Diário de Bordo – Paraty em Foco 2012 – 4

O sábado do Paraty em Foco foi um dia herege. Começou quente, com um solzão lindo (como todo sábado deveria ser) e com uma palestra performática de Marcos López. Depois da palestra me afastei um pouco da programação do festival por conta de trabalhos e também para aproveitar uma tarde mais turística ao lado do sol e do mar. Fui à Trindade, uma cidade próxima e conheci umas praias com as amigas fotógrafas Flora Pimentel e Mariana Guerra. Lá na praia também estavam outros grupos de fotógrafos fujões, inclusive. Como não consegui voltar à tempo, Paloma me passou algumas informações e fotos sobre a entrevista com Cristiano Mascaro, que aconteceu às 17h. À noite, retornei à programação e mostro em imagens algumas projeções e mais exposições, além do lançamento de livros do dia.

Praia do meio, em Trindade, no meu dia de fujona | Foto: Bella Valle

Acordei bem cedo para escrever aqui para o blog e corri para não perder a primeira entrevista do dia, logo de manhã, e uma das mais esperadas do festival. O próprio entrevistador, o fotógrafo e jornalista pernambucano Alexandre Belém, falou que desde que soube que López viria para o PEF, pensou em reservar sua cadeira no público do auditório, pois seria uma participação imperdível e inesquecível. Acaso do destino, ele acabou presente no palco mesmo, ao lado do fotógrafo argentino, que é um espetáculo em pessoa.

O roteiro de perguntas de Belém foi para o lixo. Impossível conduzir qualquer bate-papo com o hiperativo López. Por outro lado, foi a entrevista mais engraçada do festival. O público riu muito com as caras e bocas, gestos e falas do fotógrafo. E com muita coisa séria por trás de sua performance lúdica.

Após exibir um vídeo com um apanhado do seu trabalho, López então se pôs a falar sobre qualquer assunto, porém, nunca em vão. Começou cantando a canção Negue (interpretada por Maria Bethânia) e depois já foi falando do mercado de arte. “O mercado de arte é uma grande cilada em que se cai”, diz, puxando o assunto do consumismo e do alto valor das coisas. Segundo ele, o artista precisa de dinheiro para se manter, por outro lado, é um questionador do sistema. “É complicado”, diz.

Alexandre Belém entrevista Marcos López | Foto: Bella Valle

Marcos López lembrou várias vezes ao longo da entrevista o fato de que todo artista acaba transitando nessa contradição. O fotógrafo constata que arte, moda e publicidade possuem sistemas semelhantes. É cruel para ele ver seu filho lhe pedindo uma camisa oficial da seleção brasileira de futebol, patrocinada pela Nike e caríssima, enquanto sua estética, sua identidade poética, está no camelô, na camisa falsificada.

Marcos López | Foto: Bella Valle

Depois, López falou do seu vício em Facebook. Ele diz que nem mesmo bebe e nunca foi de dependências, mas que é viciado na rede social. Como qualquer pessoa normal, ele acorda cedo, leva os filhos na escola e vai dormir por volta das 22h. Porém, no meio da madrugada tem ataques e acorda para escrever no Facebook. “Minha esposa diz que sou maníaco”, conta. Para ele, o Facebook é bom porque não possui censura. Além de ser uma poderosa ferramenta de comunicação. Porém lhe causa crises de ansiedade.

Belém pergunta se, assim, o Facebook não funcionaria como uma espécie de terapia. López, então, se adentra em uma análise mais forte de sua fotografia. Ele diz que, no Facebook, escreve sobre a fragilidade da existência. Este, segundo ele, é o tema das suas fotos também. Atrás das cores, há o trágico. “É preciso dissimular o trágico para exorcizar nossas fragilidades”, diz. Ele ainda afirma que vive no fio da emoção. Que se comove muito, muitíssimo, mas não chora. Simplesmente não consegue chorar por fora, pois as lágrimas não lhe saem.

Marcos López | Foto: Bella Valle

Marcos López diz que suas fotografias são documentais, que tudo aquilo é verdade. defende que elas são documentos sócio-políticos de um país, de uma cultura, e que o artista é um ensaísta. Ele fala que é inspirado por Sebastião Salgado, Glauber Rocha, Andy Warhol, Diego Rivera e pelas letras de cumbia (sempre redundantes e repetitivas).

Por outro lado, ele também explica como dirige os retratados nas suas fotos, analisando foto a foto de algumas de suas produções. Ele tem muito respeito pelo fotografado, pois é como se a pessoa nos presenteasse com o mais íntimo do seu ser. Belém também interrogou o argentino sobre os símbolos recorrentes em suas imagens: tigre, sereia, mangueira, jogador de basquete, pato, etc. Ele afirma que ama patos, que são como uma carícia para a criança que temos dentro de nós. O fotógrafo mostra que há uma complexidade de discursos em cada imagem. López também diz que 70% da tristeza de suas fotos são seus e apenas 30% são realmente do fotografado. E admite que é inseguro com suas imagens, que se preocupa com o que a sua filha, por exemplo, vai pensar da sua fotografia e sente um certo medo de reprovação.

