Nacionalidade: vândala

Hoje, 17 de junho, em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e várias outras cidades no país e no mundo, o povo vai para rua lutar por um transporte público mais eficiente. Mais do que isso, o povo vai para rua lutar por menos violência, pelo direito de ir e vir, por um país menos opressor, menos acomodado. Na última quinta feira, dia 13, fui para rua no quarto grande ato contra o aumento das passagens em São Paulo. Uma manifestação marcada pela violência da polícia de uma forma descabida e extrema. Escrevi esse relato junto com Gabriela Alcântara (grande amiga e jornalista de recife que vive em SP) sobre o que vivemos. Um relato de momentos tristes e revoltantes, mas mais do que isso, um relato sobre uma vontade imensa de mudar toda essa sujeira a que estamos sujeitas.

Dedico esse post, um pouco diferente do que normalmente trazemos ao blog, mas o momento pede, a todos que foram paras ruas, a todos que se feriram e foram presos injustamente. Também dedico às pessoas que, de alguma forma, começaram a pensar no país de um jeito mais coletivo. Os protestos pelo brasil e mundo afora estão tomando uma proporção gigante e acaba sendo inevitável temer o rumo que as coisas estão tomando. Espero que essa seja uma mobilização na qual a força de transformação social seja mais forte do que os interesses políticos. Espero muito que o Brasil abra os olhos e enxergue com clareza esse momento tão importante que estamos vivendo.

Vamos para rua! Com cuidado, atenção e alegria. Ajude também de casa! Não vamos deixar que o medo nos trave, essa é exatamente a intenção do governo e da polícia. Vamos em frente!!!

São Paulo, 13 de junho de 2013.

“Tu é de Recife. Cuidado, não se arrisca por uma causa que não é tua”. Ouvi essa frase ontem, em frente ao Teatro Municipal e ela não saiu da minha cabeça até agora.

Estou em São Paulo de férias. Período em que normalmente eu desconecto um pouco da vida real, esqueço os jornais, internet, uma maneira de respirar ares menos densos do que os que a rotina de um trabalho em jornal me faz respirar. Na última terça feira, caminhando pela Av. Paulista, vi um pedacinho do ato contra o aumento das passagens. Muita gente já concentrada, muita gente chegando, nenhuma confusão. Só observei de longe e segui meu caminho. Mas aí começaram a chegar muitos, muitos carros da polícia. Foi inevitável pensar: vai dar merda.

Na quarta feira vi a merda estampada nas capas dos jornais, na boca de Jabor, no editorial da Folha de São Paulo e fiquei sabendo do ato marcado para quinta feira. Confesso que fiquei um pouco sem ânimo de ir, trabalho o ano inteiro cobrindo protestos e em um primeiro momento, não fazia o menor sentido ir para um protesto nas minhas férias. Essa ideia foi embora no mesmo instante em que resolvi dar uma lida mais a fundo sobre o que estava acontecendo aqui em SP. E percebi que indignação e revolta não tiram férias. Fui pro Teatro Municipal sozinha, com uma câmera de filme, pensando a princípio em só acompanhar a concentração, porque tinha torcido o tornozelo há menos de 2 semanas e ainda tava difícil andar. Peguei um ônibus, paguei os R$3,20 e marquei de encontrar Gabriela Alcântara, grande amiga minha de Recife, que mora aqui em São Paulo. Esse texto foi escrito a quatro mãos por mim e Gabi. Mais do que um relato do que vivemos é um desabafo e também um pedido: abram os olhos! Já está em tempo.

Cheguei no Teatro Municipal e vi uma multidão, mais do que uma multidão, um sentimento muito forte presente em cada pessoa ali de uma necessidade urgente de ver esse país diferente. A emoção tomou conta. E ao contrário do que ouvi, essa causa é minha SIM. Morar em Recife não me afasta dessa luta porque essa não é a luta de uma cidade, é a luta de um povo, de um país. Eu faço parte disso e não teria como não sair pelas ruas gritando “Vem, vem pra rua vem! Contra o aumento”.

Lost Art

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Seguimos em caminhada, eu e Gabi, nunca havíamos sentido aquilo, em nenhuma das manifestações que já fomos – talvez um pouco no Ocupe Estelita – era um mar de gente, lutando pelos direitos de sua cidade e seu país (se você não entendeu ainda, não é sobre 20 centavos). Nos olhávamos o tempo todo e dividíamos esse sentimento. Caminhamos por várias ruas, cantando, sorrindo e mais do que isso, acreditando que é possível mudar esse país. Chegando perto da Rua Maria Antônia, percebemos o clima mudando. Uma das manifestantes que passava ao lado de Gabi falou para a amiga: “fica junto de mim, aqui é perigoso, eles podem encurralar a gente”. Logo em seguida, uma jornalista conversou sorridente conosco e nos deu aquelas máscaras brancas de hospital. “Vou ser presa se me pegarem com isso”, disse ela, com um sorriso temeroso. Gabi respondeu com um “vai nada!” e com um sorriso no rosto. Para mim a energia tava bonita e tudo seguindo tão tranquilamente que mesmo sabendo de como tinha sido o último ato, não cabia imaginar um possível confronto. Eu e Gabi nos sentimos vivas como nunca ali e o medo, mesmo existindo, não deixou a gente recuar. Mas, minutos depois, entendemos perfeitamente o que aquela jornalista dizia.

