Plataforma – O mundo fantástico do Sr. Rodney Smith

Foto: Rodney Smith

“Rodney Smith é um homem modesto. Com sensibilidades ecléticas. Ele pode usar um echarpe sem parecer pretensioso”, é o que diz a biografia do fotógrafo Rodney Smith em seu site pessoal. Confesso que não consigo agora pensar em nada mais pretensioso do que afirmar uma coisa dessas, mas, rindo, concluo que tudo se encaixa perfeitamente no universo de uma fotografia como a de Rodney.

Fotógrafo há mais de 40 anos, não foi à toa que, tendo sido exposto à fotografia em duas situações especiais de sua infância, Rodney decidiu percorrer o caminho das imagens. A primeira aconteceu por alguns anos, sempre que seus pais viajavam e o deixavam sob os cuidados de um conhecido casal alemão. Durante sua estadia, Rodney assistia a rotina daquele homem maduro, alemão, que revelava filmes sorrateiramente num pequeno banheiro de sua casa, um hábito, como se barbear. O contato com as fotografias sendo ampliadas, a imagem surgindo no banho químico, influenciou toda a produção posterior de Rodney e, até hoje, ele só fotografa com filme.

Foto: Rodney Smith

A segunda ocasião aconteceu quando ele ainda era um jovem estudante e, diante de fotos de Dorothea Lange, Gene Smith e Minor White, a única coisa que conseguiu pensar foi “eu posso fazer isso”. Pois é. Ainda mais pretensioso que o echarpe. Mas acho que é essa pretensão que funciona como um motor para que Rodney Smith busque diariamente uma espécie contínua de superação fantástica.

Inspirado pelos clássicos, ele se recusa o máximo que pode a usar efeitos especiais. Valoriza o preto e branco e explora tudo o que a fotografia pode lhe oferecer. E da simplicidade, constrói um mundo de fantasia, cujas belezas eu só vi serem criadas de forma semelhante pelos pintores surrealistas.

Não é à toa que Magritte pode ser reconhecido em muitas de suas imagens, com seu realismo mágico. Os homens com seus chapeus-coco, certo anonimato em seus personagens, acontecimentos estranhos e a criação de um jogo curioso entre a realidade e a ilusão estão presentes na fotografia de Smith quase que saltados das pinturas de Magritte. Os relógios também são recorrentes nessas imagens e nos fazem lembrar da referência constante ao tempo derretido que Dali, outro surrealista, trazia em sua obra.

Foto: Rodney Smith

Mas o estilo caprichoso de Rodney não está presente exclusivamente em museus e exposições, e o fotógrafo é responsável por muitas campanhas publicitárias e vários editoriais de moda do New York Times, GQ, American Express e B.M.W. Com um olhar simples e autêntico no mundo da moda, suas imagens, onde quer que se apresentem, mantém a peculiaridade de contar histórias incríveis, sempre com uma certa delicadeza e elegância. É como se se tratassem de cenas protagonizadas por Fred Astaire e Audrey Hepburn – saídos do filme Funny Face.

Uma coisa que li em uma de suas entrevistas me causou uma depressão profunda. Arrojado nas ideias, mas conservador nas composições, Smith acredita que “a composição na fotografia é muito similar ao ritmo na música. Se você tem um bom ritmo, você tem um bom senso de composição”. A depressão me vem porque não tenho senso de ritmo algum e na verdade, acho a música tarefa dos que nasceram para ela. E essa afirmação me soa como um depressivo atestado de que “fotografia, assim como música, não é para todo mundo que goste de fotografia”. De fato, essa afirmação talvez se encaixe perfeitamente na compreensão que o próprio fotógrafo faz da composição como um conceito a ser seguido, valorizado.

Foto: Rodney Smith

Na contramão, uma das coisas que li sobre esse trabalho e me fizeram feliz foi o fato de que Smith não tem uma ideia preconcebida ou predestinada do que vai fotografar. “A locação é a chave da minha composição. Uma vez que acho a locação, todo o resto meio que cai perfeitamente no lugar. É a locação que movimenta todas as imagens”. Porque é intrigante e instigante ver fotos tão minuciosamente criadas serem também submetidas à beleza da espontaneidade e do imprevisível. Sempre me pego questionando as circunstâncias variadas do surgimento das imagens e como elas se colocam no processo de criação – se superiores a ele, pré-concebidas, ou se submetidas a ele, fluídas e contornáveis.

No site pessoal de Rodney Smith é possível ter acesso a uma boa série de suas imagens, bem como ao blog do seu mais recente livro lançado “The End Starts Here”. Para saber um pouco mais sobre o seu trabalho, vale ler a entrevista no site My Modern Met.

Foto: Rodney Smith

Foto: Rodney Smith

Foto: Rodney Smith

Foto: Rodney Smith

Foto: Rodney Smith

Anúncios

Sobre joanafpires

recife, 27, 60, 170, 35, 40
Esse post foi publicado em Plataforma e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Plataforma – O mundo fantástico do Sr. Rodney Smith

  1. Chico disse:

    não conhecia e gostei do trampo do cara. não sei bem ao certo porque, mas sempre curti “universos paralelos” habitados por personagens de terno, gravata, bengada, chapéu,… gosto da interferência estética, simbólica, personagens vestidos jeito desses significam tantas coisas, né? é por isso que gosto, entre outras razões, de MIB – homens de preto, da trilogia matrix e de video clipes como esse aqui, do Tool: http://www.youtube.com/watch?v=_z2O289Jemo =)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s