Ninguém pode ficar olhando pra sempre o amor

Escrever um Olhando Pra Sempre, é preciso confessar, é uma coisa de estado de espírito. Às vezes, você tem a melhor das ideias, aquela ideia simples, contextualizada, daquelas que fazem você pensar: “vou falar disso porque é uma boa ideia para a semana, é uma boa síntese, se encaixa”. Mas escrever Olhando Pra Sempre não tem nada a ver com o que é oportuno, com o que deve ser feito; tem a ver com o que você pode fazer, o que você pode sentir. Tem a ver com carne e respiração. É das postagens do 7 que mais exigem de mim, não intelectualmente, mas emocionalmente mesmo, “serumanamente”. E aí tinha um texto quase pronto sobre o World Press Photo que travou um pouco porque eu vi uma outra foto que entra no meu World Press Photo pessoal.

Foto: larissa r.

Foto: Larissa Pinho Alves

Já esbocei, uma vez, um texto sobre o que uma imagem como essa é capaz de me provocar, mas é coisa para se pensar de novo. Para se trazer para o juízo novamente. Esse texto falava do instante.

Porque o instante nos escapa. O presente está sempre perdido.

Heiddeger sugeriu que o instante é um momento sentido tão plenamente que não pode conter nenhuma outra sensação. A gente só é capaz de reconhecê-lo quando o compara ao que nos acontece antes e ao que nos acontece depois. Dois conceitos estão interligados nessa noção de momentâneo: o de sensação e cognição. A sensação é o que sentimos no momento do instante, a cognição é o que só se reconhece depois que o momento passou. Adoro essa rebeldia do instante, que nunca será apreendido, fixado. Ele nos ensina a viver, mas se perde quando reconhecemos o aprendizado, quando entendemos a mensagem.

Antônio Prata, num texto incrível publicado na Ilustrada, da Folha, disse que “toda memória é um luto pelo que vamos deixando para trás”. Ele falava dos amores que se acabam e da memória que mantém o que precisa ficar e ao mesmo tempo apaga o que acha conveniente esquecer.

E aí me lembro dessa fotografia de Larissa Pinho Alves – fotógrafa previamente citada aqui no blog em um Flickrweek meu – e de tantas outras imagens que vi, que produzi e das quais participei. Lembrei dos instagrams dos amores dos amigos. A fotografia do amor é uma tentativa de apreender esse instante que escapa. O amor em si é um instante que vivemos geralmente intensamente, já pensando no momento dele se perder. E quando se olha para a foto é possível sentir aquela sensação fina, quase uma pequena pontada que é como uma raspagem de um momento. A sensação não se tem de volta – jamais. Mas o dar-se conta do que se sentiu pode ser retomado, logo após o momento passar, ou tempos depois. Olho uma foto antiga e dou-me conta de que o que vivi foi bom, foi forte, foi bonito. Mas não vem novamente.

Essa foto linda de larissa me diz isso. E me fala de todos os amores, de todos os beijos passados, de todas as bocas úmidas que encontram as peles macias de outros, e desse toque que nunca pode ser repetido. No texto de Antônio Prata, ele fala do encontro de dois ex-namorados para um almoço convencional e na superfície. Ele fala que “há uma vontade genuína de se aproximar e o tácito reconhecimento dessa impossibilidade”. Porque tocar aquele instante que uniu os dois num determinado momento passa a ser, agora, reconhecidamente impossível.

“Dois velhos amigos, quando se reveem, voltam no ato para o território comum de sua amizade. Reconstroem o pátio da escola, o Centro Acadêmico, o prédio em que moraram –e o adentram. Em três chopes, refez-se o antigo elo. Para os ex-amantes, no entanto, é impossível restabelecer o elo, o elo morreu com o amor, era o amor. O que sobra é feito um cômodo dentro da gente, cheio de móveis e objetos valiosos, porém trancado. Nesses almoços, estamos sempre no corredor, olhando para a porta fechada. Sentimos saudades do que está ali dentro, mas não podemos nem queremos entrar”, diz Antônio, num trecho valioso. E o quarto ali é como a fotografia aqui na nossa mão. Estamos diante dela, olhamos para ela, sentimos saudade mas não podemos nem queremos entrar nela novamente. Não é seguro.

Pater disse que “a arte é valiosa pela propriedade de nos afetar com uma impressão especial e única de prazer”. A fotografia faz isso. O instante também. O instante, que é como o amor…

Sobre joanafpires

recife, 27, 60, 170, 35, 40
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2 respostas para Ninguém pode ficar olhando pra sempre o amor

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