Diário de Bordo – II Encontro Pensamento e Reflexão – 4

O II Encontro Pensamento e Reflexão na Fotografia chegou ao fim. O último dia do evento contou com as apresentações de Christian Cravo, Mauro Restiffe e Agnaldo Farias. O MIS estava mais uma vez lotado e o Encontro se mostrou um grande agregador, estimulando a troca, o intercâmbio de ideias de fotógrafos e estudiosos da fotografia do país inteiro. Esse penúltimo #Diário de Bordo foi escrito por Bella Valle, Renata Pires e Pri Buhr e as fotos são de Maíra Gamarra.

Auditório do MIS lotado no úlitmo dia do II Encontro Pensamento e Reflexão na Fotografia | Maíra Gamarra

Auditório do MIS lotado no úlitmo dia do II Encontro Pensamento e Reflexão na Fotografia | Maíra Gamarra

Christian Cravo falou da sua experiência pessoal, profissional e familiar com a fotografia. Para ele, fotografia e vida se confundem. A palestra caminhou por um viés de intimidade muito forte. Christian contou sobre sua história e mostrou vários trabalhos que fez desde o início da carreira, trazendo à tona questões familiares permeiam escolhas e angustias que o movem. A influência do pai e do avô, fotógrafos bastante legitimados (Mario Cravo e Mario Cravo Neto), foi crucial nos trajetos feitos por Christian.

O fotógrafo possui um histórico bastante centrado na estética humana, no retrato. Porém, após a morte prematura de seu pai e, em seguida, a cobertura do terremoto no Haiti, na qual perdeu três amigos, ele resolveu levar adiante o desejo de mudar a estética do seu trabalho. Realizou, então, o trabalho “Testemunhos do silêncio”, com fotografia em cor (pela primeira vez em sua vida), mostrando as ruínas do terremoto, depois que a mídia parou de mostrar o Haiti. Ali, lhe interessava mostrar a futilidade física da nossa existência aqui na Terra, a fragilidade da vida, mas também a persistência e a força em recomeçar. Sua poética partiu do homem às ruínas.

Segundo Christian, a morte de seu pai, de certa forma, o libertou para se aproximar daquilo que ele pode fazer hoje, pois não precisava mais provar que era bom: permitiu-se arriscar, embarcar no incerto. Nada mais o reprimia ou cobrava em seu exercício artístico.

Assim, O fotógrafo começou o trabalho na África, em que afirma realizar uma fotografia estereofônica, ampla, do micro ao macro, na natureza. Segundo ele, é um trabalho plástico, de traços, sem pretensões científicas. Sua única regra era que não houvesse presença humana nas fotografias, em uma negação aos seus vastos trabalhos anteriores. Por outro lado, ele busca uma visão humanista da natureza, do olhar, dos animais, da paisagem, dos detalhes.

Para Christian, o trabalho é apenas uma parte daquilo que ele faz com a fotografia. Ela possui um papel muito amplo e forte na vida do fotógrafo, principalmente na quebra do distanciamento com seu pai e a parte brasileira de sua família. Ele diz que as trocas afetivas com o pai e o avô existiam na fotografia. Christian diz que o pai se orgulhava dele, mesmo sendo tão diferentes. Mário sabia da preciosidade de ver um filho continuar seu trabalho.

O fotógrafo cita algumas referências fotográficas (como Miguel Rio Branco e Sebastião Salgado, mas diz que suas maiores influências estéticas estão na pintura, principalmente no claro-escuro de Rembrandt. Por isso, ele lembra que é importante ler, ver, ouvir, arte e o que está ao seu redor.

Apresentação de Christan Cravo | Maíra Gamarra

Apresentação de Christan Cravo | Maíra Gamarra

A palestra de Mauro Restiffe apresentou um caminhar por toda sua produção fotográfica. O fotógrafo formado em cinema pela FAAP, hoje ocupa o lugar de um dos mais importantes fotógrafos brasileiros contemporâneos e sua obra se distribui entre algumas grandes galerias de arte mundiais.

Ele começa sua fala mostrando uma imagem de uma fotografia dentro da fotografia, destacando que seu trabalho começa refletindo um pouco como a imagem se apresentam no espaço. O espaço é, inclusive, uma marca constante em suas imagens e sua obra foi inicialmente focada na produção de fotos que revelassem esse espaço físico resinificado, no qual as linhas e perspectivas são partes de uma composição estética densa, de algum modo até sombria. O espelho é retratado como elemento gerador de novas perspectivas, e a relação de reflexão que o pertence aqui é trazido para revelar o que está exterior ao quadro.

Apresentação de Mauro Restiffe | Maíra Gamarra

Apresentação de Mauro Restiffe | Maíra Gamarra

Essa relação está presente fortemente nas séries The Aquarium e Glass House. Esta última, posteriormente comentada no evento por Agnaldo Farias, retrata a casa de Philip Johnson, um dos pais da arquitetura moderna. A casa,  primeira edificação construída com paredes integralmente de vidro, segundo Agnaldo, marca uma revolução não só arquitetônica, mas também antropológica e comportamental. As fotos de Restiffe evidenciam isso, pois o que se vê fortemente nas imagens é o caráter perturbador da perda da intimidade e da proteção que as paredes conferem a um espaço. Em fotografias analógicas e em preto e branco, assinatura de seu trabalho, está presente um olhar bastante apurado, e um rigor na composição, de modo que todos os elementos inseridos no quadro tem importância ímpar na leitura da foto.

