Podia ficar olhando pra sempre Candomblé, de José Medeiros

Candomblé | Foto José Medeiros

Candomblé | Foto José Medeiros

 

Na última quarta-feira foi o dia da Consciência Negra e nada mais pertinente para olhando pra sempre de hoje do que falar sobre o Candomblé.

Ainda ontem, assistindo um programa na televisão, ouvi uma escritora falar de uma lei dos tempos do império que dizia sobre os negros da província. Caso eles quisessem exercer uma função de destaque na sociedade, era necessário pedir uma dispensa pela falta da cor, ou seja, pedir ao imperador uma declaração que os permitisse trabalhar em alguma função importante apesar de serem negros.

Aceitar que vivemos numa sociedade racista é muito indigesto.

Por isso,  falar sobre o ministro Joaquim Barbosa também se faz importante. Não é meu objetivo aqui polemizar sobre o caráter dele, mas gostaria de chamar a atenção que o fato dele ser negro aparece antes de qualquer coisa, ora como um exemplo, ora como insolência, porque ainda hoje, as entrelinhas nos falam da audácia dos negros em “serem gente”.

Trago todas essas questões primeiro por ser negra, e sonhar com o dia em que as pessoas não serão separadas por raça, e depois porque a foto de hoje fez parte de um trabalho cheio de polêmica.

Em 1951, a revista O Cruzeiro publicou uma reportagem intitulada As noivas dos deuses sanguinários, em resposta a uma outra matéria da Paris Match cujo título era Les Possédées de Bahia, ambas sobre a religião de matriz africana no estado baiano.

Segundo o livro Candomblé, publicado pelo IMS, a reportagem francesa foi sensacionalista e preconceituosa, despertando forte reação entre alguns estudiosos do Candomblé, enquanto a da revista brasileira foi um sucesso de público, mesmo provocando reações adversas entre os estudiosos da religião.

Não vou aqui me aprofundar nessas questões, para quem quiser saber mais há um livro chamado Imagens do Sagrado, de Fernando de Tacca, que fala sobre essa querela.

Quero dizer das minhas impressões, de mulher negra e curiosa sobre o povo de santo. Enquanto via o livro do IMS, que são as imagens feitas por José Medeiros para O Cruzeiro, fiquei me perguntando onde está a voz do povo dos terreiros? Onde está a voz do povo negro? Tive a sensação muito clara de que o livro foi feito por brancos e para brancos.

Se você nunca viveu na pele o racismo, faça uma pausa agora e leia o texto de Luh de Souza e Francisco Antero publicado no site Pragmatismo Político.

Fiquei me perguntando porque usar apenas a autoridade de um branco, o francês Roger Bastide, grande pesquisador do Candomblé, para falar sobre a polêmica gerada pelas as fotos sobre os rituais de  iniciação? Por que falar apenas das sanções sofridas pelo terreiro, pela mãe de santo e pelas moças iniciadas?

Mas por hora, deixemos as polêmicas de lado e olhemos para as fotografias.

As fotos de Medeiros falam por si e para mim elas dão voz a uma tradição, a uma raça, a um povo, a uma religião. Falam de rituais, de escolhas, de amor, de sangue, dos deuses que honram os humanos ao habitar seus corpos. Falam de uma maneira de celebrar a vida através da dança, da música, das comidas, das folhas e da oração. Falam também do racismo, do preconceito para com as religiões de matriz africana, da escravidão (e aqui não posso deixar de pensar nas pessoas que se comovem mais com o holocausto do que com o genocídio sofrido pelos negros durante o período de escravidão).

Por tudo isso, posso olhar para sempre para todas as imagens desse trabalho e entender o quanto a fotografia pode ser usada da forma que as pessoas acharem mais adequada.

Àse!

 

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