Plataforma – X REAL

Por Chico Peixoto*

A nudez como sinônimo de liberdade e autoconhecimento desde sempre inspira pessoas a desenvolver intervenções que de alguma forma contribuam para quebrar paradigmas e passar a mensagem adiante. No caso específico dos padrões de beleza, trabalhos como The Nu Project, do norte-americano Matt Blum; Apartamento 302, retratado por Jorge Bispo; e as Desnudas de Cléo Santana são exemplos que enriquecem a discussão, criticando a estética ideal das capas de revista e outdoors, e valorizando tudo aquilo que as mulheres são induzidas a ignorar ou repudiar graças ao bombardeio psicológico da industria da moda e dos cosméticos.

X REAL | Marília e Tainá Barrionuevo

X REAL | Marília e Tainá Barrionuevo

X REAL | Marília e Tainá Barrionuevo

X REAL | Marília e Tainá Barrionuevo

Em meio a essas e outras iniciativas do gênero o projeto X REAL, desenvolvido pela curitibana Camila Cornelsen, de certa forma chama atenção. Não exatamente pelo discurso, mas sim pelo modo como ele é propagado, a começar pelo conteúdo multimídia: além de fotografias a autora cria GIFs, produz vídeos, transcreve depoimentos, incentiva autorretratos e lista músicas sugeridas pelas modelos. Essa “salada” de suportes naturalmente proporciona diferentes experiências e permite uma percepção mais completa da pessoa apresentada.

X REAL | Marília e Tainá Barrionuevo

X REAL | Marília e Tainá Barrionuevo

O trabalho é descrito como “um blog extremamente pessoal” e relata que é parte importante do processo as modelos serem familiarizadas com as locações; os ensaios terem boa dose espontaneidade; as fotos serem publicadas mediante aprovação; o diálogo estar sempre presente. Um olhar mais atento, porém, entende que a exposição não é somente das mulheres à frente da lente. O X REAL é bastante íntimo também para Camila, que se reserva ao direito de não publicar o material caso as fotos autorizadas não lhe agradem; realizar ensaios somente quando a agenda corrida permite; incluir música, vídeos, gatos e estilo vintage ao projeto. Como seu portfolio profissional e um artigo escrito por ela sugerem, o que uma fotógrafa filha de fotógrafo, amante do digital e do analógico, incomodada com os atuais padrões femininos, vocalista e tecladista de uma banda de indie rock e dona de um felino peludo chamado bolinha poderia querer? Por razões óbvias, retratar o verdadeiro universo feminino para a Camila é retratar o próprio universo.

X REAL | Stella Oggionni

X REAL | Stella Oggionni

X REAL | Stella Oggionni

X REAL | Stella Oggionni

OK, todo ato fotográfico interfere, em maior ou menor nível, na consciência de fotógrafo e fotografado, e essa interferência tende a ser mais clara na medida em que as duas partes aumentam seu nível de interação, conhecem um ao outro. Em muitos projetos que abordam o nu como instrumento de autoafirmação (na verdade, em quase todo projeto fotográfico) as atenções se voltam para o fotografado – ele e apenas ele é trabalho como “objeto da experiência”. Em outros projetos do gênero, no entanto, o fotógrafo, conscientemente ou não, põe-se como outra parte evidente do processo; ele quer ser posto à prova, fazer-se presente de alguma forma, quer sentir na pele a experiência. Acredito que o X REAL pertence a esse segundo grupo.

*Chico Peixoto é formado em Jornalismo e pós-graduado em Fotografia Digital. Atua profissionalmente com fotografia desde 2006, após experiências com produção de textos para assessoria de imprensa. Em 2011 ingressou no LeiaJá.com como repórter fotográfico e hoje exerce a função de subeditor de imagem do portal de notícias, sem abandonar o trabalho de rua. Acredita que fotografia é, sobretudo, propósito.

