7Aniversário: Podia ficar olhando pra sempre esta foto de João Castilho

Vez ou outra a gente precisa passar por uma espécie de revisão nesse coletivo. Seja para participar de algum trabalho para o qual fomos convidadas, seja para dar conta de algum projeto nosso, ou para lidar melhor com alguma questão que surge nas nossas conversas, no nosso convívio. Fazemos isso constantemente, mas o texto que escrevemos para o Dobras Visuais foi realmente um marco quase terapêutico no grupo. Sentar, pensar a fotografia de forma individual, trazer essa fotografia individual para nossa convivência coletiva, construir uma fala coletiva que tocasse esses temas foi um processo que durou meses, várias reuniões, muito bate-papo e alguns aperreios.

No final, a minha sensação era quase de descascamento levemente dolorido a céu aberto. Sabe? Que nem aquela sensação de ralar o joelho no cimento e sentir uma dorzinha ardida quando bate um sopro de vento. Pensar essas questões traz essa irritabilidade à pele e acho que é por isso que tanta gente prefere viver na superfície. Pensar muito incomoda.

O meu incômodo de pensar nas fotografias que mudaram o meu caminho tem mais a ver com remeximento do meu passado do que com um aprofundamento de alguma questão maior sobre a fotografia em si. Porque jamais vou conseguir (nem quero!) desassociar a fotografia da minha vida pessoal – seja a fotografia que eu produzo ou a fotografia que eu acompanho.

João Castilho, da série Redemunho, 2006

João Castilho, da série Redemunho, 2006

Na minha postagem do 7Aniversário, a fotografia que eu podia ficar olhando pra sempre é essa imagem de João Castilho, uma imagem que, definitivamente, moveu o meu caminho. Na época em que vi essa foto pela primeira vez, eu estava em trânsito – mas isso eu só percebi alguns anos depois quando me senti finalmente chegando a algum lugar.

Foi no ano de 2008, e eu sei o dia exato, porque postei a imagem num de meus blogs antigos. Era 27 de agosto daquele ano e no comentário que escrevi sobre a imagem uma simples pergunta: o que é essa fotografia?

Tinha visto alguma reportagem sobre o trabalho de João Castilho, acho que algum texto no Olhavê, de Belém, e aí, pesquisando mais, acabei chegando ao ensaio Redemunho, que, na minha vida, soube fazer juz ao nome que tem.

Quando vi o trabalho, senti o impulso de mandar um email para João, para contar do meu alumbramento. Nunca tinha feito isso e até hoje não é atitude comum, mas  o movimento que aquela fotografia me causou fez com que fosse necessário dizer algo, nem que seja um agradecimento ou um “essa fotografia me emocionou”.

O nome do ensaio vem do livro “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa – mais tarde me contaria o próprio João Castilho, numa entrevista que concedeu para o meu trabalho de conclusão do curso de jornalismo. Num trecho do texto, Riobaldo, o personagem-narrador, galopando pela paisagem sertaneja, vê seu cavalo hesitar diante de um redemoinho de vento:

“E o que era que estava assombrando o animal, era uma folha seca esvoaçada, que sobre se viu quase nos olhos e nas orêlhas dele. Do vento. Do vento que  vinha, rodopiado. Redemoinho: o senhor sabe – a briga de ventos. O quando um esbarra com o outro, e se enrolam, o dôido espetáculo. A poeira subia, a dar que dava escuro, no alto, o ponto às voltas, folharada, e ramarêdo quebrado, no estalar de pios assovios, se torcendo turvo, esgarabulhando. Senti meu cavalo como meu corpo. Aquilo passou, embora, o ró-ró. A gente dava graças a Deus. Mas Diadorim e o Caçanje se estavam lá adiante, por me esperar chegar. – “Redemunho!” – o Caçanje falou, esconjurando. – “Vento que enviesa, que vinga da banda do mar…” – Diadorim disse. Mas o Caçanje não entendia que fosse: redemunho era d’Ele – do diabo. O demônio se vertia ali, dentro viajava. Estive dando risada. O demo! Digo ao senhor. Na hora, não ri? Pensei. O que pensei: o diabo, na rua, no meio do redemunho… Acho o mais terrível da minha vida, ditado nessas palavras, que o senhor não deve nunca de renovar. Mas, me escute. A gente vamos chegar lá. E até o Caçanje e o Diadorim se riram também. Aí, tocamos.” (p.262)

Guimarães fala na crença sertaneja de que o redemunho carrega uma coisa dentro dele – coisa ruim, porque pra desajustar o caminho de alguém desse jeito, pensam logo que tem a ver com feitura do diabo. E fico refletindo sobre essa associação tão constante do caminho divino com um percurso de retidão, de estabilidade, de calmaria e de graça. Fico eu pensando que nada disso se aplica ao caminho da arte. Porque a vida de todo artista é um sofrer desconjuntado, se equilibrar num fio que nunca para de bambear.

A fotografia de João me desterritorializou bem desse jeito. Ou simplesmente desnudou a falta de território que meu corpo presenciava. Doismileoito foi um ano emblemático e, em todas as esferas, intensamente vivido. E hoje, 5 anos depois, posso finalmente reconhecer aquele momento e me enxergar ali, no entretempo de uma sala vermelha, vivendo um silêncio ensurdecedor, sem distinção de quem eu era, sem nenhuma pista de caminho. Estar nessa fotografia de João é como estar num território fantástico, um universo paralelo criado com a matéria-prima da nossa própria identidade. E a matéria da minha identidade naquele momento tinha gosto de sangue, de quem tenta arrancar à faca o que lhe incomoda.

Hoje percebo o que o Redemunho de João me fez sentir. Os cortes que fiz em mim naquele tempo não encontraram nada – porque a gente pode até rasgar o corpo, mas não dá pra se desfazer dos órgãos, do que flui dentro si. Mas as cicatrizes refizeram minha forma de me colocar, minha aparência. Num percurso de mudança que percorreu o caminho inverso e veio de fora pra dentro.

Cincoanosdepois, vejo a um só golpe de vista, aquele momento como o início de um renascimento meu. Como mulher, adulta, feminista, fotógrafa, e libertada pela arte. A fotografia de João me apontou um caminho de compreensão de que era a arte – aquela que a gente faz no dia a dia, nos textos pequenos, nas fotos diárias; não necessariamente aquela dos prêmios, das exposições, das galerias – o espaço de questionamento de nós mesmos, o espaço de escorrimento desse sangue que acumula. E que não importa se a arte é boa ou ruim, mas necessária. E se ela algum dia será um caminho divino, de retidão e de graça, eu não sei. O que eu sei é que foi a arte que me salvou. E não há agradecimento para isso.

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Sobre joanafpires

recife, 27, 60, 170, 35, 40
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9 respostas para 7Aniversário: Podia ficar olhando pra sempre esta foto de João Castilho

  1. Viviane disse:

    Joana, seus textos, seus cortes, meu cortes.

  2. Tia Ceca disse:

    Vcs tão impossíveis! Mas, deixa eu ser tia um pouco, corrige ali: né g
    gracialiano nao, mas Riobaldo ou Guimarães. Tanto faz.

  3. Joana!
    Muito bacana seu texto!!!

  4. Moracy Oliveira disse:

    Belo, e visceral texto.

  5. Tete Silva disse:

    Meninas, vocês não param de me emocionar.

  6. Tá bonito de ver o desdobramento do Desempacontando de vcs! Lá no Dobras o post é um sucesso, montes de comentários para as madames 😉
    Bjs

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