mais delicado: o modelo de fotografia de viagem. Além de sedimentar um comportamento de entrelaçamento entre vida e produção de imagens, a dinâmica da indústria direcionava o perfil da fotografia que devia ser feita. Um perfil que com poucas modificações vem sendo repetido há décadas por milhares de viajantes pelo mundo, sem qualquer reflexão.

Imagens que se assemelham em seus elementos básicos e que a pesquisadora propõe como reflexão: por que elas ainda são feitas da mesma maneira? Será que precisamos realmente fotografar viagens da mesma forma? Com as mesmas poses? As mesmas soluções visuais? Que outros caminhos haveria para esta fotografia cotidiana, que fossem além das fórmulas que são frequentemente inventadas e simplesmente colocadas em prática por um grupo cada vez maior de pessoas que fotografam? Será possível amainar essa rotina de cópia de fórmulas fotográficas para a fotografia cotidiana?

Campanha da Kodak em 1921: “aquela viagem que fizemos juntos é tão real hoje quanto foi no verão passado”.

Enquanto as reflexões de Livia Aquino ainda estavam assentando na mente, eu comecei a ler a palavra afetiva na tela da apresentação que Eduardo Queiroga estava começando a fazer no Fest Foto Poa. Segurei um pouco o fluxo de pensamento e me concentrei em suas propostas para a discussão da mesa. Ele conversou sobre o que chamou de coletivo fotográfico contemporâneo, que são referências de experimentações coletivas que vão além do compartilhamento de estrutura, espaço físico e ações de divulgação, se desdobrando na coletivização da própria prática fotográfica.

Para Queiroga, o que marca a relação destas experiências coletivas é a relação de afeto estabelecida entre os participantes. Ela seria o elemento-chave que nortearia a trajetória da vivência coletiva em todas as suas nuances: processos criativos, diálogos, desafios, entre outros. Em sua apresentação, porém, ao invés de trazer exemplos dos coletivos abordados em seu trabalho de dissertação de mestrado, ele resolveu exemplificar com os casos de Hilla e Bernd Becher e o “Coletivo Robert Capa”, formado por Gerda Taro e Endre Friedman.

Hilla e Bernd estudaram juntos e desenvolveram alguns trabalhos em parceria antes de casarem. Quando passaram a dividir o mesmo teto e as dificuldades financeiras iniciais, o casal desenvolveu um processo criativo em que ele saia para fotografar e ela ficava no laboratório, mas todas as etapas dos projetos eram discutidas em conjunto. Quando conseguiram se estruturar melhor para ter dois equipamentos, eles passaram a viajar e produzir tudo juntos. O resultado foi a criação de uma linguagem visual tão própria que, anos mais tarde, o casal não conseguia distinguir quem tinha feito determinadas fotografias.

O caso de Gerda Taro e Endre Friedman é ainda mais curioso. Eles foram responsáveis pela figura lendária de Robert Capa. Os dois moravam nos estados unidos e Friedman, por ser estrangeiro, sentia dificuldades de transitar pelo meio fotográfico. Os dois, então, criaram um fotógrafo fictício chamado Robert Capa, que agregava à sua imagem um perfil de americano talentoso e bem sucedido. Isso permitiu tanto a entrada deles no mercado quanto a possibilidade de cobrar valores mais altos pelos trabalhos realizados.

Taro e Friedman – Montparnasse – Paris – 1936 – Foto: não identificada no site de origem.

Eduardo Queiroga mostrou que Gerda e Endre foram responsáveis por toda a produção inicial da carreira agregada ao nome de Robert Capa. Depois, ele precisou assumir publicamente o perfil do fotógrafo porque começaram a surgir desconfianças a respeito deste homem que publicava fotos sem que ninguém o conhecesse pessoalmente no meio. Em uma nova fase da carreira dos dois, Gerda começa a ter vontade de assinar alguns trabalhos e propõe que as fotografias publicadas pelos dois sejam creditadas como Capa&Taro.

Este desejo não chega a ser realizado e nem o casamento dos dois. Ambos estavam cobrindo a guerra civil espanhola, quando Taro negou o pedido de Friedman e pouco tempo depois faleceu atropelada por um tanque durante um ataque na Espanha. Friedman assumiu de vez o nome de Robert Capa. Eduardo Queiroga contou que como essa história nem sempre vem agregada à trajetória de Capa, uma série de questões acerca da produção fotográfica do mito vez por outra aparecem no meio público.