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Convocatória para Projeção Mesa7 2013

Imagens selecionadas na convocatória de 2012. Créditos no sentido horário (começando da esquerda superior): Larissa Pinho Alves | Luciana Freire | Juliana Nakatani | Mateus Sá

Imagens selecionadas na convocatória de 2012. Créditos no sentido horário (começando da esquerda superior): Larissa Pinho Alves | Luciana Freire | Juliana Nakatani | Mateus Sá

O 7Fotografia abre a convocatória para seleção de trabalhos fotográficos, em vídeo e multimídia, para projeção no Mesa7, evento organizado pelo próprio coletivo na cidade do Recife/PE, que este ano se realizará em dezembro. 

REGULAMENTO                                                                                              

Esta convocatória tem por objetivo selecionar 10 trabalhos fotográficos para serem exibidos em Projeção durante a 3ª edição do evento Mesa7, que ocorrerá em dezembro, na cidade do Recife. Os trabalhos apresentados serão analisados e selecionados pelo coletivo 7Fotografia.

  1. Cada participante poderá enviar até dois trabalhos, podendo ser contemplado com ambos.
  2. Não há temática definida, mas sugerimos que os trabalhos enviados possuam coerência entre as imagens.
  3. Poderão participar desta convocatória fotógrafos, coletivos e artistas brasileiros e estrangeiros, residentes ou não no Brasil.
  4. Só serão aceitos trabalhos enviados em formato de vídeo entre 01 e 04 minutos de duração, incluindo som, música, créditos, legendas e qualquer outro elemento que faça parte da obra (não aceitaremos arquivos separados).
  5. Os vídeos deverão ser salvos em formato MP4 ou MOV, com resolução/formato de tela mínimo de 1024 x 768 pixels.
  6. O link do vídeo, no Youtube ou Vimeo, deverá ser enviado por e-mail, e caso seja necessário o uso de senha para acesso ao vídeo, informar também.
  7. Os inscritos deverão enviar também: 01 imagem do trabalho em jpg, biografia do autor e informações sobre o ensaio ou conjunto de fotos.
  8. As inscrições serão realizadas única e exclusivamente através do e-mail: setefotografia@gmail.com
  9. O ato de inscrição e envio de material consistirá automaticamente na concordância dos termos desta convocatória, o que implica a autorização do uso das imagens para divulgação em mídia impressa ou eletrônica, exclusivamente para divulgação do evento.
  10. Ao se inscrever o candidato declara a plena autoria e responsabilidade pelas imagens enviadas, responsabilizando-se assim pela obra e por eventuais reivindicações de terceiros quanto aos direitos autorais e/ou uso de imagens e outros.

CRONOGRAMA

Inscrições: de 05 de novembro a 04 de dezembro (23h59m)

Resultado: o resultado será divulgado no blog do 7Fotografia e os selecionados serão comunicados por e-mail.

Informações: setefotografia@gmail.com

Facebook: http://www.facebook.com/setefotografia

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Autografia – Jul Sousa

Quem responde às perguntas do Autografia desta semana é Jul Sousa, artista visual brasiliense que vive em Maceió-AL.

O que você fotografa?

Passei muito tempo pensando o que responder, tentando me [re]descobrir e procurando “acertar” a resposta. Poderia responder que eu fotografo o que vejo, mas seria muito óbvio. Posso dizer que fotografo corpos, mas isso seria a resposta da próxima pergunta. Então, como admiradora de Bavcar (ele é fotógrafo e deficiente visual), acredito no sentir das coisas, não que eu precise tocá-las como Bavcar para isso. Mas creio num sentir na forma de pôr para fora imagens e emoções interiores. Fotografando, tento sentir o que se passa na atmosfera das coisas, desejar as paisagens, pessoas, para daí, então, provocar meus sentidos e tentar comunicar-me com os outros e comigo mesma, afinal, estou a me [re]descobrir e, como diria Bavcar: é preciso tentar existir por si mesmo.

Jul Sousa

Jul Sousa

O que você gosta de fotografar?

