Podia ficar olhando pra sempre o pensamento mudo de Lygia Clark


“Me sinto sem categoria, onde meu lugar no mundo? Tomo horror a ser catalizadora de minhas proposições. Quero que as pessoas as vivam e introjetem o seu próprio mito independente de mim.”

Lygia Clark

 

Esta é uma foto do trabalho Máscaras Abismo, mas poderia ser qualquer outra da obra de Lygia Clark.

Suas fotos me remetem a experiência de mergulhar em um de seus trabalhos, o que para mim é o mesmo que ficar olhando pra sempre uma fotografia. Como se ao olhar para sempre sua foto eu revivesse a experiência estética duplamente, inaugurando novos mundos, despertando novas sensações, novas geografias corporais, novas formas de ser.

Olhar uma foto de Lygia Clark vivenciando sua própria obra, é como se eu olhasse para a vida, para liberdade que a gente é capaz de inventar diante desse absurdo que é viver, ou como nos diria Faulkner, resumindo o sentido da obra de Albert Camus, “o único papel verdadeiro do homem, nascido num mundo absurdo, é ter consciência da sua vida, da sua revolta, da sua liberdade.”

Lygia foi uma visionária, para a artista a obra de arte exigia uma participação imediata do espectador, que deveria ser jogado dentro dela para sentir todas as possibilidades sugeridas pelo trabalho, experimentando uma intensificação de suas próprias forças que por si mesmas desabrochavam. É a experiência estética em continuidade com a vida, é a obra de arte fazendo-se vida.

E é assim que acredito na fotografia, como obra que nos intensifica, nos transforma.

O trabalho Máscaras Abismo faz parte da fase sensorial do trabalho de Lygia, de encontrar o próprio corpo através de sensações táteis realizadas em objetos exteriores a si, nesse caso, uma rede de nylon e um saco plástico cheio de ar. Segundo a própria artista essa sensorialidade é o homem assegurando o seu próprio erotismo, tornando-se objeto de sua própria sensação.

“Pela primeira vez descobri uma realidade nova não em mim, mas no mundo. Reencontrei um Caminhando, um itinerário interior fora de mim. Antes, o Bicho emergia em mim, jorrava em uma explosão obsessiva – por todos os sentidos. Agora, pela primeira vez, com Caminhando,  dá-se o contrário. Eu percebo a totalidade do mundo como um ritmo único, global, que se estende de Mozart aos gestos de futebol na praia.”

Assim como ficar olhando pra sempre uma fotografia.

Para conhecer um pouco mais do seu trabalho, visitem o site  O mundo de Lygia Clark.

*Pensamento mudo, Caminhando e Bicho são obras de Lygia Clark. Os textos citados fazem parte do livro Lygia Clark, publicado pela Funarte em 1980.

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