Uma das mais intrigantes é a da imagem do soldado morto na guerra espanhola. Uma vez que Taro e Friedman fotografavam juntos, às vezes dividiam a mesma câmera, e assinavam coletivamente com o nome de Robert Capa, existe a possibilidade da foto ter sido feita por ela e não por Endre Friedman. Eu recordo, inclusive, que há alguns anos os jornais publicaram uma notícia de que a linguagem fotográfica da imagem estava muito mais associada à produção dela do que de Friedman e que os negativos da fotografia remetiam ao material produzido por ela no “Coletivo Robert Capa”.

Robert Capa certamente responde pela fotografia do soldado morto. O que não se sabe é quem clicou a imagem: Gerda Taro ou Endre Friedman. Queiroga crê que mais importante que saber a autoria da imagem é observar o processo criativo dos dois por trás dela.

Queiroga comentou que estes dois exemplos são importantes para nos perguntarmos o que estas referências de produção coletiva nos dizem hoje. Por que há tantos coletivos? Por que trabalhar em coletivo?

Um pouco destas questões acabaram sendo respondidas no debate proposto por Claudia Linhares. Ela associou a experimentação coletiva a uma proposta de criação que tem uma importante dimensão pública e política. A fotografia como uma experiência histórica e social capaz de articular uma mudança maior, que se desdobra na alteridade e na relação entre as pessoas. Linhares colocou que, mesmo diante de um panorama criativo que misturam diversas formas de filiações fotográficas, existe uma diferença entre a produção coletiva moderna e contemporânea.

Ela discutiu que um dos traços das práticas modernas era a discussão coletiva de inquietações sociais, filosóficas, políticas, afetivas, entre outras, que eram reelaboradas e aprofundadas pelos autores individualmente em tempos e espaços determinados por seus processos criativos. Ou seja: se um fotógrafo estivesse conectado diretamente ou indiretamente com um movimento, a sua prática criativa dependeria mais de como ele percebia subjetivamente estas questões e as transformava em imagens do que das ações realizadas pelo próprio movimento.

Leaves os Grass | Geoffrey Farmer | Documenta 13

Os referenciais contemporâneos de criação coletiva são outros e, para compreendê-los, Linhares afirma que é preciso pensar nas relações que os coletivos estabelecem com o meio social. Enquanto as referências modernas de criação valorizavam a necessidade do indivíduo se isolar para conhecer como sua subjetividade reagia aos estímulos sociais, a produção coletiva contemporânea busca uma reflexão em parceria, em que a relação estabelecida entre os envolvidos no processo criativo é um elemento essencial do processo.

Claudia Linhares citou os exemplos de trabalhos desenvolvidos por Sofie Calle, cuja produção de diversos trabalhos é direcionada pela ação das pessoas que ela escolhe fotografar. Outro exemplo dado foi o do artista Geoffrey Farmer, que elaborou uma escultura com fotografias recortadas de 50 anos de edições da revista Life. O último trabalho mostrado foi o da Frente 3 de Fevereiro, formado por músicos, fotógrafos, videastas, designers, entre outros, que propõem ações públicas articulando linguagens artísticas em torno de um tema que precisa ser discutido. O trabalho mostrado por Linhares trazia a questão da morte gratuita e cotidiana da população negra no Brasil.

Os debates que se seguiram mostraram a amplitude de possibilidades que o trabalho coletivo pode agregar e a profunda mudança no processo de percepção social que os referenciais contemporâneos de criação estão trazendo. Porém, é preciso também levar em consideração as questões trazidas por Eduardo Queiroga e ponderar até que ponto estar em coletivo é um desejo de refletir, criar e transformar estruturas juntos ou apenas um modismo de ser coletivo, sem um pensamento mais aprofundado sobre este estar junto no mundo. As demais experiências mostradas no Fest Foto Poa estão ajudando a aprofundar esta reflexão. Até o próximo texto…

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3 respostas para Diário de Bordo – Fest Foto Poa 2012 – A Experiência Coletiva II

  1. Ana, obrigada pelo relato sobre a mesa do FestFotoPoa!
    Sobre o que conversamos por lá, penso mais no Modo como a fotografia no turismo se estruturou, e não tanto em \”apontar novos caminhos\”. Talvez um problema da atualidade seja justamente a busca por aquilo que denominamos como novo dentro da experiência com as imagens.
    Bom encontrar contigo, mesmo que rapidinho!
    Bjs

    • Ana Lira disse:

      Livia!

      É super importante ter esses retornos, que nos ajudam a perceber melhor essas nuances dos trabalhos desenvolvidos por vocês. Seria lindo se os palestrantes discutissem nossas impressões nesses relatos apontando essas sutilezas que deixamos de perceber pela correria própria que envolve qualquer festival. Obrigada e é sempre muito bom encontrar com vocês! Um cheiro!

  2. Pingback: No FestFotoPoa 2012 | DOBRAS VISUAIS

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