7Aniversário: Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Alexandre Sequeira

A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio. Falava que os vazios são maiores e até infinitos.” Manoel de Barros

 Adriane, Nazaré de Mocajuba | Alexandre Sequeira

Adriane, Nazaré de Mocajuba | Alexandre Sequeira

Esses dias conversando com minha mãe, ela me disse que tinha vontade de escrever sobre mim e meus irmãos. Na verdade, ela me falou que tinha vontade de escrever sobre a vida, sobre os sentimentos que vibram sempre que ela percebe, com um olhar quase externo, a vida da gente acontecendo e de como isso tudo é bonito, para ela, mãe, mulher, que criou, botou no mundo e agora observa os nossos passos já firmes, nosso brilho já próprio. Ela falava também que não conseguia escrever porque qualquer palavra iria parecer pequena, insignificante diante da beleza que vem dessa percepção. Na hora, eu até brinquei, disse pra ela escrever de qualquer jeito, nem que fosse com frases soltas, só pra botar pra fora e, mesmo que parecesse bobo, seriam palavras verdadeiras. Ela só me respondeu: às vezes bate até uma tristeza, escrever na doida ficaria ridículo, porque nem chega aos pés das coisas que sinto.

Minha mãe sem querer me fez lembrar de um caderninho que sempre me acompanhava no ano de 2010. Nele, escrevia sensações, palavras aleatórias, que vinham como um sopro, ao longo do dia. Também escrevia sobre o que via, sobre fotografias que eu estava fazendo e sobretudo sobre fotografias que me remexiam e me reviravam pelo avesso. O ano de 2010 foi bem especial nesse sentido. E no caderninho, de capa azul, e folhas enrugadas da água da chuva, escrevi muito sobre as coisas que vivi em Porto Alegre, no FestFoto PoA daquele fatídico ano. E foi lá, nos grandes e frios salões do Instituto HSBC, que me encontrei com Adriane, ali, guardada em um mosquiteiro, ali, silenciosa, ali, viva. Adriane estava junto com seus vizinhos de Nazaré de Mocajuba. Todos dançavam, delicadamente, ao som da pouca brisa do ar condicionado gelado que ali existia. Em Porto Alegre, Alexandre Sequeira me apresentou Adriane, Branca, Álvaro, Dona Benedita, Dona Alice, Lucas, Seu Suzano, Seu Puã, Dona Francisca e Seu Carmelino. Mais do que pessoas, Sequeira me apresentou a sensação de querer olhar pra sempre uma fotografia. Adriane me fez perder a voz e ouvir o silêncio do vazio gritante que me preenchia naquele momento. No caderninho surrado só encontrei a seguinte frase sobre o trabalho de Sequeira: falta de ar.

Agora, três anos depois, me vejo em busca de palavras, assim como a minha mãe, para descrever aquela falta de ar que ainda me atinge, que ainda me preenche de vazios a cada vez que a vejo. Adriane me revelou uma Priscilla que eu não conhecia. Uma Priscilla que de alguma forma, vivia em um tecido, frágil, guardada e protegida de si mesma em um mosqueteiro. Eu via e era vista. Mas não completamente. Não verdadeiramente. Adriane incitou em mim um emaranhado de sensações, suaves e duras, que me levaram a um processo de abertura de olhos e descobrimento de si. Adriane me feriu. Me deixou marcas que tenho em mim até hoje e que ainda ardem, que ainda doem. Talvez nunca tenha sentido uma fotografia me tocar, literalmente, de uma forma tão intensa. Doeu, mas, naquele dia, que encontrei Adriane eu renasci e como uma criança, cheia de vazios, comecei a buscar um mundo pra me preencher.

Hoje, escrevendo esse texto (desdobramento do nosso post no Dobras Visuais), na emoção do reencontro, percebo um novo “descomeço”.

(…) É que uma vez posta em circuito, uma marca continua viva, quer dizer, ela continua a existir como exigência de criação que pode eventualmente ser reativada a qualquer momento. Como é isso? Cada marca tem a potencialidade de voltar a reverberar quando atrai e é atraída por ambientes onde encontra ressonância. Quando isso acontece a marca se reatualiza no contexto de uma nova conexão, produzindo-se nova diferença. E novamente somos tomados por uma espécie de “desassossego”. (…)

Como é isso? Ainda me pergunto sempre que leio esse texto de Cláudia Linhares Sanz. Mais uma vez, me sinto vazia. Completamente cheia de vazios. E me sinto feliz, estranhamente feliz diante disso. Como disse Manoel de Barros, o meu vazio agora é maior que o infinito. E diante da completa inaptidão de tentar descrever com palavras cabíveis todo esse desassossego bom de se sentir, só me resta dizer: obrigada, Alexandre Sequeira.

Sobre Priscilla Buhr

Fotógrafa, Recife
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4 respostas para 7Aniversário: Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Alexandre Sequeira

  1. Eita que coisa linda esse texto. Discordo “da completa inaptidão de tentar descrever com palavras cabíveis todo esse desassossego”. Carimbo que estás, muito ao contrário, absolutamente apta a tal atrevimento(!), mesmo não tendo eu nenhuma autoridade pra tanto. Roubei ali em cima da mesa e carimbei sem permissão mesmo. E digo mais, que pra mim isso é elogio: esse jeito invejável de dizer as coisas que a gente nem sabe que sente me lembra o texto de Adriana Falcão. E só alguém assim com tanta doçura podia falar de Alexandre Sequeira. Obrigada aos dois! Sou tua fã, menina Buhr!

    • ôh cris, que querida você é! feliz demais com esse teu retorno. fico muito feliz sempre que você aparece por aqui, viu?
      a sensação que dá é que qualquer palavra do mundo que eu escrever será pequena diante dessa foto, sabe? ela mexe tanto, comove tanto.. que tudo parece pequeno, bobo. beijo grande pra você, que tem tanta sensibilidade na vida!

  2. a tia disse:

    tô falando que vcs tão impossíveis! genial pensar a insuficiência das palavras pra expressar um sentir que uma imagem esparrama. E Manoel…Manoel é Manoel, né!

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