Além de fotografar o que sinto, três vertentes me chamam a atenção. Gosto de fotografar o abstrato — para fugir um pouco dessa coisa chata do mundo, o minimalismo que sempre me conduziu nas artes visuais e algo que eu gostaria de viver com mais frequência, algo que me cabe como um pulverizador do desconforto social — o nu. Seja erótico ou orgânico, quando fotografo corpos que vejo, a transparência somática liberta de qualquer “prisão”, isso me envolve de tal forma que, ao ver essa sinceridade desnuda no outro, acabo por me libertar também.

É como se essa “ausência de limites” entre mim e outra pessoa transcendesse o pensamento e eu pudesse apreciar e vivenciar (às vezes até mostrar) aquilo sem me preocupar com uma sociedade incomodada, que na maior parte das vezes associa a nudez ao prazer sexual. Inconscientemente ou conscientemente mesmo, acabo fundindo essas três vertentes em um só “corpo”.

Jul Sousa

Jul Sousa

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Jul Sousa é artista visual, nasceu em Brasília e reside em Maceió. Graduada em Comunicação Social, autora da exposição individual intitulada Febre, releitura da obra Fantasia e avesso, da escritora Arriete Vilela. Participou da Mostra de Trabalhos fotográficos durante o V Theoria, com videoarte Febre. Integra o Coletivo Vê, onde trabalha com imagens e iniciativas de difusão de conhecimento em artes visuais.

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Diário de Bordo – III Fórum Latino-Americano de Fotografia: Sociedade/Classes/Fotografia

O número 149 da Av. Paulista ficou um tanto esquizofrênico nos últimos dias, entre português, espanhol, portunhol, inglês, espanglês e outros quantos dialetos inventados para permitir a comunicação entre os participantes do III Fórum Latino-Americano de Fotografia, realizado de 16 a 20 de outubro, no prédio do Itaú Cultural, São Paulo.

Um time incrível de fotógrafos, curadores, editores, pesquisadores, amadores e profissionais da fotografia brasileira, uruguaia, paraguaia, mexicana, espanhola, chilena, argentina, peruana, boliviana, venezuelana, equatoriana, colombiana, dominicana, guatemalteca, e ainda, americana, francesa, russa e outras mais (porque com certeza estou deixando de citar algum país participante e por isso peço desculpas) estiveram circulando, conversando, debatendo, aprendendo, questionando-se, conhecendo-se, trocando contatos, informações, livros, dicas, dúvidas, sugestões e etc, etc, etc. Um clima gostoso de encontros, descobertas, vivências e aprendizado reinou durante os 04 dias em que se reuniram tantas nacionalidades diferentes baixo um mesmo mote: discutir a fotografia Latino-Americana.

III Fórum Latino-Americano | Divulgação

III Fórum Latino-Americano de Fotografia | Divulgação

Digo, com muita satisfação, que o clima deste Fórum foi um dos mais instigantes que já vivenciei em termos de eventos. Com atividades nos 03 horários, foi intenso e proveitoso, não havia lugar para cansaço, as atividades foram bem pensadas e distribuídas. Mesmo com um cronograma bem ocupado com workshop, leitura de portfólio, palestra/debate, entrevista, encontro de gestores, exposição e feira de livros, havia sempre espaço para uma boa conversa com um conhecido, ou para fazer novos contatos.

A curadoria do fórum, sob responsabilidade de Iatã Cannabrava (BRA) e Claudi Carreras (ESP), ambos diretores do Estúdio Madalena, foi muito feliz na composição da grade da programação do evento, as atividades foram construtivas e agregadoras, formadas por excelentes nomes da fotografia nacional e internacional, instigaram bons debates e a participação constante do público, para o qual devo dar um destaque especial. A plateia, em grande parte por estar formada por um público estrangeiro que estava na cidade em virtude do festival, manteve-se durante todos os dias bem ocupada e com a presença de nomes ilustres que intensificaram a troca de alto nível, levantando sempre questões muito pertinentes, fazendo colocações e comentários que possibilitavam o desdobramento das questões levantadas pelas mesas, feito que infelizmente nem sempre é alcançado neste tipo de evento.

