Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Herbert Bayer

Herbert Bayer

Herbert Bayer

cabelos, solebac
e testa, atset e
e nariz, ziran e
e boca, acob e
e queixo, oxieuq e
e pescoço, oçocsep e
e peito, otiep e
e umbigo, ogibmu e
e pênis, sinêp e
e mão, oãm e
e até lá embaixo.

alguém já se deu conta do absurdo que é um espelho?

Flavio Cafiero

15 dias. A sala da casa da minha irmã. Um pôster na parede. O autorretrato de Herbert Bayer. Sempre antes de dormir. Sempre assim que acordava. Envolta em uma atmosfera de perturbação implícita, meu olhar penetrava nessa imagem e me desconectava de tudo. Só o corpo, como objeto imerso nele mesmo, suspenso, fragmentado, me questionando, me revirando e me paralisando, como se o tempo se desprendesse do instante.

Em um primeiro momento, essa fotografia de Herbert Bayer me fascinou por todo o seu contexto histórico e apelo estético. Bayer era fotógrafo e pintor, nascido na Áustria e fez parte da Bauhaus, escola de design, artes plásticas e arquitetura de vanguarda que funcionou entre 1919 e 1933 na Alemanha e foi uma das maiores e mais importantes expressões do modernismo na área. O grande ponto forte de seu trabalho em fotografia são as montagens, com forte influência do surrealismo, que brincam com perspectivas, desconstruindo o corpo, objetos, mas, muito além disso, desconstruindo a forma como olhamos e sentimos. Esse autorretrato foi produzido por Bayer em 1932 (!) e se tornou um dos símbolos da escola Bauhaus.

Aos pouco, a minha fascinação por aquela imagem foi ganhando proporções mais densas e perturbadoras. Ficava algumas horas, deitada, antes de dormir principalmente, olhando aquele corpo recortado e pensando no meu próprio corpo, na minha própria fragmentação. Sentia como se minha estrutura corporal pendesse para dentro, se deslocando, criando uma nova forma, um novo sentimento, uma nova percepção de si, no outro, como em um espelho distorcido.

Por um acaso, nessa mesma época que estava em São Paulo e fui atingida e marcada por essa fotografia Bayer, visitei a exposição (absurdamente incrível) “Bauhaus.Foto.Filme” no Sesc Pinheiros. Lembro que passei, junto com Val Lima, algumas horas imersa naquelas obras e o coração vibrava. Chegava a ser chocante se deparar com tamanha vanguarda na produção daqueles professores e alunos, ainda mais sabendo que tudo foi feito e pensado no início do século XX. Dentro daquele universo de obras incríveis, estava o autorretrato de Bayer. E, inexplicavelmente, não fui capaz de olhar naqueles olhos tensos. Era como se ali, o meu corpo não aguentasse ser cortado, como se apenas na sala da casa da minha irmã, o meu corpo reagisse ao grito daqueles olhos. E fiquei ali, respirando fundo, de olhos fechados, procurando uma forma possível de encontrar Bayer. Não pude, não ali. Mas nos encontramos à noite, na sala da casa da minha irmã e mais uma vez, olhei para sempre o seu e o meu pedaço de dúvidas.

Sobre Priscilla Buhr

Fotógrafa, Recife
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Uma resposta para Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Herbert Bayer

  1. que demais!
    acho essa imagem ótima, e essa definição de captar as coisas subjetivamente..

    beijos, G.

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