Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Lucas Foglia

Patrick and Anakeesta, Tennesse (USA) | A Natural order, Lucas Foglia

Patrick and Anakeesta, Tennesse (USA) | A Natural order, Lucas Foglia

Enquanto Anakeesta brinca livre, leve, solta e feliz, alheia ao mundo, indiferente a qualquer problema, ignorando normas e regras, nós, por aqui, ao contrário, temos todos os dias que lidar com sei lá quantas questões delicadas. É Feliciano, Renan, Blairo Maggi aqui, bombas, guerras e atentados ali, é Igreja e governo dizendo o que podemos e o que não podemos fazer acolá, é tanto falso moralismo, preconceito, mentira e hipocrisia para todo lado em que se olhe que chega bate uma tristeza e deconsolo no coração.

Admirando a tranquilidade e comunhão de Anakeesta e Patrick só tenho vontade de colocar uma mochilinha nas costas e fugir para bem longe. E foi exatamente isso o que fizeram as pessoas retratadas pelas lentes do fotógrafo Lucas Foglia no ensaio A Natural Order. O trabalho todo é muito bonito (vejam!), mas para mim esta imagem é de longe a mais simbólica, a mais forte, impactante e coerente com o conceito do trabalho. Olhar esta imagem é ver pureza, simplicidade, liberdade, amor, entrega, compaixão, leveza, harmonia com a natureza e o quão pouco precisamos para sermos felizes.

De 2006 a 2010, Lucas viajou pelo sudeste dos Estados Unidos fotografando e entrevistando comunidades e pessoas que deixaram as cidades em busca de vidas mais simples, saudáveis e autossuficientes. Motivados por questões ambientais, crenças religiosas, ou previsões de colapso econômico, foram ao encontro de alternativas para um estilo de vida que desconstrói os padrões de consumo do sistema e valoriza outras formas de lidar com a natureza, a terra, a comida, o trabalho, as pessoas, a vida! Entretanto, ao contrário do que pensam muitos, eles não vivem em completo isolamento e nem estão desconectados do mundo contemporâneo, vários deles possuem computadores e telefones celulares. O que acontece na verdade é que eles escolheram se afastar de um sistema voraz, e para tantos destrutivo, e agora elegem o que ainda querem deste universo. Estando “fora” se dão o direito de definir o que de fato é importante conservar e no seu devido tempo.

Vejam bem que perspectiva interessante, não é negar que fazemos parte desse mundo cheio de loucuras, avanços e tecnologias, cheio de possibilidades e criações magníficas que facilitam nossas vidas e relações, mas perceber que ele é muito maior e mais complexo, saber que nele cabem muitas formas de se viver, é respeitar a pluralidade de modelos que podem coexistir com suas próprias crenças.

Assim como as pessoas fotografadas por Foglia, precisamos parar, de tempos em tempos, para refletir um pouco sobre a vida, os caminhos que escolhemos, o impacto de nossas decisões (as pensadas e as impulsivas) em nós mesmos e nos que nos cercam, em como lidamos com nossas rotinas, sociedade, trabalho, amores, família… Nossas vidas precisam ser mais guiadas por aquilo que verdadeiramente importa para cada um de nós, precisamos parar de tentar tapar os buracos dos nossos vazios com peneiras, desligar o botão automático e tomar as rédeas nas mãos.

Diante disso, cabe aqui puxar um texto de Eliane Brum para a Revista Época, publicado na semana passada. Nele Eliane aborda o conceito de urgência no mundo contemporâneo. Ela diz que perdemos a noção do que é prioritário, e ao se considerar tudo urgente, nada mais é urgente.

“E viver é, de certo modo, um constante interrogar-se sobre o que é importante para cada um. Ou, dito de outro modo, uma constante interrogação sobre para quem e para o quê damos nosso tempo, já que tempo não é dinheiro, mas algo tremendamente mais valioso. Como disse o professor Antonio Candido, “tempo é o tecido das nossas vidas”.” 

Bem, como não vou fugir (pelo menos não por enquanto), posso ficar olhando pra sempre a plenitude de Anakeesta.

Sobre Maíra Gamarra

Maíra Gamarra é alagoana, com um pé na Bolívia. Turismóloga, fotógrafa (com bacharelado em Fotografia) e produtora. Vive e fotografa por amor, para aprender e conhecer, ter múltiplas experiências e estar em contato com o mundo em toda a sua diversidade.
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2 respostas para Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Lucas Foglia

  1. Ângelo disse:

    Não é necessário “fugir”… ou sim? Já que é quase impossível fugir de si, talvez se possa fugir das coisas. E por que não se deslocar ou cair como uma pedrinha que caí no mais profundo rio, e deixar-se ir ao nosso lado mais escondido e adormecido? Deslocar-se da cidade e ao mesmo tempo estar sem ela. Acredito que nos habituamos a falsas necessidades cotidianas, que como uma bola de neve nos deixamos engolir por coisas e “emergências” que em muitos dos casos não sabemos o que vem a ser esta tal “emergência”.
    Prefiro acreditar que: “Nossas vidas precisam ser mais guiadas por aquilo que verdadeiramente importa para cada um de nós. ‘ou de si’…”

    Gosto de teus textos.
    Ângelo 😉

  2. Marco disse:

    será que “fugir” é estar com desejos e afetos vitais a vida expontânea, a dança, a poesia e/ou responsabilidades planetárias?… é fazer das escolhas algo mais simples, mais tato, mais pele? estar louco, estar sano?… aconselho fugir logo! logo!

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