Pedro Meyer (MEX) na platéia | III Fórum Latino-Americano de Fotografia | Divulgação

Pedro Meyer (MEX) na platéia | III Fórum Latino-Americano de Fotografia | Divulgação

Luis Weinstein (CHILE) na platéia | III Fórum Latino-Americano de Fotografia | Divulgação

Luis Weinstein (CHILE) na platéia | III Fórum Latino-Americano de Fotografia | Divulgação

Durante as 03 primeiras manhãs tivemos o Encontro de Gestores, sem dúvida um dos pontos altos desta edição do evento, onde diversos cases, de diferentes tipos, naturezas (festivais, coletivos, feiras de livros, editoras…) e países foram apresentando suas experiências, dificuldades e desafios na produção cultural em fotografia e artes visuais. Foi um momento extremamente enriquecedor, obviamente nós já sabemos que a luta é árdua, enfrentamos basicamente os mesmos tipos de dificuldades em todos os países da América Latina, especialmente no que diz respeito aos entraves de financiamento e captação de recursos, assim, as parcerias (públicas, privadas, com outros gestores e espaços de articulação alternativos, com o próprio público e etc) e projetos empreendedores que buscam outras formas de se estabelecer foram algumas das possíveis chaves levantadas. A formação de redes, um dos pontos mais abordados durante todo o Fórum, apresentou-se como a alternativa mais urgente. O próprio Fórum, em si mesmo, se apresenta muito claramente com essa finalidade e função.

Julieta Escardó (ARG), Juan José Estrada (GUA) e Tiago Santana (BRA) | III Fórum Latino-Americano de Fotografia | Divulgação

Julieta Escardó (ARG), Juan José Estrada (GUA) e Tiago Santana (BRA) | III Fórum Latino-Americano de Fotografia | Divulgação

Como dito pelos palestrantes da mesa de abertura, todos nós agentes da fotografia, precisamos entender que estamos falando de um campo de conhecimento que se insere num campo ainda maior: o da política cultural Brasileira e Latino-Americana. Assim, temos a responsabilidade de entender esse universo mais complexo de ação e o compromisso de pensarmos a construção desse espaço. É fundamental compreendermos o encadeamento das questões que envolvem a produção fotográfica, do micro ao macro, desde o fazer fotográfico em si, a todas as outras etapas que se seguem e que refletem direta ou indiretamente umas nas outras para o crescimento e disseminação da fotografia.

A primeira mesa então já nos alertava para a responsabilidade de realizarmos ações duradouras e de longo prazo para a construção de um campo cultural efetivamente produtivo e consolidado, enfatizando que precisamos parar com a cultura dos “eventos”, ocasionais, eventuais, pontuais, ações com começo, meio e fim, que se encerram sem deixar frutos.

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A Praia | Cássio Vasconcelos (BRA)

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The Dream Factory | Stefan Ruiz (USA)

Das muitas questões abordadas durante o Fórum, que trazia o tema: Sociedade/ Classes/ Fotografia, algumas temáticas povoaram com mais força os debates: identidade, consumo, estereótipos, tradição, representação e poder. Em perfeita consonância com a Exposição Fotonovelas, tão polêmica quanto instigante, que se propôs a mostrar uma outra vertente menos vista, um panorama social e econômico da crescente classe média latino-americana, retratada por ninguém menos que essa própria classe (o estrato social de onde vem a maior parte dos fotógrafos apresentados). A ousada intenção dos curadores, os próprios Claudi e Iatã, é contrapor a imagem dogmática de denúncia e pobreza que marcou a América Latina, apresentando trabalhos vigorosos de 25 artistas de vários pontos do continente, na tentativa de rascunhar um entendimento do processo de mudanças que vivemos, de entender de que lugar falamos e como queremos ser ouvidos. Um ponto de vista que rende muito pano pra manga…

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Cholita | Susana Raab (PERU)

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Chocolate on my jeans | Nicolás Wormull (CHILE)

Deste provocador e inquietante III Fórum Latino-Americano de Fotografia ficaram mais dúvidas e questionamentos do que verdadeiramente conclusões, uma pergunta sucedeu a outra, suscitando inúmeras outras questões e incertezas, sem esperar por respostas, nos estimulando a pensar:

– o que define a fotografia Latino-americana?

