Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Aryella Lira

Ser professor é aprender. É lidar com gente o dia todo, numa constante e fervilhante troca de ideias e práticas. Amo ser professora. E conhecer trabalhos como o de Aryella Lira tão de perto e em processo, partilhar com ela das coisas que a move, me faz amar ainda mais.

Ary é minha aluna, está indo para o 4o período do Bacharelado em Fotografia lá da AESO. Tem um brilho nos olhos e uma vontade carregada em tudo o que faz, que só vendo! Além de uma competência (técnica e poética) conferida facilmente no flickr dela. Essa foto, que eu olharia para sempre e ainda não mostrei, faz parte de um trabalho extremamente sensível, chamado Um Duo de Sensações, que ela descreve como “imagens que traduzem o sensacionismo no feminino, a partir dos extremos Dor e Alegria, e a junção desses dois sentimentos em um só congelamento. A primeira imagem representa a alegria, a segunda o duo dos sentimentos. A terceira, somente a dor”. Eu trouxe aqui a segunda, aquela da mistura, do duo propriamente dito. Para mim, esta imagem sozinha já é um mundo. Então, lá vai: a fotógrafa recomenda que se veja a foto ouvindo a faixa de abertura do disco “Minas”, de Milton Nascimento, de 1975. E eu recomendo também!

Junção ou Duo | Aryella Lira

Junção ou Duo | Aryella Lira

No centro da foto, uma mulher roda. Gira em volta de um eixo, como num carrossel. Gira, que me deixa tonta. Gira, que me dá náuseas. Ao mesmo tempo em que sinto um prazer inexplicável, liberdade, vento na cara, no corpo. Entrega. Mas uma entrega desfocada e em preto e branco. Ser mulher. Como cantaria Caetano, “Não me venha falar na malícia de toda mulher. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Não venha me falar. Essa foto é uma tradução do ser mulher.

Aryella diz: “Na corrente, e nas cordas em nós: feridas, agonias e tristezas. ‘Riu e também posso chorar…’ no mesmo instante…aqui, se chama êxtase”. Eu chamaria embriaguez. Sabe quando crianças passam por aquela fase de girar sozinhas? Giram, giram, giram, e saem andando bêbadas por aí? Pronto. Algumas vomitam, outras tropeçam e caem. Mas todas levam um sorriso gostoso, uma vontade de voar, um prazer inexplicável, e repetem: “de novo, de novo!”. Essa foto é uma lapada, daquelas que te lembram de todas as cachaças que você já tomou na vida (e jurou que pararia de beber) e do inexplicável desejo que rapidamente volta de tomar todas de novo.

Essa foto é forte, é pra tomar virando, não tem golinhos. Tem correntes, firmes, fortes e em foco, que sempre nos amarram, nos prende, nos mantém à força no eixo. Quantas amarras! A foto tem tomates, rompidos, vermelhos, molhados. Ela cheira a sangue com alfazema. Ela tem sabor de doce com amargo. Ela faz a gente respirar fundo e, quanto mais a gente solta o ar, mas ele parece que se enfia dentro do peito.

A fotógrafa me diz que fez o trabalho na época em que as polaridades de alegria e tristeza dentro dela estavam muito vivas, e usou de Fernando Pessoa como inspiração. A foto nos reviva também as nossas próprias polaridades. Ela dialoga. Ela conversa em velocidade baixa, pouco foco e sobreposições. É um devaneio, uma alucinação. Mas tão, tão real.

A obra completa, que é um tríptico, foi publicada na UNA Revista Azul. Infelizmente, o trabalho ainda não está disponível online. Vamos ficar no aguardo. Tenho certeza de que ainda veremos muita coisa de Aryella pelo mundo.

Sobre bellavalle

Fotógrafa, pesquisadora, professora da UFPB, mestre pela PUC/SP, doutoranda pela UFPE e amante da vida.
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2 respostas para Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Aryella Lira

  1. Aryella Lira disse:

    Presente!!!

  2. linda! belo trabalho das duas!!! ❤

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