Entre aqueles gritos ensaiados em boa parte dos atos Brasil afora, um se fazia extremamente vivo: caminhando, gritávamos “SEM VIOLÊNCIA!”, enquanto as pessoas nos prédios apoiavam e tiravam fotos. Ao entrar na Maria Antônia a resposta foi outra: dessa vez, da PM. Tiros de balas de borracha, bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo. A máscara, entregue por uma estranha gentil, nos salvara pela primeira vez. Quem acompanhou sabe: mesmo os vândalos, que sempre estão presentes nesses atos, estavam contidos pela multidão. A ação foi provocada, de forma injustificável, pela POLÍCIA.

Lost Art

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Depois desse primeiro ataque o ato se dividiu, pequenos grupos seguiram por ruas diferentes, tentando fugir dos ataques. Seguimos com um grupo de cerca de 300 pessoas para Rua Augusta. Assustadas, com os olhos ardendo muito, o coração descompassado mas com a certeza que não seríamos capaz de recuar naquele momento. Nem eu, nem Gabi falamos “vamos embora”. Éramos poucos, caminhávamos pelas ruas com o grito “SEM VIOLÊNCIA” ainda mais forte procurando caminhos onde a polícia NÃO estava. Não queríamos confronto, caminhávamos pacificamente. Na Consolação, onde esperávamos sentadas o resto dos manifestantes chegarem para seguir com a passeata, ouvimos mais uma vez o barulho das bombas: a polícia estava perto. Muitos correram, nós ficamos junto com mais um pequeno grupo, espremidos contra a grade de um edifício, tentando nos proteger. O Choque fechou a rua (perto da Bela Cintra, imagino) e começou a jogar bomba de gás lacrimogêneo. Estávamos parados e recebendo na cara o gás. Não enxergávamos mais nada, só ouvíamos os gritos, as bombas estourando, o barulho dos tiros, e sem saber bem para onde estávamos indo, corremos, tossindo muito, completamente tontas, sem ar e em pânico. Na fuga, Gabi viu uma jovem, talvez uma estagiária, chorando muito. O fotógrafo que estava com ela tentava acalmá-la e pedia que ela ficasse junto dele. Todos estavam com medo. Nunca vi vândalo com medo, mas éramos os vândalos. Aquele momento foi por um instante o mais apavorante que vivi na vida. Por um momento, porque depois piorou.

Agora éramos no máximo 30 pessoas, desnorteadas, assustadas, caminhando sem saber para onde, algumas choravam, outras tossiam sem parar, fomos ajudadas por um grupo ao nosso lado que tinha uma garrafa de vinagre (a tal arma tão perigosa), para atenuar o efeito do gás. Até que o Choque nos encurralou, mais uma vez, e ainda mais agressivos. Fecharam a rua, não deixaram ninguém sair ou entrar. Isso mesmo, 30 pessoas encurraladas com a mão para cima pedindo “parem de jogar gás, por favor, parem!!”. Sumariamente ignoradas, claro. O comandante deles, abusando descaradamente do poder, demonstrou um completo descontrole emocional e um ódio, ÓDIO completo por nós que estávamos ali, desarmados, acuados. Mandou aos gritos a gente sentar no chão, rastejar até onde eles queriam que ficássemos e colocar a mão na cabeça, assim, como bandidos. Ele não parava de gritar, xingar, humilhar, sem o menor pudor, enquanto fotógrafos registravam tudo do outro lado da rua e várias pessoas no prédio da frente gritavam sem parar “abuso de poder!” “covardes” “polícia nojenta” “vergonha do país”. Na calçada, pessoas eram proibidas de continuar seu caminho para casa, por um outro policial que os ameaçava.

Lost Art

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Até agora conduzi esse texto intercalando partes do meu depoimento e do de Gabi. Mas vou reproduzir na íntegra umas palavras de Gabi, porque tem sentimento que não dá para editar.