– há uma estética da fotografia latino-americana?

– há uma identidade comum a estes países?

– sabemos quem somos e como queremos ser vistos?

– quais os caminhos para uma maior integração entre os agentes da fotografia na América Latina?

– quais os desafios a essa unificação?

– qual o lugar da fotografia numa América Latina em pleno crescimento?

– qual imagem de América Latina queremos construir?

O Fórum, em sua terceira edição, se consolida como espaço de compartilhamento do saber, de intercâmbio, networking, articulação, de interação da Fotografia Latino-Americana, e propõe o desafio de percebermos essa integração como força política, cultural e econômica.

Workshop com Jorge Villacorta Chávez (PERU)| III Fórum Latino-Americano de Fotografia | Divulgação

Workshop com Jorge Villacorta Chávez (PERU)| III Fórum Latino-Americano de Fotografia | Divulgação

Leitura de Portfólio | III Fórum Latino-Americano de Fotografia | Divulgação

Leitura de Portfólio | III Fórum Latino-Americano de Fotografia | Divulgação

Admito ainda estar processando tudo o que vi, vivi, ouvi, entendi e não entendi deste Fórum. Levarei algum tempo para digerir suas informações (ainda bem, nada fast food, por favor!), esse é, na verdade, o maior legado deste fórum, o desafio de fazer pensar fora da caixa e além do umbigo, fazer com que tentemos nos situar e encontrar o nosso espaço num mundo tão complexo e controverso, tão cheio de identidades que ainda não se sabem traduzir, repleto de poderes, de tantos tipos, que não sabemos como nos posicionar e utilizá-los a nosso favor. Enquanto seres humanos, fotógrafos, produtores de imagens, pensadores, empreendedores, gestores, produtores e agentes de transformação temos papéis a cumprir, não há como negar, e um deles é o de pensar coletivamente a América Latina e o papel que desempenhamos a partir deste lugar.

P.S. O site do Fórum mantém um conteúdo super rico, com portfólios, entrevistas com autores, relatos das atividades do evento, artigos e muito mais. Vale a pena conferir.

Exposição Fotonovela: Sociedade/Classes/Fotografia
Itaú Cultural. Av. Paulista, 149. 3ª a 6ª, 9h/ 20h; sáb, e dom., 11h/ 20h. Grátis. Até 22/12.

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Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Hélia Scheppa

Um dia tive um sonho diferente de todos os sonhos. Sonhei que estava conversando comigo mesma, isso, duas de mim. Estávamos sentadas em um banco de cimento, na frente de uma casinha de paredes azuis. Parecia o sertão. Depois pareceu a minha própria casa. E, logo na sequência, virou uma enorme sala branca. Completamente branca, completamente vazia. Sem janelas, sem portas, sem saídas. Eu senti medo, e “eu” me acalmei sugerindo que eu e “eu”, juntas, pintássemos uma janela na parede e assim poderíamos passar.

Eu disse: você quer dizer fugir né?

E “eu” respondi: não. Nunca fugiremos. Vamos entrar.

Eu não entendia bem o que “eu” dizia. Mas tive vontade de pintar aquele branco, aquele frio. Com as mãos, eu comecei a tocar na parede e começou a sair dos meus dedos uma tinta azul brilhosa como nunca tinha visto.

“Eu”, então, começou a tocar aquela parede também. Mas daquelas mãos saía uma tinta amarela, quase dourada e que escorria por cima do eu que pintava. Esquecemos a janela e ficamos, eu e “eu”, pintando um lindo céu e um campo de girassóis.

E assim nós entramos. Completamente.

