2 respostas para Diálogo 67 – Nem mil imagens

  1. Antonio Scorza disse:

    Bom dia! E longa vida ao SETE!!!! Enfrento(ei) essa sensação de não satisfação sempre que cubro a Amazonia, grandes desastres ou a guerra- seja no Iraq ou urbana-. Talvez por que nosso objetivo maior, ao retratar uma situação, seja nesses casos de ser um agente transformador dessa realidade. E, ao não conseguir muda- la imediatamente (parar a transposição, impedir o corte da floresta, terminar a guerra, propiciar justiçã social imediata…) com uma foto ou texto ou qualquer representação, nos sentimos frustados. Será a “realidade” muito grande para as lentes? Ou a sociedade é quem não reage adequada e imediatamente aos fatos denunciados? Sigo acreditando que nosso trabalho é o de aportar “um grão de areia”. Em algum momento, esses grãos serão uma duna em movimento, que “forçará” mudanças na “realidade”. Em cada cobertura sempre haverá UMA e so UMA foto chave que fechará/ simbolizará todo o “real” daquela situação naquele unico centesimo de segundo. Poderá ser um detalhe ou uma vista geral, mas haverá. Até por que esse “real” é diferente para diferentes pessoas e muda a cada segundo. As vezes, a foto de um detalhe, que no momento “quente” da cobertura faz a capa, ganha premios etc, perderá importancia ao longo do tempo por que a “realidade” já não carrega as informações cognitivas que permitem decodificar aquela imagem. Nesse momento, uma vista geral, passara a ser a “foto chave” do registro daquele fato, ou seja, a importancia do documental, auto explicativo. Mas esperar que apenas essa UMA, seja capaz de sozinha mudar a realidade imediatamente… Ela trará mudanças sim, mas ao longo do tempo.

  2. Chico disse:

    esse lance da fotografia como registro do real é um dos dogmas fotográficos mais antigos e difíceis de quebrar. por isso acho esse texto superpertinente: ele sugere aos desavisados e reaviva a mente do esquecidos sobre essa importante reflexão.

    como experiência também posso citar a enchente em palmares. lembro bem do cheio pútrido na entrada da cidade… eram animais mortos? pessoas? aquilo me deixou com calafrios. lembro dos escorregões que eu dei em meio ao mar de lama, do meu total constrangimento em abrir um pacote de biscoito diante de tanta gente pedindo comida, além do medo de doar pra alguém e provocar alguma confusão com os demais, da minha dificuldade em jantar à noite, depois que cheguei em casa. nada disso saiu nas fotos que fiz, seja por falta de sensibilidade ou de condição psicológica mesmo. eu saí da cidade muito abalado.

    desde essa ocasião eu passei a valorizar mais a experiência ao invés da documentação. entendi de vez que a angústia ou a urgência em fazer um registro “completo” é totalmente inútil, pois esse registro nunca virá; que parar por um momento e se deixar contaminar pela atmosfera que nos envolve é fundamental pro amadurecimento da percepção – e não apenas do olhar, como já foi debatido em diálogos anteriores.

    seria tão bom se as pessoas parassem de ver a fotografia não como a experiência em si, como o fim do processo, mas como um convite à realidade, uma ponte que leva até ela. seria bom que as pessoas sentissem vontade de conhecer algo a partir do que viram e não apenas se contentar com um enquadramento. eu acredito que um dia isso será amplamente compreendido.

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