Diário de Bordo – II Encontro Pensamento e Reflexão – 3

MIS | Renata Pires

MIS | Renata Pires

No segundo dia de evento, o auditório do MIS estava lotado para o ciclo de palestras que contou com a apresentação dos trabalhos acadêmicos de Blanca Madalena Ruiz Péres, Nubia Angélica Caballero Pedraza e Nuria Legramante Ribeiro, além das apresentações de Ricardo Cases e José Antônio Navarrete, ministrantes dos workshops, além de Mariano Klautau. O texto de hoje foi composto a seis mãos por Bella Valle, Maíra Gamarra e Val Lima e as fotos são dos queridos Ricardo Moura e Renata Pires.

MIS | Renata Pires

MIS | Renata Pires

Na primeira apresentação da convocatória de ontem Blanca Madalena Ruiz Péres apresentou o trabalho El viaje de los afectos e apoiada por alguns pensadores como Spinoza, Sartre, Aristóteles, Bhartes e Baudelaire, apresentou o trabalho de alguns fotógrafos que constroem sua poética utilizando o afeto como meio de conhecimento e de nos relacionarmos com os outros. Onde corpo e alma não se apresentam divididos e são movidos pelo desejo, a tristeza e gozo, fontes primárias de todos os outros afetos.

Ricardo Moura

Ricardo Moura

Blanca fez um interessante recorte sobre como os fotógrafos constroem o olhar para sua própria família e apresentou o trabalho de Félix Gonzalez Torres que fotografou a morte de seu companheiro expondo a cama vazia do casal, discutindo inclusive a questão do público e do privado na arte. Também nos apresentou o ensaio Kinderwunsch, de Ana Casas Broda, que trata de seu desejo de ser mãe, além da sua carga de temores e medos, utilizando o olhar como um dado da experiência afetiva.

Félix Gonzáles Torres

Félix Gonzáles Torres

Kinderwunsch | Ana Casas Broda

Kinderwunsch | Ana Casas Broda

Já Nubia Angélica Caballero Pedraza, nos trouxe a questão El efecto de la realidad en la fotografia documental assinalando que apenas algumas realidades são mostradas na imprensa, geralmente de forma ficcional, com foco em realidades cruéis. Núbia apresentou também as fotos premiadas nos últimos 10 anos no World Press Photo, apontando os elementos característicos formais da fotografia que falam da realidade. Segundo Núbia Angélica o tema da realidade já está superado e quando esta se ficcionaliza deixa de ser realidade. E o documental e a ficção podem distinguir-se em estratégias diferenciadas de produção de sentidos.

Ricardo Moura

Ricardo Moura

Nuria Legramante Ribeiro, a terceira a compor a mesa falou sobre as  Interfaces entre fotografia e pintura: Bachelot Caron. A dupla de fotógrafos faz em suas fotografias uma misancene a partir do universo da tradição da pintura, se utilizando de uma teatralidade, tanto na luz quanto na composição e formas corporais, encenando situações reais para compor as imagens.

A dupla também se utiliza de temas sobre a história da arte para construir imagens com pinceladas digitais, ampliando os limites da linguagem fotográfica. Não escondendo o jogo que arquitetam, a fotomontagem, criando um neopictorialismo na fotografia contemporânea.

Ricardo Moura

Ricardo Moura

A primeira palestra desta quinta-feira ficou a cargo de Ricardo Cases, um espanhol falante, eloquente e divertido, que além da fala na palestra está ministrando o Workshop “Reportajear Humanos”. O fotógrafo é integrante do coletivo madrilenho Blank Paper, possui 03 fotolivros publicados: Belleza de Barrio (2008), La caza del lobo congelado (2009) e Paloma al aire (2011), este último eleito o melhor fotolivro de 2011 pelo The British Journal of Photography.
Cases dividiu sua fala em dois momentos, no primeiro, apresentou alguns de seus projetos ( destaco aqui o “La caza del lobo congelado”) e declarou-se um apaixonado pela fotografia, um afortunado por poder trabalhar com que o gosta e defendeu a fotografia contemporânea que produz como uma possibilidade livre e maravilhosa de expressão. Com base nos trabalhos mostrados ficam claras as motivações de Cases, um fotógrafo que está preocupado com as questões de sua terra, de sua região, realidades que lhe chamem a atenção e considere interessantes de serem mostradas. Interessam-lhe seu povo, seu país, os personagens que surgem nos seus caminhos, o momento histórico pelo qual passa a Espanha, a documentação de costumes e hábitos das novas configurações sociais e culturais desse país. Os trabalhos expostos versam sobre estes temas e evidenciam um estilo que carrega um quê de ironia e crítica, atraído pelo pop e o kitsch, e muito marcado pelos retrato e pelas cores, uma parte muito significativa de seu trabalho, sempre fortes, acentuadas e exuberantes.
Ricardo Cases | Renata Pires