Como de costume, não lembrei imediatamente desse sonho logo que acordei. O dia passou, o trânsito chegou, as buzinas me deram de presente uma imensa enxaqueca e na volta pra casa, andando pela rua, fugindo do engarrafamento da Conde da Boa Vista, molhando o rosto com um chuvisco leve, me lembrei da tinta. Me lembrei do azul, do dourado. De mim e de mim. Me lembrei das minhas fugas diárias, das minhas janelas nunca puladas e assim fui caminhando para casa, ouvindo as buzinas e minha respiração.

Paisagens Oníricas | Hélia Scheppa

Paisagens Oníricas | Hélia Scheppa

Esse sonho se perdeu dentro de mim. Até que, essa foto de Hélia Scheppa me fez fechar os olhos e instantaneamente os meus girassóis brilharam e minhas mãos se coloriram. Abri a janela, deixei a luz entrar e fiquei ali, ao meu lado, deitada em um pedacinho de terra, olhando para aquele céu, com poucas nuvens. Assim fiquei por horas, por dias, para sempre, naquele breve instante em que meus olhos alcançaram essa fotografia.

E então eu disse: e pra quê, me diga, pra quê? pra quê dormir se o melhor do sono tenho feito de olhos abertos? *

E eu respondi: fecha os olhos e me responde!

Sempre me pego pensando nesses caminhos que a fotografia nos fazem percorrer e em como vamos tateando sentimentos, buscando formas, fórmulas e explicações para tudo na nossas vidas. O quanto tudo seria mais leve e ao mesmo mais intenso se deixássemos a fuga de lago. Às vezes basta fechar os olhos, às vezes basta sentir uma fotografia e todo caminho faz sentido, mesmo sem sentido algum. Eu ali, só quis deitar na terra e sentir seu cheiro. Ou olhar as pétalas dos girassóis no contra luz. Ou mesmo ficar horas vendo as nuvens passando. E eu fiz. A fotografia fez isso por mim. E no meu “para sempre” eu sonhei. Eu entrei em mim mesma.

(*) poesia de Flavio Cafiero no blog Uns Dias
 
 

Hélia Scheppa é uma fotógrafa querida. E hoje está abrindo a exposição “Paisagens Oníricas” na Arte Plural  Galeria. São Fotografias que nos pegam na mão e nos levam para “quartos brancos” sedentos por nossas “tintas”. Hélia pintou os dela e suas fotografias nos convidam para pintarmos e sonharmos com os nossos.

Serviço:

Abertura Exposição: “Paisagens Oníricas” da fotógrafa Hélia Scheppa

15 de outubro às 19h
Arte Plural Galeria
Rua da Moeda, 140, Recife Antigo
Visitação: de 16 de outubro a 24 de novembro
De terça a sexta, das 13h às 19h; sábados e domingos, das 16h às 20h.

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Podia ficar lembrando pra sempre da fotografia que passa recibo

No livro “Forget Me Not: Photography and Remembrance“, Geoffrey Batchen fala sobre algo que ele chama de “fotografias-esculturas”, objetos comuns no século XIX que, além da imagem, traziam outros materiais capazes de adicionar sensações bem diversas à interação com suas fotografias – eram pedaços de tecidos, mechas de cabelos, restos de algum objeto pessoal, qualquer coisa que fosse capaz de remeter o olhar de quem observa a lembrar mais ativamente as pessoas e momentos retratados.

Nessas fotografias, era comum ver, além do retrato, pequenas anotações dos donos das imagens, seja para identificar os personagens, corrigir identificações, ou fazer alguma dedicatória. A fotografia era um objeto que devia ser manuseado. “Algumas vezes, essa escrita simplesmente fornece à fotografia uma citação que a identifique (“Eu”) ou uma data. Em outras ocasiões, esse ato permite quem escreve de adicionar humor ou sentimento a uma imagem ordinária, ao colocar palavras na boca do sujeito da foto ou através da pura pungência das palavras (“Enfim”, por exemplo) […] a capacidade do objeto de provocar rememoração por si só dá a essas fotografias substância e textura, tornando-as tocáveis e quentes, e permitindo passado e presente a coabitar na vida doméstica do dia-a-dia“. As fotografias eram objetos de fazer lembrar. E, em muitos aspectos, continuam sendo.