Mauro segue comentando um a um de seus trabalhos e revela também um forte caráter documentativo em sua obra, como pode ser visto em Five on Fifty, Red Light Portraits, Nova Luz, Planos de Fuga e Tlatelouco. A essa lista não se pode deixar de comentar a série Empossamento, feita em 2003, que, segundo Mauro, tornou-se o trabalho mais conhecido dele. Retrata o dia da posse do ex-presidente Lula na frente do palácio do governo, em Brasília, numa série de imagens que evidenciam a chegada de milhares de pessoas para assistir ao discurso de posse.

Observando a trajetória de seu trabalho e a forma como Mauro direciona seu olhar sobre o mundo percebemos que todo seu trabalho é conduzido por um “grande tema” que remete a relação do espaço físico teoricamente delimitado e a possibilidade de se ressignificar os limites concretos dessas formas. Mauro deposita uma grande carga de leveza, poesia e organicidade em um tema que poderia ser tratado de maneira extremamente fria, que é a arquitetura e as relações que estabelecemos com esses espaços.

Apresentação de Agnaldo Farias encerrando o evento | Maíra Gamarra

Apresentação de Agnaldo Farias encerrando o evento | Maíra Gamarra

Encerrando o II Encontro Pensamento e Reflexão na Fotografia de maneira deliciosa, Agnaldo Farias (que é professor, crítico, curador e atual consultor do Instituto Tomie Ohtake e coordenador do projeto Rumos Visuais, do Itaú Cultural) fez o auditório lotado do MIS refletir com bastante sorrisos no rosto. Agnaldo começou sua fala questionando o termo “criação” (inserido no tema do encontro: A criação e seus caminhos)  e a forma como o seu uso no mundo das artes, encobre o que realmente deveria estar em foco: o trabalho e a maneira de se observar e refletir sobre o mesmo. Para ele, criar remete a apropriação, ou algo mais mecânico e pragmático e sugere o uso do termo criatividade, mas também questiona que sem sensibilidade a criatividade não tem força, que não basta boas idéias sem um olhar sensível, sem uma motivação orgânica, sem isso fica o criativo pelo criativo sem força, sem o poder de modificar o pensamento de quem vê aquela obra, de tirar o sono do espectador.

Sempre trazendo várias boas referências de teorias da arte, Agnaldo também falou sobre os termos pensamento e reflexão: a reflexão como reflexo sobre a realidade, uma ressignificação do mundo que coloca a fotografia como esse espectro, esse fantasma que induz o pensamento.

Agnaldo conduziu sua argumentação apresentando os trabalhos de Pedro Motta e Sofia Borges. Dois grandes exemplos de olhares que desconstroem o lugar comum retratando o mundo, suas complexidades, seus movimentos, mas mesmo com o pé na realidade, transformam o produto fotográfico nesse espectro, já que o mundo é tão amplo, como disse Agnaldo, o olhar sobre ele precisa ser vasto, precisa de força reflexiva.

Pedro Motta, artista plástico mineiro usa a fotografia como suporte de seus trabalhos. É o vencedor da 9.ª edição do Prémio BES Photo, com a série “Natureza das Coisas”, que estabelece um diálogo entre a percepção do real e do falso através da sugestão e do imprevisto, na utilização da paisagem enquanto género tradicional da história da arte, subvertendo o lugar comum da natureza e seus elementos. Sofia Borges, também tem a natureza como ponto referência em seu trabalho “Estudo da Paisagem”, em que ela constrói uma narrativa em torno da construção do olhar sobre uma paisagem.  São imagens tiradas dos fundos dos cenários pintados do Museu de História Natural de Nova York que, por intermédio da fotografia, retornam parcialmente à uma condição de lugar. O não real tratado como real, num jogo de sugestões e sutilezas que onde a fotografia serve como instrumento de reinterpretação de uma imagem já existente, as pinturas e imagens daquela natureza em choque.

O grande ponto de início nesse processo seriam as perguntas “o que fazer?” e “como fazer?”. Agnaldo questiona como o fotógrafo contemporâneo resolve essas duas questões e mostra nos trabalhos de Pedro e Sofia a forma como o signo não aparece literal, com um uma leitura fechada. Os dois fotógrafos “brincam” com as possibilidades de interpretação, causam o confronto de ideias, instiga o espectador a pensar no referente não mais como um simples objeto. Daí, surgem o pensando e a reflexão. Para Agnaldo, tudo que se faz cresce, frutifica, com a fotografia não poderia ser diferente e seus frutos são justamente a capacidade de transformar e inquietar nossos conceitos e pontos de vista.

Natureza das Coisas #2 | Pedro Motta

Natureza das Coisas #2 | Pedro Motta

Estudo da Paisagem | Sofia Borges

Estudo da Paisagem | Sofia Borges

Agnaldo fez piada, brincou com conceitos e teorias, abordou questões filosóficas de maneira leve e instigante. O auditório lotado do MIS foi só sorrisos e sem dúvida o Encontro encerrou suas atividades com chave de ouro. Agnaldo deve ter deixado muita gente com vontade de estudar arquitetura só para poder ter o prazer de assistir suas aulas.

Sobre 7 Fotografia

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