Ricardo Cases | Renata Pires

No segundo momento, Ricardo Cases falou um pouco sobre a nova cena fotográfica Espanhola, um movimento espontâneo e autônomo iniciado há  aproximadamente 5 anos atrás, nascido da falta de apoios institucionais. Uma cena emergente que se organiza para criar suas próprias alternativas e meios, envolvendo fotógrafos, produtores, projetos editoriais ( livros e revistas) e de distribuição, Coletivos fotográficos,  designers…  Profissionais independentes mas que atuam colaborativamente na busca por desenvolver seus trabalhos e a fotografia Española. Cases trouxe uma série de referências, links e nomes que prometo organizar e anexar aos comentários deste post depois, para poder dividi-los com vocês.

A segunda palestra do dia foi apresentada por Mariano Klautau, que trouxe o trabalho Imagens que geram imagens: entre a experiência e a poética. Mariano apresentou de maneira delicada o processo criativo de alguns fotógrafos.Partindo da crítica genética, o pesquisador revelou algumas experiências dos processos de Gui Mohallhem, Bruno Zorzal e Ilana Lichenstein.

Klautau fez algumas considerações sobre o processo criativo do artista e pontuou que este é uma realidade ficcionalizada pelo próprio fotógrafo. Para ele, a ficção da fotografia é uma reescrita de si mesmo, como se fosse um modo particular de aproximação de um mundo vivido.

Para Klautau a arte que vivemos hoje é aberta e em processo contínuo e as experiências perceptivas na era pós-fotográfica acontecem diante do desaparecimento de certas materialidades físicas e num descompasso com o corpo. Ele apontou que as imagens presentes em nossa memória são bastante importantes para a construção de uma poética e que a nossa percepção, experiência e as nebulosas etapas do fluxo mental são reelaboradas na fotografia, porque é no próprio exercício da fotografia que as coisas se dão.

Encerrando sua fala Mariano trouxe um pouco da fala de Miguel Rio Branco sobre seu próprio processo criativo e conceito de fotografia subjetiva, além de dissertar sobre a relação, ao meu ver, um tanto mágica, entre a palavra e a imagem.

José Antonio Navarrete | Renata Pires

José Antonio Navarrete | Renata Pires

Na última sessão da sexta, José Antonio Navarrete palestrou sobre “Fotografia e abstração na arte contemporânea”. Ele começa questionando se é possível a existência da abstração total na fotografia, mesmo havendo sempre certo grau de abstração do referente em toda fotografia. O pesquisador cita fotógrafos e casos de imagens fotográficas que buscam a abstração na época moderna: Paul Strand, Curtis Molffat, Alfred Stieglitz, Manuel Álvares Bravo, Iwao Yamawaki, Aaron Siskind, Geraldo de Barros, Leo Matiz e Romulo Aguerre, comentando cada um deles, suas fotografias e propostas, suas referências e buscas, falando, então, de tempo, fotogramas, impressionismo, lirismo, forma, construtivismo e do próprio abstracionismo como movimento artístico representado na figura do pintor Mondrian, que defendia a abstração como forma de superação do contingente e do trágico do mundo real e que foi grande influência no trabalho fotográfico de Leo Matiz.
Apesar de passear por uma análise de várias fotografias abstratas, Navarrete não pretendeu fazer nenhuma genealogia histórica sobre fotografias abstratas. O autor parte dos fotógrafos modernos para dizer que, nos últimos 20 anos, na contemporaneidade, as práticas abstratas estão associadas à noção de pós-modernismo. Há, segundo ele, uma expansão da abstração na fotografia. Navarrete fala sobre a fotografia documental e a fotografia abstrata, quando diz que o documental, por ser figurativo, trabalha com questões mais complexas de significações e representações. Para ele, a abstração, como linguagem não figurativa, é mais simples.

O pesquisador explora, então, a obra fotográfica abstrata pós-moderna de James Welling e as combinações que o artista faz entre fotogramas abstratos e fotografias figurativas feitas com câmera. Ele diz que documental e abstrato, aqui, não são discursos antagônicos, mas complementam o mesmo discurso. Navarrete também explora os trabalhos de Hiroshi Sugimoto, Walead Beshty,  Liz Deschenes, Herbert Bayer, Thomas Ruff e Shirana Shahbazi. Depois, o cubano conclui que figuração e abstração não são modos de representação antagônicos, mas modos possíveis que se relacionam. Para ele, os contemporâneos se diferem das práticas modernas, mas continuam algumas linhas, como a exploração experimental. Há uma consciência da forma, um discurso sobre as possibilidades de construção no terreno da criação artística. Há uma contaminação dos discursos entre os dois modos e é interessante ver até que ponto os artistas apostam em gerar um discurso da forma e um discurso problematizador sobre as condições de produção da própria fotografia.

Sobre 7 Fotografia

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