7Aniversário: Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Anderson Schneider

Olavo Barradas Alho, 2005 | Anderson Schneider.

Olavo Barradas Alho, 2005 | Anderson Schneider.

“Meu objetivo consiste em produzir um documento inegável de  um passado recente que não pode ser esquecido.”

Anderson Schneider

Como é difícil conseguir explicar o que essa fotografia me provoca, há tempos que tento escrever sobre o poder que esta imagem tem sobre mim e sempre empaco em determinado ponto do texto.  As palavras me faltam e nunca são suficientemente boas para ocupar o mesmo espaço que essa fotografia. Entretanto, agora me vejo no momento de tentar dividir o que nela me causa tanto torpor e encanto.

Posso percorrer o caminho mais simples, nortear e pontuar a história da imagem, identificar o contexto de que ela faz parte, que é em grande medida um dos motivos de meu deslumbramento, e destacar o esmero técnico e criativo do fotógrafo, mas este não me parece o caminho certo, de algum modo sinto que desta forma acabo por reduzir a amplitude do que ela possa provocar. E como ela me provoca!

A dualidade de sentimentos e sensações me deixa perplexa e imóvel.  Confusa, tenho dificuldades para traduzir o quão desconcertante ela é para mim.  Como pode uma imagem despertar sentimentos contraditórios? Como pode, a uma só vez, conter tanta ternura, beleza e poesia e ainda assim ser o retrato de uma sociedade ignorante, ausente, egoísta e excludente?

Em um dos meus trechos preferidos do texto de Claudia Linhares Sanz (aquele sobre o qual escrevemos para o Desempacotando, do Dobras Visuais, e que se desdobrou nesta série de Olhando pra Sempre de aniversário),  em que fala dessa fotografia que desestabiliza, ela a explica como:

“Fotografias que produzem sentidos inesperados: rompem o pretenso equilíbrio de nossas vidas, nos desconcertam, nos sorriem. Imagens que fazem a gente gostar de viver. Fotografias que pesam, exibem lacunas – tornam visível a morte. Nos fazem indignar. Promovem silêncios profundos.”

 As imagens de Anderson Schneider me deixam em suspensão, como se o tempo parasse por uns minutos. Uma combinação estranha e imprecisa, uma mistura entre um sonho distante e a realidade embrutecida.  Seu trabalho põe o dedo nas nossas feridas, mas com uma poética absurda, uma melancolia que me deixa sem ar. Explora questões sociais que me doem fundo n’alma. Não sei se consigo me fazer entender, mas as imagens deste fotógrafo me provocam feridas profundas e elas não cicatrizam nunca.

 Só mesmo neste texto eu poderia encontrar eco para as rachaduras que Schneider me deixou, são um presente me lembrando sempre de ser quem sou e de buscar ser uma pessoa melhor, e eu as guardo com muito carinho. Gostaria de poder ter lhe dito isso uma vez, quando fui apresentada a ele em uma palestra em Recife, naquele momento vieram 256.389 frases para que eu pudesse dizer o quanto seu trabalho me emociona, mas obviamente só consegui balbuciar algumas frases soltas e desejar-lhe uma boa palestra…

Se puder, mais uma vez, tentar traduzir o intraduzível, apelo novamente para Linhares:

“É claro, há fotografias que nada mudam: querem mudar o mundo, mas nada movimentam – reificam o mesmo. Outras, sem pretensão, caem como bombas no colo de seu leitor. A transformação não está nem simplesmente no tema fotografado, nem no suporte utilizado – no hibridismo, na tecnologia, na suposta contemporaneidade do formato. Ela acontece numa operação entre sujeito e mundo, num processo de fabulação e significação.”

Sorrateiramente esta imagem se instalou em mim, está gravada. Sinto suas ranhuras vez por outra, vez em sempre, quando me vejo pensando e repensando a vida, vendo e revendo o meu lugar e propósito no mundo ou enquanto sonho. Tal como esse homem na imagem, me afogo em devaneios e fantasias, viro as costas para o mundo e me emsimesmo, perco-me olhando para “dentro”. Assim como este homem, dou as costas para o mundo, mas para me reencontrar, buscar meu eixo, minhas respostas, minhas verdades, e me pergunto se ele saberia disso…

Olavo Barradas Alho, aos 86 anos em 2005, cego, talvez saiba melhor do que ninguém o que significa emsimesmar-se, talvez esta tenha sido sua única alternativa. Talvez o seu dar as costas ao mundo seja diferente do meu, quem sabe uma defesa contra esse mundo que lhe virou as costas e lhe fechou as portas primeiro.

Na época em que a foto foi tirada Olavo vivia no Leprosário de Santo Antônio do Prata (Igarapé-Açu) desde 1931, quando foi confinado aos 10 anos de idade. Como tantos outros perdeu o contato com sua família e quando em 1976 as colônias foram desativadas milhares de pacientes ficaram desabrigados e à mercê da sorte. O pouco que lhes restava de ajuda do governo foi extinto, sem qualquer atenção ou política de reinserção social. Um contingente de pessoas que haviam sido retiradas de suas casas e famílias há muitos anos e trancafiadas em colônias continuaram, e continuam, vivendo às sombras nestes lugares, como fantasmas, como indigentes, “morrendo um a um, lenta e silenciosamente”.

A solidão de Olavo não é a mesma que a minha, eu tenho a liberdade de escolher meus momentos de reclusão, volto-me para dentro em busca de algo que me alimente, que me dê forças para encarar uma sociedade que é capaz de abandonar tantos Olavos, que me permita repor minhas energias e a coragem de escolher caminhos que me levem em busca do que faz meu coração vibrar.

Agora mesmo, bem neste momento, ao escrever este texto, me encontro em um destes processos e descubro novamente que essa tal fotografia é mesmo uma danada, sempre me pega de surpresa, me vira de ponta cabeça e me deixa cada dia mais apaixonada.

Sobre Maíra Gamarra

Maíra Gamarra é alagoana, com um pé na Bolívia. Turismóloga, fotógrafa (com bacharelado em Fotografia) e produtora. Vive e fotografa por amor, para aprender e conhecer, ter múltiplas experiências e estar em contato com o mundo em toda a sua diversidade.
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