Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Nário Barbosa

Nario Barbosa

Nario Barbosa

Por Luciana Cavalcanti

A palavra clichê tem em seu sentido uma má fama. Repetição, previsível, lugar-comum, chavão. Ela é tida como banal, muito vista, cansada de guerra duplamente, pelo seu uso e pelo seu significado. Na fotografia esse tal nome com som francês remete sempre a uma imagem que já se fez e já se viu diversas e infindáveis vezes, como é bem sabido.

E quando o clichê deixa de ser clichê?? Pois é isso que senti ao ver a poética e bela foto do talentoso Nário Barbosa, fotógrafo do Jornal Diário do Grande ABC. Nário começou a trabalhar na fotografia quando tinha 15 anos neste próprio Diário. Filho de dona de casa e de cobrador de ônibus, nasceu na cidade de Cedro de São João, em Sergipe, mas veio para São Paulo pequeno, com 5 anos de idade.

Quando eu trabalhava no Jornal Folha de São Paulo sempre encontrava com Nário nas pautas. Calmo, concentrado e muito companheiro de trabalho, era extremamente educado, mas não menos firme e obstinado no que fazia. Ensinava timidamente muito a quem chegasse. E acima de tudo: sabia o que queria com suas fotos.

Cair do cavalo é muito bom e pude me ver e rir da situação de vislumbrar o clichê, mas não considerá-lo como tal!!! O que seria um clichê na fotografia? Alguém diria que esta fotografia que faz o deslumbre de um momento, irreal fantástico e mítico poderia assumir o pejorativo adjetivo de clichê? NUNCA!!

E nesta imagem vejo Nario refletido: com sua calma, discrição, mas força e movimento absolutos. Esta imagem foi feita da janela do hotel onde ficou hospedado em Manaus. Foi lá fazer uma pauta fotografando carros para o jornal onde trabalha. Viu esta cena e prontamente clicou.

E perpetuou uma imagem sempre vista como lugar-comum numa beleza, delicadeza sem fim. Com este azul de fim de tarde e este vulto que desaparece, mas ao mesmo tempo cria um círculo com ele mesmo visto na água como espelho. E ao fundo este vulcão de nuvens que parece emergir das águas!!!

Eu poderia ficar olhando pra sempre esta imagem. Com vontade de tomar banho no rio do mesmo jeito, participando daquela paisagem azul do mesmo jeito, sentindo o vento no rosto do mesmo jeito, sem ter minha identidade revelada do mesmo jeito e principalmente não sendo do mesmo jeito. O jeito é diferente. Muita falta de ar junta!! Vê-se um afeto imenso, um amor pela imagem e pela fotografia em si. Nário transmite sua alegria, afeto e generosidade em sua fotografia.

Como uma fotografia pode sossegar angústias? Pois esta foi quase terapêutica, imensa dentro de mim e dos olhos. Uma imagem que nasce e morre neste círculo que parece nao ter começo e fim e que confunde. Quem é o objeto fotografado? É uma piscina dentro de um rio, é um menino que vôa, flutua sobre um rio, sobre um mar? Ou é um rio/ mar por inteiro e um menino boiando na água?? Esta inquietude e dúvida nos tiram do que poderia ser chamado de previsível… E pricipalmente, esta doçura, brincadeira de criança vivenciada ali, naquele ato, mas não pelo pulo, mas pelo círculo, pelo borrão que o corpo do menino causa ou é causado.

Pois foi muito bom perceber o quanto é pequeno este conceito de clichê e o quanto ele não deveria existir em fotografia, pelo menos. Obrigada Nario, por refrescar minha alma com esta imagem e por me tirar do preconceito do que seria uma fotografia lugar-comum.

Vale salientar que Nário tem desenvolvido um maravilhoso trabalho em que “costura nas fotos” sua memória afetiva familiar. Visite “Atrás das Cortinas” e sinta a colcha de retalhos que é este belo trabalho. http://www.flickr.com/photos/nariobarbosa/

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Luciana Cavalcanti é fotógrafa, integrante do Coletivo Paralaxis e autora do blog Fotograficaminhamente.

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