Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Wolfgang Tillmans

Wolfgang Tillmans, "Ostgut freischwimmer"

Wolfgang Tillmans, “Ostgut freischwimmer”

A bíblia nos diz que “no princípio era o Verbo” (Jo, 1:1). Assim, em maiúscula mesmo, pois, continuando a citação, o Verbo era Deus – que se fez carne e habitou entre nós. Às vezes, mesmo sem querer, lembro desta citação ao pensar na fotografia. Nós como criadores e as imagens como criaturas (segundo o mesmo livro, somos imagem e semelhança de Deus). No princípio, era o verbo, que se fez imagem e habitou entre nós (por nós e para nós, em nossa semelhança).

Toda fotografia em seu paradigma se origina de uma palavra, ou seja, ela atua alguma coisa. Toda fotografia é um verbo encarnado, um texto vivo em imagem, em semelhança a algo que se pode dizer. Ela aponta às coisas que as palavras nomeiam.  E as palavras (e as imagens) são o que somos. E é esse o papel mais forte e presente da fotografia em nossa sociedade.

Flusser, em Filosofia da Caixa Preta, defende que as fotografias são imagens técnicas e, por isso, abstrações em terceiro grau, porque tem sua origem mediada por textos, por conceitos.

O que eu tento dizer aqui, ao introduzir uma justificativa para explicar porque eu ficaria olhando pra sempre esta fotografia de Wolfgang Tillmans, talvez toque o que Flusser (filósofo que tanto me influencia) disse. Mas tentarei seguir um caminho menos acadêmico, porque a seção aqui pede.

Um retrato em 3x4cm para documento é a encarnação do que o retratado é, em imagem, como texto: descreva-me ou fotografe-me. Uma fotografia de guerra é a semelhança, em texto encarnado, do que é a guerra – e suas linhas de força políticas, ideológicas, estéticas e tudo mais. E muitas fotografias de arte são o referente de um conceito que se quer discutir, mesmo não sendo tão “realistas” assim.

Ao olhar uma imagem, rapidamente ultrapassamos o nível de experiência estética primeira para adentrarmos em um nível de identificação e reflexão, de compreensão, de palavras. “Mas o que será esta mancha? Será uma cadeira? Porque a cadeira voa?”. Tentamos, ao máximo, buscar figuras que nos falem visualmente das coisas do mundo das palavras. “Azul, claro, é azul. O que isso significa? Será um céu? Será um mar? Será tristeza?”. Quanto mais abstrata a fotografia, mais ela nos pede para buscar incessantemente identificações. Nos pede para lê-la, desvendá-la.

E como ler uma imagem como esta de Wolfgang Tillmans? Eis que o fotógrafo faz uma fotografia sem figuras, para liberar nossa imaginação, não para buscar descobrir o que se trata, mas para nos conformar de que, simplesmente, é uma foto de nada.

Vi esta imagem pela primeira vez em uma exposição do Tillmans, no Museu de Arte Moderna (MAM), em São Paulo. Entre milhares de fotos de coisas muito bem identificáveis – verbos encarnados, como objetos, pessoas e lugares –, havia uma sala com algumas imagens enormes, verdadeiros murais nas paredes do museu. Eram fotografias desta série chamada “Ostgut freischwimmer”. E eu, como qualquer mortal, me pus a pensar: “Wow! Que diabos é isso que ele fotografou? Serão cílios?… Não… Serão desenhos?… Será algo dentro d’água?…”. E quanto mais eu me perguntava, mais eu me aproximava da imagem, tentando examiná-la em seus detalhes, para compreender do que se tratava. Em vão. Eu não conseguia desvendar aquilo.

Mas aquilo era de uma beleza, de uma experiência, de um mergulho incrível. Quando parei de tentar desmascarar o referente fotográfico, pude, enfim, viver aquelas imagens. Que imagens! Eu quis chorar, e não tinha palavras nem para falar do que se trataria a foto, muito menos para tentar entender o porquê de eu me emocionar tanto. Ela mexeu comigo, mexeu muito, e na angústia de não me permitir entender o motivo. Não há palavras, sinto muito, diante desta fotografia. Tudo o que escrevo aqui é apenas uma tentativa de contextualizar uma sensação indescritível. Eu apenas a olharia pra sempre, pois ela me dá uma “chuva de perceptos” (como diria minha cara Santaella) que me afeta os sentidos e o espírito. É estética acima de tudo.

Eu saberia explicar ou dar palpites sobre porque a foto do meu aniversário de 1 ano mexe comigo, ou porque a foto de Cartier-Bresson me impressiona, ou porque uma fotografia histórica jornalística me comove. Mas é impossível, para mim, em minhas palavras, explicar porque a série Freischwimmer me sacudiu.

Depois, descobri que são imagens artesanais, feitas diretamente em uma superfície fotossensível enorme, sem câmera, a partir de uma brincadeira com fibra ótica. Xô, palavras. Ou, talvez, algumas sílabas apenas, para os que ainda a mendigavam. Para mim, jamais serão “fotos de fibras óticas”, mas sempre uma experiência estética sem figurações. Talvez o que elas queiram dizer (já que tudo fala, no fim das contas) é exatamente isso. Talvez sua meta é a reflexão sobre essa ânsia que temos em dar nome às coisas que vemos nas fotografias.

Wolfgang Tillmans me mostrou uma fotografia degenerada, liberta em grande medida, feita à semelhança de nada, sendo ela mesma mais do que uma imagem, uma encarnação, um verbo, mas um ser com vida própria, vivo mesmo, emocionante, sem nem um Deus, ou sendo Deus de si mesmo.

Anúncios

Sobre bellavalle

Fotógrafa, pesquisadora, professora da UFPB, mestre pela PUC/SP, doutoranda pela UFPE e amante da vida.
Esse post foi publicado em Olhando pra sempre e marcado , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s