Alexandre Belém e Marcos López | Foto: Bella Valle

López declara que muitas vezes coloca a câmera em modo de filmagem e escolhe posteriormente um fotograma dali. Ele fala que isso é como se fosse a fotografia documental de Bresson. Uma simulação do instante decisivo, porque, na verdade, este instante não importa. Outra coisa interessante comentada por ele, assim como por Martin Paar, é a questão do humor. “O humor é uma forma de se proteger e de transitar pelo absurdo do poder, a insensatez, as desigualdades sociais. Vivemos isso, essa contradição do mundo”. Falando em poder, houve questionamentos sobre o governo argentino, mas López preferiu “no hablar de Cristina” e mudava de assunto de forma escorregadia, engraçada e incrivelmente inteligente.

Ao fim, ele diz que não quer ser mal agradecido com a fotografia, pois gosta do seu ofício e é com isso que ganha a vida, mas que não é apegado a técnicas e questões fotográficas. “Me encanta muito mais pintar e desenhar, me dá mais prazer”. E, concluindo a palestra, quando perguntaram algo sobre seu passado em Santa Fé, cidade onde nasceu, ele responde: “ninguém pode escapar do seu passado. É preciso encarar o passado. Que cada um resolva isso como puder”.

Cristiano Mascaro e Cassiano Elek Machado no telão da Tenda da Matriz| Foto: Paloma Marques

Bem, sobre a palestra de Mascaro, Paloma me disse que foi breve, por conta do horário de início do leilão. Mas que também foi cheia de discussões relevantes. Mascaro defende, por exemplo, que a ficção ajuda muito a fotografia e que a literatura é muito próxima à fotografia neste sentido, pois ambas relatam uma história. Esta idéia de encarar a ficção fotográfica como um importante tipo de documento foi bastante recorrente em todo o evento.

Continuando, Mascaro diz que São Paulo é uma das cidades que ele mais gosta de fotografar, mas que é também a mais difícil, porque é caótica e nunca se sabe o que vai encontrar. Esta instabilidade também está presente no próprio trabalho do fotógrafo, que diz que o grau de romantismo que ele coloca em suas fotos depende muito do humor do dia.

Outro assunto discutido por ele foi a mudança da câmera analógica para a câmera digital. Para o fotógrafo, o digital é mais difícil porque exige uma preocupação nova com o arquivo das fotos, a “coisa do backup” e de ter que salvar a imagem em várias mídias. Para ele, com o filme, bastava botar o negativo em um saquinho e pronto. Mas ele também defende que o digital tem suas vantagens, como programas como o Photoshop. Porém insiste que a preocupação com o arquivo e a conservação das fotos é horrível, além de mais passível a roubos, vírus, etc.

Mascaro prefere fotos em preto e branco, porque elas se distanciam mais da realidade. Ele não tem problemas com foto coloridas, mas acha que o preto e branco transmite mais emoção. Inclusive, o fotógrafo afirma que prefere fotografar lugares com paisagens mais monocromáticas. Tem muita vontade, por exemplo, de fotografar o Afeganistão, mas não foi lá ainda porque não tem interesse em fotografar conflito, apesar de achar a região muito bonita.

Dois fotógrafos foram elogiados por Mascaro durante a entrevista: Cássio Vasconcelos, porque “ele está sempre inovando, mas sem escorregar”. E Gilvan Barreto, pois lançou um livro (“Moscouzinho”) “simples, mas bonito, bom de se ver”.

Depois da palestra, houve o leilão, que eu não acompanhei, assim como a segunda palestra, sobre futebol (com Fernando e Eduardo Bueno entrevistados por Rubens Fernandes Junior). À noite, houve projeções na tenda e pelas ruas, além do lançamento de livros, que vocês conferem nas imagens a seguir.

Projeção noturna da Nitro + Alicate, nas margens do Rio Perequê-Açu | Foto: Bella Valle

Containers Foto Volante à noite | Foto: Bella Valle

Cubo de Rodrigo Rovira iluminado em frente à Matriz | Foto: Bella Valle

Cubo de Renan Cepeda iluminado | Foto: Bella Valle

Exposição “Buscadores”, de Calé | Foto: Bella Valle

Iatã Cannabrava e Nair Benedicto, no lançamento do livro dela “Vi Ver” | Foto: Bella Valle

Claudia Jaguaribe e seu lançamento “Entre Morros” | Foto: Bella Valle

Público assistindo às projeções na tenda da Praça da Matriz | Foto: Bella Valle

Projeção do documentário “Shoot Yourself”, de Paula Alzugaray e Ricardo Van Steen | Foto: Bella Valle

Projeção de “Ausländer”, da nossa Pri Buhr, no Portfólio em Foco | Foto: Bella Valle

Registro afetivo do dia: eu, Paloma Marques e Flora Pimentel, no projeto “Deixe Seu Retrato” | Foto: Bella Valle

Ps – Peço desculpas pela demora na postagem de hoje, mas tive dificuldades em acessar à internet e passei o dia viajando desde às 12h. Consegui publicar agora graças à wifi da infraero no aeroporto de Galeão.

Sobre bellavalle

Fotógrafa, pesquisadora, professora da UFPB, mestre pela PUC/SP, doutoranda pela UFPE e amante da vida.
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