Podia ficar olhando para sempre as crianças de Loretta Lux

The Waiting Girl, 2006 | Foto: Loretta Lux

Acho que não existe par mais perfeito para essa seção do 7 do que os retratos de crianças de Loretta Lux, imagens feitas para se olhar para sempre. Falo isso porque o tempo é, sem dúvida, um dos temas mais fortes no trabalho de Loretta, e é definitivamente uma presença nas suas imagens, quase tanto como alguém retratado.

Suspensas no tempo, como que retiradas de qualquer possibilidade de existência, as imagens de Loretta nos colocam em contato com o intocável, o tempo que não passa e que, sendo passado, presente ou futuro, é um só, o tempo de nós mesmos. São retratos que não se preocupam em retratar alguém, em falar daquelas pessoas, mas em nos conectar com um momento genérico, pessoas genéricas, possíveis de serem encontradas em cada um de nós.

No caso das crianças, a foto é como uma ponte para uma infância universalizada, aquela que acontece com praticamente todos nós, aquela que não está nos estereótipos, mas no sentimento de ser uma criança e ver o mundo num determinado contexto. A infância que é sempre a mesma, mas que nunca se repete.

Na foto acima, “A garota que espera” (numa tradução bem livre), uma garota e um gato sugam o nosso olhar, hipnotizando-nos. A garota, Dorothea, é filha de uma amiga de Loretta e já esteve presente nos seus retratos diversas vezes. É e não é. Porque nos retratos, Dorothea deixa de ser ela mesma e passa a ser uma menina, qualquer e por isso mesmo especial.

Uma vez li Loretta dizer: “Dorothea e o gato estão esperando pela eternidade”. Não sei, tenho a impressão de que Dorothea não parece esperar nada… ela parece ter tudo, saber de todas as coisas, e nos encara superior. Seu olhar é de quem apenas nos observa, as nossas esperas e as nossas tentativas.

Como se algo a mais do que o que nós vemos ainda pudesse vir, essas fotografias esperam, quase que eternamente, um novo recomeço, talvez um novo olhar para mudá-las, alguém que possa finalmente alcançá-las. E essa pessoa, esse olhar, provavelmente, chegará tarde demais, como o adulto, que passa a valorizar a infância que já perdeu.

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Sobre joanafpires

recife, 27, 60, 170, 35, 40
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2 respostas para Podia ficar olhando para sempre as crianças de Loretta Lux

  1. sempre tive vontade de escrever um “olhando pra sempre” com as crianças de Loretta.. esses retratos mexem de uma forma comigo que nem sei explicar. desestabiliza. tira tudo do lugar. sinto uma agonia parecida com aqueles sonhos em que o espaço ta fora do lugar. é estranho. o eterno, a espera, o silêncio, tudo misturado, tudo pedindo que a gente simplesmente olhe, olhe pra sempre.

    texto lindo Jô..

  2. joanafpires disse:

    engraçado, pri, que fiquei bem insatisfeita com esse texto. acho que porque a foto me tira tanto do lugar, seilá, como uma pausa de existência msm, que não consegui dizer isso direito. mas é realmente como se a foto misturasse tudo – eterno, espera, silêncio, tudo numa coisa que a gente não dá nem nome, alguma coisa intocável.

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