Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Horst P. Horst

Mainbocher Corset | Horst P. Horst (1939)

Ao olhar esta imagem pela primeira vez, na capa do livro de Claudio Marra (“Nas sombras de um sonho”), fiquei admirada. Não sabia de história alguma sobre ela, nem se quer quem seria seu autor (o qual eu já conhecia de outras imagens tão lindas quanto), mas me peguei fitando-a e, desde aquele momento, em que eu estava apenas na livraria comprando um livro (recomendado por Mel) para me auxiliar na preparação da minha disciplina de Fotografia de Moda, eu a olharia para sempre. E olhei por um bom tempo.

É uma foto de um corpete (considerando que o livro se trata de “História e linguagens da fotografia de moda”); com uma iluminação incrível (sombras e contraste riquíssimos); e uma mulher que o veste em cima de uma, digamos, prateleira. Seria o corpete um produto? Seria a mercadoria a própria modelo? Se trata de uma vitrine? Não, não é buscando explicações em conceitos de moda ou publicidade que vou me bastar e parar de olhar para esta imagem.

A tristeza de uma composição concisa, geométrica, limpa, e de uma iluminação tão expressiva. A melancolia de uma pessoa de costas, cabisbaixa, que se esconde por entre os braços. A fragilidade de um corpete desamarrado, cuja fita se desfaz como uma cauda que não se acaba. Tudo isso grita nesta imagem. Era preciso saber mais sobre ela.

E eis que, dentro do livro mesmo, vêm algumas informações: a imagem se trata de uma obra de Horst P. Horst. Ali, está retratado um corpete desenhado por Mainbocher. A iluminação sugere que apenas há uma fonte de luz, mas foram utilizados alguns refletores e spots, que nem mesmo o fotógrafo saberia reportar como a construiu e nem conseguiria refazê-la. É o resultado de uma emoção. Porquê?

“Era a última fotografia que eu realizava em Paris. Deveria deixar o estúdio dentro de quatro horas, voltar para casa para preparar as bagagens, tomar o trem às 7 horas para Le Havre para embarcar no Normandia… Tinha construído uma família em Paris e tinha um modo de vida. As roupas, os livros, o apartamento, tudo ficava abandonado. Eu tinha deixado a Alemanha; Hoyningen-Huene, a Rússia; agora os dois, de novo, abandonavam tudo. Essa fotografia é para mim a essência daquele momento. Enquanto eu a realizava, estava pensando em tudo aquilo que, em seguida, eu teria perdido.”

A tristeza que me tocava na fotografia não era à toa. Paris entrava na Segunda Guerra Mundial. O fotógrafo, junto ao seu companheiro, o também fotógrafo Hoyningen-Huene, dois estrangeiros, teriam que deixar a cidade e toda a vida que construíram ali até então.

A confusão do fecho do corpete não era a toa. A moda é o pretexto. Não se sabia onde aquelas fitas terminariam. Não se poderia apertá-lo com firmeza, por medo de não conseguir escapar, respirar, ou mesmo despir-se para desapegar-se e abraçar um novo caminho, incerto, desconhecido, talvez feliz, mas agora apenas triste, muito triste, e frágil.

Sobre bellavalle

Fotógrafa, pesquisadora, professora da UFPB, mestre pela PUC/SP, doutoranda pela UFPE e amante da vida.
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Uma resposta para Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Horst P. Horst

  1. Marco Pimentel disse:

    de uma poesia potente tão grande…

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