Dentre tantas rotinas e hábitos que fizeram da fotografia um objeto de memória, lembrança, a questão que me desperta aqui é, na verdade, a fotografia como objeto de esquecimento, as práticas e manuseios que fizeram destas imagens também objetos de reforço de uma vontade de esquecer, das tentativas desesperadas de apagar o passado em todo e qualquer registro.

Foto: Laura Makabresku

Foto: Laura Makabresku

Penso nisso quando vejo essa imagem de Laura Makabresku. Laura nasceu em 1987; e vive na Cracóvia, uma cidade da Polônia. Na sua biografia resumida, diz que é fotógrafa e artista visual, ou vice-versa. Suas fotografias são “transbordadas por símbolos místicos e a atmosfera dos contos de fada”. Descobri suas fotos por andanças no flickr.

Na legenda da foto, publicada na rede social, a frase “Para esta escuridão que nos pega como o fogo”. Um homem e uma mulher se abraçam, em preto e branco. E em oposição, o fotograma de uma planta – o contraste desse branco no preto, da planta pousada no meio do quadro, impedindo que sua sombra fosse queimada pela luz que rasga o papel fotográfico.

O homem do quadro esquerdo da foto está vestido. Um paletó preto o cobre quase  transformando-o na paisagem ao redor. Semi camuflado, ele abraça a mulher no centro do seu corpo, uma mulher nua, pele branca, cabelos emaranhados como a personalidade de tanta gente. Às vezes a abraça, às vezes a prende, porque é mínimo o limite entre um e outro. Eu acho que a sufoca, mas isso é certa propensão de quem analisa. Talvez seja proteção, vai saber.

Mas o que intriga, o que domina mesmo o meu juízo é o rosto do homem, riscado, censurado da fotografia. O rosto da mulher também está oculto, mas quase como um acontecido: calhou que na hora da imagem, ela estivesse nua, calhou que estivesse de costas.
Mas o rosto do homem, não. É um rosto apagado, vetado, tolhido. Um rosto rasurado. 

Não sei se existe ato mais simbólico fotograficamente do que a rasura. Rasgar uma fotografia é destruir o objeto, desfazer-se da lembrança. Rasurar uma pessoa numa imagem é quase como destruir a pessoa, sua própria presença, se desfazer do indivíduo e sua influência no nosso dia a dia, apagar unicamente a pessoa do nosso passado, mas preservar o passado – como se fosse possível que o que se viveu pudesse ter sido vivido sendo como não foi (se é que você me entende). E é nesse ponto que a fotografia se transforma em boneco de vodu, alegoria que se materializa (assim se espera) numa conexão direta com o corpo alheio.

Daí me lembro de um conhecido que, num ato de desespero, vendo-se abandonado pela ex-namorada, riscou o rosto da moça nas fotos do Orkut (sic). E me intrigou bastante aquela atitude porque, possivelmente, não satisfeito em ter rasgado/riscado a imagem da moça nas fotos e referências que deveria ter pelos cantos do quarto, ele foi lá e riscou as fotos do Orkut. Percebam o quanto custou ao rapaz, riscar as imagens no Paint (sic) e depois refazer cada upload de modo a expor ao mundo todo sua indignação. Protesto mais sincero que muito grito contra a corrupção que vi nos últimos meses, e mais original também. Se a originalidade trouxesse a amada de volta em três dias…

Fiquei pensando nisso durante anos, e hoje vejo a foto de Laura Makabresku e me lembro da indignação em orkut-e-paintbrush daquele rapaz que, lá pelos idos de dois mil e tanto, não se conformou em rasgar as fotos sozinho, na intimidade da sua dor de abandono, e fez questão de declarar o fim simbólico pelas fotografias das suas redes sociais.

