Diário de Bordo – Paraty em Foco 2013: Vivemos uma era dos extremos

A convite do 7, a professora e contadora de histórias, Conceição Pires topou abrir um pouco as impressões que a tomaram durante o Paraty em Foco deste ano. No texto abaixo, ela nos leva num breve passeio sobre os entre-lugares da fotografia contemporânea, os Extremos que o PEF percorreu.

Por Conceição Pires*

Extremos – o derradeiro. Sebastião Salgado, em seu último projeto, explorou os extremos como o começo do mundo, tal qual proposto no livro bíblico Gênesis. Partiu dos entre-lugares visitados no “Exodus” para explorar esses locais onde tudo parece que ainda está por vir. Em ambos projetos nos deparamos não mais com lugares e pessoas fixas e estáticas. A noção básica é de movimento, mudança. Entre-lugares, entre-imagens. Fotografia/movimento, fotografia em movimento, fotografia em mudança. Isso parece ser o que singulariza a fotografia contemporânea: ela está em movimento e nesse embalo redefine continuamente os extremos.

Marcha | Cia de Foto

Marcha | Cia de Foto

Agora | Cia de Foto

Agora | Cia de Foto

Talvez isso explique a opção por ter esse tema “Extremos” como propulsor das discussões que se desenrolaram no Paraty em Foco. Confesso que não assisti a todas entrevistas, mas das que pude presenciar me encantou a astúcia com que a Cia de Foto soube explorar esse tema do movimento e dos extremos. No vídeo “Marcha” e no projeto “Agora” as imagens projetadas examinam o movimento cotidiano do ir e vir, gerando entre-lugares, entre-imagens, ou lugares onde a imagem como fotografia ainda não se realizou, mas ainda aspira vir a ser. Onde a fotografia se encontra ainda em estado de potencialidade.

Mídia Ninja

Mídia Ninja

A fotografia em movimento contrai os extremos colocados tradicionalmente entre a imagem móvel e imóvel, ao mesmo tempo em que expande a compreensão sobre a ideia de autoria/autonomia. Na “era dos extremos” a fotografia não busca um espectador acomodado nas confortáveis poltronas em busca de experiências digestivas banais. Ela é participativa, intrusiva, quase invasiva como propõe o pessoal da Mídia Ninja, nos obrigando a repensar não só conceitos clássicos como democracia e liberdade, mas noções como ação e informação.

Para informar/formar cidadãos, sons e fotografias se unem dando sentido e dramaticidade ao que se saboreia nas ruas tão celestialmente infernais do Brasil. Sonoridades variadas deram sentido, e até mesmo formato, às experiências extremizadas de violência expostas nos documentários produzidos por Pep Bonet e Jose Bautista sobre os refugiados do Zimbabue e no exercício de dramatizar as vidas nas sombras em Honduras e Serra Leoa, ambos impulsionando sentimentos extremados de melancolia e revolta.

Li Zhensheng

Li Zhensheng

E quando a utopia se torna em pesadelo? Essa transição, não tão lenta mas nem por isso menos dolorosa, foi acompanhada pelo fotógrafo chinês Li Zhensheng, definido por todos, pra mim de forma incorreta, como o guardião da memória (prefiro pensá-lo como o socializador de memórias). Ao assistir a entrevista de Li conclui que o sujeito contemporâneo, que habita os entre-lugares, não é o rótulo que ele carrega.

Lourdes Grobet

Lourdes Grobet

Derrubando rótulos também, a enigmática fotógrafa Lourdes Grobet vasculhou o sujeito que reside atrás das “máscaras” da tradição mexicana; aquele que se dá a ver nas entrelinhas do seu habitar e de suas subjetividades cotidianas. No desvelar dessas “máscaras”, Lourdes explorou os múltiplos sujeitos que preenchem esses espaços. Extremos: o derradeiro e, ao mesmo tempo, onde outros começos se tornam possíveis.

Pra todos nós, o enigma que se configura está em como tratar daquilo que está entre o fim e o começo, em processo, em construção. Não se trata de responder às questões, absolutamente obsoletas, sobre pra que serve a fotografia, mas em experienciar os extremos em que vivemos.

Tcharafna | Gui Mohallem

Tcharafna | Gui Mohallem

Extremos também nos afetos que são trazidos à tona no “Welcome Home” de Gui Mohallem, discutido ao lado de seu novo projeto “Tcharafna“, que fustiga no espectador novas experiências sensoriais e subjetivas. Afetos híbridos, como híbrida é a sua genealogia buscada na volta a um suposto lar que nunca foi, mas que se torna ao ser identificado.

Purismos, antes sancionados, se quebram em nossa era dos extremos. Verdade, ficção, linearidades temporais, espacialidades…tudo isso, como formas absolutas de compreensão do vivido, despenca na fotografia contemporânea. Fotografia que se deixa atravessar pelas influências de diferentes dispositivos imagéticos para alternar temporalidades, espacialidades e narrativas, se despojando, assim, de limites, confrontando os espectadores a dispor de formas múltiplas de percepção e a experienciar, de modo individual e/ou coletivo, essas transformações e a vislumbrar as potencialidades nos extremos.

Conceição é professora de História da Unirio, e pesquisadora da Rê Bordosa. Pernambucana, está entre os milhares de “paraíbas” que moram no Rio de Janeiro. Conhece as terras cariocas como ninguém, em meio às corridas de meia-maratona do elevado do Joá ao aterro do Flamengo e as tantas conversas com os moradores que ajudam a alimentar as histórias que ela conta. Não sabe tirar fotografias, segundo ela porque não enxerga direito, mas sabe sê-las.

Sobre 7 Fotografia

Fotografia estudos discussões
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