Diário de Bordo – II Encontro Pensamento e Reflexão – 2

Bella Valle

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Ontem foi o primeiro dia de evento no MIS. O local estava repleto de fotógrafos e pesquisadores de fotografia de todo Brasil. A programação começou às 10h para quem estava inscrito nos workshops – faremos um relato geral sobre o que foi abordado nos cursos no último dia – e as comunicações abertas ao público começaram às 15h. A primeira parte da tarde se tratou de um ciclo de apresentações dos trabalhos acadêmicos selecionados por convocatória, apresentados pelas pesquisadoras Luzia Renata da Silva, Ravena Sena Maia e Dunya Pinto Azevedo. Depois seguiram-se duas sessões de palestras com Cecília Almeida Salles e Alexandre Sequeira, respectivamente, o que estendeu a programação do primeiro dia até às 20h, quando tivemos um coquetel de abertura.

Para nosso Diário de Bordo, contamos com a colaboração dos queridos Ana Lira, Renata Pires e Ricardo Moura, que partilharão conosco suas experiências no evento através de textos e imagens. Hoje, Renata e Ricardo escreveram juntos o relato sobre a palestra da Cecília Salles. As fotografias do primeiro dia ficam por conta de Bella Valle, que também fala sobre o ciclo de apresentações da convocatória; e quem nos narra sobre o que foi abordado por Sequeira é Maíra Gamarra.

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O primeiro trabalho acadêmico apresentado nesta quinta-feira foi o de Luzia Renata da Silva, que abordou o tema “Anacronismos na fotografia contemporânea: as Meninas de Vermeer”. A pesquisadora analisa as relações entre as obras contemporâneas de Arthur Omar e Tom Hunter com os quadros “A menina com brinco de pérola” e “A leitora à janela”, do pintor holandês do século XVII Johannes Vermeer. Luzia trabalha o conceito de Imagem Dialética, de Walter Benjamin, para entender esse paralelismo entre obras de tempos tão distantes.

Já Ravena Sena Maia apresentou o trabalho “A paisagem fotográfica no ensaio O Jardim: construção estética de uma singularidade”, em que é analisada a obra do brasileiro Pedro David, relacionada aos estudos sobre paisagem. A pesquisadora faz uma linha histórica sobre a fotografia de paisagem, fala sobre a construção do enquadramento e a conquista do ponto de vista, trazendo como referência teóricos como Dubois e Lissovsky. Assim, ela aborda o ensaio fotográfico “O Jardim”, de David, através do estranhamento que ele provoca ao desmontar o conceito tradicional de paisagem. Ravena fala sobre a paisagem em desacordo e a polissemia construídos pelo fotógrafo em seu trabalho, nos levando ao entendimento do território em mudança, ainda incapaz de estabelecer pertencimentos e recognições, expostos na obra em questão.

A última apresentação desta primeira sessão de trabalhos acadêmicos foi feita por Dunya Pinto Azevedo, que explorou o tema “Imagens que relampejam: múltiplas temporalidades no ensaio fotográfico de Guillaume Herbaut”. Dunya se baseia principalmente no livro “La Photographie Contemporaine”, de Michel Poivert, para conduzir grande parte de sua análise, que também conta com considerações de Dubois, Rancière e Rouillé. A pesquisadora apresenta os conceitos de “imagem monumento”, “imagem vestígio” e “documentário imaginário” e fala sobre a relação entre arte e fotojornalismo para abordar as obras do fotógrafo Guillaume Herbaut, citando nomes como Benjamin, Dubois, Rouillé, Depardon e Didi-Huberman. A proposta é defender, através das imagens de Herbaut, que o discurso mais crítico da realidade está na arte e não na mídia e que a noção de aura não se opõe à noção de traço.

Depois da três apresentações, o curador do evento Alexandre Belém abriu o microfone para questões do público, mas não houve perguntas e fomos ao intervalo.

