Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Alessandra Sanguinetti

Alessandra Sanguinetti

Alessandra Sanguinetti

Olho nos olhos de uma amiga e vejo que, para ela, o tempo passou e passa com serenidade, apesar das turbulências. Sei que essa serenidade vem também do fato de ela estar olhando e vendo, nos meus olhos, a mesma coisa. Nesse encontro em que me vejo dentro da película transparente dos seus olhos e ela dentro da minha, fica uma das melhores experiências da idade mais do que adulta: uma amiga.
 
Guille e Belinda e um retrato orgânico do carinho. Guille e Belinda e um grande questionamento sobre amizade. Talvez eu goste tanto de fotografia justamente por essa dualidade de sentimentos e toda a inquietação que elas me provocam. Algumas fotografias mexem, remexem, me fazem pensar e repensar sobre o mundo, sobre mim. Me encontrei com essa imagem de Alessandra Sanguinetti em 2009, no Paraty em Foco. Guille e Belinda me falaram tanto sobre a vida. Uma longa conversa. Guille e Belinda e aquela foto me falaram sobre o afeto, sobre verdade, sobre respeito. Eu, ali, só fui capaz de ouvir e de sentir toda aquela verdade. Não me cabia, naquele momento, nada, além de olhar para sempre aquela fotografia.
 
Durante esses 4 anos, revi essa fotografia de Sanguinetti diversas vezes, em momentos distintos da minha vida. Na verdade o ensaio The Adventures of Guille and Belinda and The Enigmatic Meaning of Their Dreams todo mexe muito comigo e todas as vezes que paro para ver, sempre me questiono muito sobre as relações de afeto que estabelecemos durante a vida. Esse ensaio foi produzido por Sanguinetti, em 1999, em uma zona rural próxima a Buenos Aires. A “pauta” da fotógrafa era a relação simbiótica entre os agricultores da região com os seus animais, e a terra. Enquanto estava no processo de produção dessas imagens, Sanguinetti, conheceu as primas inseparáveis Guille e Belinda e encantada com a atmosfera lúdica, pueril e ao mesmo tempo surreal das brincadeiras das amigas, resolveu retratar o dia a dia daquelas crianças. Sanguinetti buscou representar os desejos e a metamorfoses identitárias de Guille e Belinda a partir da encenação cenas cotidianas repletas de fantasias e mistérios. O resultado são fotografias doces, ternas e estranhas de um imaginário infantil. Quase um sonho, onde são expostos sentimentos crus, muitas vezes perturbadores por tamanha verdade, mas ainda assim de uma beleza incrível.
 
Guille e Belinda me fizeram olhar muito para a minha infância e para a relações que criei durante essa fase da minha vida. A minha grande inquietação gerada por essa foto gira em torno de como vivemos nossas amizades. Quando criança amamos com toda a verdade que existe. Mas, no decorrer do tempo, parece que o amor se torna um pouco menos vívido. São tantos conflitos, tantas questões duras que a vida adulta deposita em nossas almas, que começamos a estabelecer relações de afeto cada dia mais voláteis e frágeis. Vejo uma sociedade tão confusa e fraca de valores básicos de amor e respeito ao próximo que não me espanta diante disso os tantos Feliciano’s que existem por aí desconstruindo a beleza do aprendizado que é viver coletivamente em meio às diferenças. Aí, vem Guille e Belinda e me fazem pensar em como lidamos com as diferenças. Nós, que não acreditamos na segregação, que estamos gritando nas ruas e timelines que Feliciano’s não nos representam. Como nós olhamos para o outro “estranho”? Como somos “estranhos” diante do outro “normal”? Será que respeitamos e somos respeitados da forma dizemos amar e queremos ser amados? Será que nossos preconceitos nos impedem de amar verdadeiramente? Será que estamos de fato aprendendo com o próximo ou será que estamos impondo, talvez até de maneira inconsciente, sempre o nosso ponto de vista como única verdade? Me parece que vivemos em um grande limiar. Guille e Belinda me fazem todas essas perguntas e me desafiam a buscar um olhar mais aberto e leve. Será que essa estranheza que o ensaio desperta nas pessoas não é justamente o nossa dificuldade de lidar bem com a diversidade? Aquelas meninas me mostram que as diferenças podem até assustar, mas podem construir relações belas, como nós crianças, desprovidas de barreiras, cultivávamos de maneira tão mais plena. Olhar para sempre essa foto de Sanguinetti me faz acreditar mais no ser humano. Me faz vibrar a cada novo encontro e nova descoberta de mim no outro e desejar quebrar minhas minhas amarras.

Sobre Priscilla Buhr

Fotógrafa, Recife
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2 respostas para Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Alessandra Sanguinetti

  1. Marco disse:

    amarras quebradas…

  2. Depois de, bem ou mal ter sido alfabetizado visualmente, no gratificante processo da graduação em fotografia, de modo geral quando vejo uma imagem fotográfica, procuro sempre imaginar o processo criativo, reparo nas luzes, nas sombras, na composição, nas cores, no espaço expositivo, na sequência de montagem, enfim, uma multitude de parâmetros que são direta ou indiretamente associados a uma fotografia ou conjunto delas. E foi assim, municiado deste conhecimento técnico que fui, juntamente com amigos, não lembro a data, visitar uma seleção da Bienal de São Paulo que estava em exposição no MAMAM. E dei de cara com este incrível ensaio de Sanguinetti. Lembro de ter sido arrebatado e lembro que quando saímos, alguém comentou na moldura de uma das obras, quando então percebi que eu não tinha visto a exposição, estivera imerso no trabalho de Alessandra de tal modo que me passaram despercebidos todos os detalhes que tão criteriosamente costumava observar. Tive de voltar outro dia, para enfim ver a exposição, com olhos de fotógrafo, mas ainda apaixonado.

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