Discutimos isso uma vez, pensando nas fotografias de Instagram. E fiquei na pergunta: se o Instagram é uma timeline atualizada cronologicamente pelas imagens da nossa vida (autoral, profissional, pessoal, ou apenas gastronômica mesmo), para onde vão as imagens que deletamos quando aquela presença na nossa linha de tempo não nos faz mais sentido?

Vejam que a pergunta aqui fica complexa no momento em que analisamos o apagamento e a sua relação com a temporalidade. Sites como o Memolane estavam aí, nos lembrando das coisas de anos atrás que não tinham mais lógica de existência no presente mas estavam lá, escritas na nossa linha de tempo social.

O pesquisador Viktor Mayer-Schöenberger, autor de Delete -The Virtue of Forgetting in the Digital Age” (delete, a virtude de esquecer na era digital), pensa muito sobre nossa atual dificuldade de superação pelo esquecimento no ambiente digital – repleto de um arquivamento infinito. Em entrevista à Folha de S. Paulo, ele disse: “Durante toda a história da humanidade, o esquecimento tem sido fácil para nós. Ele é construído em nosso cérebro: a maior parte do que nós experimentamos, pensamos e sentimos é esquecida rapidamente. E (principalmente) com uma boa razão: essas coisas não são mais relevantes para nós, e esquecer limpa a mente. Esquecer nos ajuda a abstrair e a generalizar, a ver a floresta em vez das árvores, e a viver e agir no presente, em vez de ficar amarrado a um passado cada vez mais detalhado. Esquecer nos ajuda a evoluir, a crescer, a seguir em frente -para aprender novas coisas. Pelo esquecimento, a nossa mente se alinha com o nosso passado, com nossas preferências do presente, tornando mais fácil a sobrevivência e a vida suportável. Pelo esquecimento, também facilitamos a nossa capacidade de perdoar os outros por seus comportamentos. O que é verdadeiro para indivíduos também é verdadeiro para a sociedade em um aspecto mais amplo. As sociedades devem ter a capacidade de perdoar indivíduos esquecendo o que eles fizeram, reconhecendo, deste modo, que os seres humanos têm a capacidade de mudar e de crescer“.

Por outro lado, lembro que Ronaldo Lemos disse dia desses que o Instagramcomo se sabe, é uma espécie de ‘coluna social’ personalizada da internet. É onde boa parte dos usuários posta fotos das suas férias, viagens, restaurantes, baladas e ‘looks do dia‘”. Ao contrário das colunas sociais dos jornais impressos (tão efêmeras que já são velhas no momento mesmo em que abrimos os jornais), a coluna social do Instagram está ali, no perfil da pessoa, ao simples deslizar dos dedos.

Daí fico pensando nas presenças que nós, fotógrafos e estudiosos da fotografia temos nas nossas redes sociais. Tudo o que publicamos faz sentido para nós no momento em que o enter é dado – ou quase tudo, pelo menos. As imagens são, mais do que qualquer coisa, o retrato das pessoas que somos, do nosso olhar, do momento subjetivo que vivemos. Apagar do Instagram ou do Facebook uma presença, um momento visual, não só não apaga (obviamente) aquela existência na nossa temporalidade, como transgride a própria noção de timeline, sua base montada no tempo, cronológico, retrospectivo. A consciência disso mudaria nossa relação com nossos rastros digitais?

A foto de Laura Makabresku, sobre a escuridão que nos toma como um fogo, mostra um homem rasurado que prende uma mulher não identificada. Como a planta no quadro direito e sua sombra branca que não foi queimada pela luz, , a mulher ainda não foi dominada pela escuridão. Mas os traços, o rastro, a cinza do homem ao seu redor jamais serão apagados, esquecidos. A fotografia é como pele queimada que segue, não importando as tentativas de regeneração. Nas timelines, não se pode mais rasurar o momento maculado. Mas muitas vezes não superamos a vontade de esquecer. Nesses nossos novos usos cotidianos da fotografia nos espaços digitais, diferentes noções sensoriais de trato com a imagem surgem, mas alguns hábitos e sedes permanecem.

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