Naquele momento, muitas coisas passaram pela minha cabeça. A primeira, a oração de São Jorge. A segunda, a de que os camburões do Choque chegavam à cena, e que poderíamos ser levados por eles, pelo simples ato de estar na rua lutando pelos nossos direitos. A terceira, de que eu estava na maior cidade do Brasil e me sentia em um noticiário sobre protestos no exterior, sendo privada da minha liberdade de expressão e tratada como escória. Em seguida, lembrei da minha família, do meu namorado, dos meus avós, de como eles se sentiriam se eu fosse presa (e talvez até torturada). Com a cabeça de Pri encostada nas minhas costas, tudo o que eu fazia era chorar e cantar baixinho, enquanto tudo isso ia e vinha, junto com a vontade de vomitar.

Ali, eu senti o maior medo da minha vida. Sentada no chão, mãos na cabeça como uma criminosa, com falta de ar, ouvindo o choro baixinho da menina que tava do meu lado, que devia ter no máximo 18 anos e vendo pelo canto dos olhos, 1, 2, 3 camburões passando devagar na nossa frente. Me vi dentro de um deles. Me vi nas mãos daqueles policiais completamente insanos. Me vi sem saber o que poderia acontecer comigo, com Gabi e com quem estava do meu lado.

Talvez por perceberem que os moradores dos prédios poderiam testemunhar a nosso favor, o batalhão nos “liberou”, mas não sem antes fazer mais um terrorismo: aos gritos de “sai daqui correndo, corre vagabundo, corre” e nós, os vagabundos, correndo, como se fossemos bandidos fugindo, sem saber ao certo para onde ir, já que no final da rua o Choque ainda estava lá com armas em punho. Não bastasse tudo isso, como estímulo para a nossa fuga, o choque ainda jogou umas 4 ou 5 bombas de gás na nossa frente. Tão na nossa frente que cheguei a pisar em uma delas. Entramos em um bar, ao lado da Peixoto. Lá dentro, mais relatos, de manifestantes e não manifestantes, sobre a violência dos policiais. Na televisão, coberturas ao vivo mostravam imagens de uma São Paulo sitiada. Eu e Gabi não conseguíamos falar nada. Era impossível dizer qualquer coisa ali… Olhávamos uma para outra em silêncio. Era extremamente difícil crer que aquilo era verdade, que acabávamos de ser vítimas de uma polícia que condenava um direito extremamente simples: a liberdade de expressão. Liberdade que fundamentou aquele ato, que luta por direitos que se estenderiam também àqueles policiais e suas famílias, que provavelmente moram no subúrbio e também sofrem com os abusos dessa cidade.

Quinta feira, dia 13 de junho de 2013 foi um dia difícil. Mas muito importante.

Acordei com uma ressaca social sem igual. O gosto amargo do gás se foi, mas ficou o gosto amargo da revolta, da raiva que está no coração. Mas também me sinto um pouco mais feliz em ter visto tanta gente mobilizada, acordada pro mundo, acreditando que é possível sim mudar esse país. Eu e Gabi pensamos muito em Recife ontem. Continuamos pensando na verdade, no país inteiro. Em como muita gente anda com os olhos fechados pro mundo, com o gás da acomodação impedindo de ver, de reagir… Ao contrário do lacrimogêneo, o gás da acomodação deixa sequelas graves, e o vinagre não atenua os efeitos. Fui pro Teatro Municipal com minha câmera fotográfica com a intenção de fotografar. Mas estando ali não tinha muita escolha, a intenção se tornou fazer parte, estar junto, gritar junto, atuar junto. Eu ali era personagem da matéria, encurralada, correndo com medo de não sobreviver, não, eu não era repórter fotográfica ali, não cabia para mim ser, mais, não quis ser.

Encerro esse nosso texto coletivo afirmando que sim, essa causa É minha. Essa causa vai muito além dos 20 centavos na passagem. Essa causa deveria ser de muito mais gente do país todo. Hoje consigo respirar um pouco menos doída e digo que nunca vivi algo tão apavorante e absurdo na minha vida. mas valeu a pena. Hoje posso dizer que entendo muito mais sobre mim, sobre o meu país, sobre o que eu espero dele e sobre o que depende de mim para ele mudar. E faço do sentimento de Gabi também o meu:

Apesar do susto e da preocupação causada em amigos e familiares, meu amor por São Paulo não diminuiu. Aumentou, assim como a vontade de luta (acho que minha família vai ter um treco ao ler isso). Porque aqui caminhei junto de milhares de pessoas que não estão mais adormecidas. Que saíram do Facebook, deixaram a novela de lado por uma noite, e foram às ruas. “Cidade muda não muda”, dizia um dos cartazes. E o Brasil precisa se erguer. A luta agora, mais do que nunca, não é sobre 20 centavos, é sobre um País que precisa ser livre, sair de vez de 1968. A Avenida Paulista e as demais ruas de São Paulo precisam, sim, ser retomadas. Pelo povo.”

Sobre Priscilla Buhr

Fotógrafa, Recife
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Uma resposta para Nacionalidade: vândala

  1. Marco Pimentel disse:

    Policia forte eh apenas prova de governo covarde.

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