Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Arif Aşçi

“Será que, à medida que você vai vivendo, andando, viajando, vai ficando cada vez mais estrangeiro? Deve haver um porto.” (Caio Fernando Abreu)

Eminönü | Arif Aşçi

Há uns três anos, Camila Targino mostrou um trabalho que seus educandos da Oi Kabum! Recife haviam realizado nos bairros de Santo Antônio e São José. Eles investigaram os vestígios das culturas árabe e muçulmana na região para a realização de um ensaio. Ver o projeto abriu meus olhos para uma relação nunca antes percebida entre as nossas culturas, cujos exemplos circulam livres no “vuco-vuco” da cidade e vão além da tradição comercial.

Olhar com mais atenção as faces, os nomes das pessoas, o gosto pela rotina dedicada aos tecidos, as nuances das rendas, os trançados dos mosqueteiros e compreender o significado de locais como o Beco do Marroquino, em uma região que é mais conhecida pela interferência holandesa, foram essenciais para agregar sentido a uma experiência que eu vivi há um ano em Istambul e cujos sentimentos explodiram quando encontrei esta foto de Arif Aşçı, feita no porto de Eminönü.

O porto é uma espécie de síntese de Istambul, onde me senti a pessoa mais estranha do mundo. Havia dentro de mim uma afinidade completa com a cidade. Não me senti estrangeira. A sensação de pertencimento foi tão forte que várias vezes me perguntei se de fato eu estava do outro lado do mundo. Como podia ser tão próximo? Como podia tocar tanto?

Ainda era final de junho e essas perguntas voltaram diversas vezes durante a viagem. Em uma noite, quando procurava um lugar para jantar, encontrei uma rua enfeitada de bandeirinhas coloridas. Parei abismada. Era época de São João em Recife e, do outro lado do mundo, eu estava diante de uma das lembranças mais fortes dos festejos juninos. Chorei e sorri sozinha na rua. Ninguém mais entendeu.

Poucos dias depois, em Kumpkapi, virei uma esquina e encontrei crianças brincando de amarelinha, exatamente do jeito que fazíamos na infância na calçada de casa. Quis fotografar. Elas disseram que não. Me sentei e fiquei à deriva olhando-as saltitar entre os quadrados desenhados no chão com pedra calcária. Perguntaram meu nome. Eu disse “Ana”. Elas riram. Não entendi. Depois descobri que a pronúncia do meu nome é semelhante ao termo “mãe”, em turco.

Sem palavras.

O que sei é que, quando vi a foto de Aşçı, minha energia vibrou diferente. A imagem do porto de Eminönü, com o comércio, as escadarias, as estampas, a sombra da moça no pano de prato e traços masculinos não tão desconhecidos, desencadeou as lembranças felizes que relatei e configurou um pertencimento que raramente senti na vida. Este é um lugar onde várias vezes costurei minhas saudades, alimentei desejos de mudança e tirei a foto que me libertou de uma série de amarras.

Um espaço que colocou o trabalho de Arif Aşçı em meu circuito de interesses, assim como o ensaio dos educandos de Camila me fizeram observar o que herdamos no centrão do Recife. Um trançado meio mágico da vida, que hoje responde o que sempre me perguntam. “O que danado você foi fazer em Istambul?”. Encontrar meu chegar, passar e partir. Meu Porto.

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Uma resposta para Podia ficar olhando pra sempre esta foto de Arif Aşçi

  1. Sincronicidade é a palavra que me vem ao ler teu texto, cuja referência às culturas árabes e muçulmanas no Brasil, associa-se, fundamentalmente, ao tema do Fliporto deste ano (que acontece de 11 a 15 de novembro na cidade de Olinda) e tem como inspiração Gilberto Freyre e a relação ocidente-oriente. O mundo é uma bola que gira, e esse girar embola pessoas e lugares. Agradecido pelo lindo artigo.
    Abraços

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