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Voltamos às 17h com a Cecília Salles, que falou sobre a amplitude no processo criativo. A prática de análise dos materiais documentais que vão sendo feitos ao longo do desenvolvimento de uma proposta artística é inerente ao processo criativo, e a pesquisadora evidencia isso inicialmente com uma imagem de Cartier-Bresson ao analisar folhas de contato de suas fotografias. Em linhas gerais, a partir da análise frequente da obra sendo desenvolvida, o artista constrói em seu universo criativo uma parcela oculta de seu trabalho, que se pauta na pesquisa presente do que virá a ser apresentado futuramente.

Cecília trás em sua fala a amplitude do processo criativo no ato de aprofundar suas questões e viabilizar novos trabalhos. A palestra é permeada por exemplos práticos de artistas que documentaram seus processos e que, a partir deles, conseguiram desenvolver novas vertentes dentro do tema abordado. Ao relacionar nomes e exemplos, ela mostra o quão importante passa a ser uma boa documentação do processo, e que para se transformar em uma nova obra dependerá fortemente da edição que será dada ao material produzido. O nome mais citado durante a palestra foi o de Gerhard Richter, com Atlas, que transforma em obra o processo. Além disso, ele incorpora a esse fluxo o ato periódico de tornar pública a pesquisa, o que faz com que o trabalho como um todo seja interligado e que funcione em uma relação de interdependência.

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Esses relatos ganham complexidade quando vão à exposição, na medida em que, de acordo com a forma que  se estabelecem nexos entre as diversas etapas de produção, o expectador encare esse material não como objetos singulares em um ambiente expositivo, mas como as partes de um todo, que então funcionam uma em relação a outra.

Cecília também fala do próprio artista como esse cruzamento de processos, citando o teórico Vincent Colapietro, que fala do sujeito como um agente comunicativo, que é distinguível, mas relacionado com os outros: a pessoa tem a própria forma de comunidade. Ela reforça o dito através do conceito de multiplicidade de Calvino e desmistifica algumas questões, como a originalidade, que não interessam quando se entende a obra através de um viés processual.

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A terceira e última sessão da primeira jornada do Pensamento e Reflexão trouxe em sua programação a apresentação de Alexandre Sequeira, artista Paraense. Em sua fala Alexandre contou-nos uma linda história, que fala de amizade, companheirismo, respeito, diferenças, aprendizado, carinho e fotografia. Alexandre nos contou sobre sua experiência em Lapinha da Serra, no interior de Minas Gerais. Sua fala, sempre emocionante, faz a gente sair do auditório do MIS com os olhos vermelhos e o coração apertado. “Entre Lapinha da Serra e o Mata Capim: fotografia e relações de trocas simbólicas” foi o projeto de mestrado de Sequeira, na UFMG, mas muito além disso, foi uma experiência que cativou toda a platéia (claramente emocionada), ou melhor, que cativa a todos que ouvem esta bela história onde Sequeira narra as suas aventuras em Lapinha ao lado de Rafael e seu Juquinha.

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Sequeira sempre se diz desconfortável em assumir o papel de fotógrafo, declara-se mais como artista que utiliza a fotografia a seu favor… E que favor! A fotografia, de uma forma ou de outra, está intrinsecamente ligada ao trabalho de Sequeira de diversas maneiras, neste projeto, a fotografia é ponte, é ferramenta, é acessório, é elo, é brincadeira. Sequeira conhece o poder e valor da fotografia e usufrui dele de maneira sublime. Ela aparece como pano de fundo para a experiência, seja como um presente dado a Rafael, ou como o retrato de família para seu Juquinha, uma desculpa para permitir a aproximação das pessoas. Mas a fotografia é como uma rede que une estes espíritos. Nas mãos e olhos de Sequeira, torna-se um instrumento de encontros, trocas, fabulações, descobertas, riscos, mas sobretudo de valorização do homem, do humano, suas experiências e sabedoria.
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