19 respostas para Diálogo 21 – Respirar é preciso

  1. Priscila, teu texto teve um ótimo efeito em mim, e por isso agradeço. Muito obrigado, por me permitir ver que não sou um bicho estranho. Sempre me pareceu que essa falta de um trabalho novo o tempo todo era uma falha irreparável. Vejo melhor agora que todo projeto tem seu tempo de maturação, alguns se desenvolvem rapidamente enquanto outros tomam um caminho mais longo, ao passo que uns simplesmente não acontecem. Valeu!

    Abraços

  2. Chico Peixoto disse:

    faço das palavras do marco antônio as minhas. você falou por todos nós, priscilla. valeu mesmo!

  3. Ana Lira disse:

    Eu já entrevistei vários fotojornalistas e uma coisa que sempre me chama atenção é que boa parte deles não considera o que faz no jornal como um trabalho autoral. Eu queria entender melhor isso, sabe?

    Como é que você está todo dia produzindo, todo dia tentando (pelo menos) colocar uma assinatura sua em uma produção e não a considera autoral? É claro que existem pautas e pautas, que às vezes você fotografa algo que não faria, se pudesse escolher, outras coisas que não têm nada a ver com você, mas existem pautas que são incríveis e que motivam uma produção e que podem ter, sim, um belo resultado.

    Como isso não é autoral? Como isso não é um trabalho?

    Deixa de ser um trabalho porque foi feito para o jornal? Deixa de ser um trabalho porque você não passou meses fotografando? O que é o trabalho de Alcione, que quase literalmente só fotografa dentro do jornal? O que é o trabalho de Daniel Marenco, de João Wainer? Se não é autoral, eu não sei mais o que dizer.

    Por que todo trabalho precisa ser um ensaio? A obral de Evandro Teixeira é toda feita em cima de ensaios? Evandro passou 47 anos no JB. Se ele tivesse esperando o momento ideal para fazer um ensaio e então considerar que ele tem um trabalho autoral, o que seria dele?

    Acho que você tem produzido muita coisa, Pri. O que precisa é olhar para essa produção com uma outra perspectiva. Menos do ponto de vista “fotojornalista x artista” e refletir mais que o seu olhar sobre as coisas é o que vai construir a sua “obra” no final de tudo, independente de você estar no jornal ou fazendo um ensaio.

    Um cheiro!

    • Ana Lira,
      Não sei se posso contribuir muito com a discussão, considero-me extremamente verde e com um longo caminho a percorrer. Morro de medo de discussões, mas vamos lá! Acredito que o fotojornalista não considera autoral o trabalho produzido dentro de uma redação (ao menos em meu caso), porque nele se está preso a uma linha editorial e ao olhar de terceiros. O nosso trabalho passa como em toda a redação, por uma série de conflitos, discussões e pressuposições de público.
      O jornal é comercial, uma empresa como outra qualquer que tem a finalidade de vender, então precisa ser “compreensível”, por isso busca-se, na maioria das vezes, o clichê, o óbvio. Já presenciei reuniões de fechamento de capa, em que se discutia se o leitor entenderia uma determinada imagem. Havia uma sequência linda que ficou de fora, preterida por uma imagem aberta, obvia. Só faltavam dizer “o leitor é burro, minha gente”.
      As imagens, em alguns casos, ficam reféns do texto, o personagem que tiver a melhor história para contar, independentemente de estar inserido na melhor cena, será a publicada. As fotografias acabam passando por diversos filtros: o nosso, o editor de foto, o editor do caderno a que se destina a fotografia, dos editores gerais e, ainda por cima, há a publicidade para derrubar nosso trabalho. Então, com essa rotina árdua, de tantos filtros, temos que travar uma batalha interna e constante, para evitar que esses filtros não se tornem nossos e que domestiquem nosso olhar (o que há de mais precioso e autoral). Essa é a pior batalha e mais perigosa, pois se formos derrotados, abandonaremos a opinião (lembrando que a fotografia é uma linguagem opinativa) a pessoalidade, o Eu.
      Entretanto, como você mesma disse, “É claro que existem pautas e pautas, que às vezes você fotografa algo que não faria se pudesse escolher, outras coisas que não têm nada a ver com você, mas existem pautas que são incríveis e que motivam uma produção e que podem ter, sim, um belo resultado”. Concordo plenamente e isso casa muito bem com a empolgação que Marenco aponta quando diz que “Eu adoro o que faço no jornal, não tudo, óbvio, mas na pauta que acho que pode render um pouco que seja, me atiro de cabeça, faço do detalhe ao amplo, contextualizo de todas as formas que eu acho que mereça (…) Quando mais animado brinco de congelar e de borrar, de explorar todas as cores ou simplesmente tentar deixar quase monocromático, mesmo sabendo que no fundo, o jornal só precisa de uma foto 2colx24. Foda-se. Dou no blog, guardo pra mim, o jornal guarda pra ele. E vá que dê sorte, o espelho aumenta e entra duas no dia seguinte. Não foi trabalho, foi prazer, foi brincadeira””. Concordo plenamente e estar num jornal é mágico, o aprendizado é incrível. Porém, queria jogar alguns questionamentos: e quando não se tem o tempo devido para se entrar de cabaça na pauta, porque estão precisando da foto para fechar caderno? Ou falta o carro? Quando temos contato com coisas riquíssimas que não podemos dar a importância que merece por falta de tempo? Essa rotina que nos impede de escolher a melhor luz, viver, enfim, a pauta. Isso massacra tanto.
      Você cita, no seu texto, o trabalho de Evandro Teixeira que é espetacular indiscutivelmente. Contudo é preciso ressaltar que ele registrou momentos da história recente do Brasil e alguns deles não foram publicados a época e, como você disse, ele passou 47 anos no JB e, no fim das contas, a obra dele é de peso também por esse tempo e, convenhamos conquistar um espaço numa redação não é fácil e exige trabalho duro. Vamos parar para pensar se você fosse editora de fotografia e tivesse uma megapauta e tivesse eu e Evandro Teixeira à sua disposição. Quem você mandaria para a pauta? Ou seja, as pautas são limitadas dentro das redações também.
      Estar em jornal é instigante, pois temos acesso a lugares que jamais pisaríamos, é um privilégio, é mágico, é escola. Em compensação, exige entrega de uma vida, pois o veículo consome tempo, disponibilidade e vida social. Portanto, imagina esperar 50 anos para ter noção de que se fez um trabalho autoral. Já pensou chegar ao final da vida e perceber que você abdicou dela e simplesmente reproduziu o que o seu jornal queria, contudo você foi medíocre, não buscou outros ares. Acho que outros projetos são necessários para manter nossa vontade, para aprimorarmos a paixão pela fotografia diária, para que possamos implementar nosso olhar na rotina do jornalismo diário e simplesmente tocar o “foda-se”, como Marenco faz. Desculpem o desabafo e se falei demais, mas fiquei empolgado com a discussão. Obrigado, Priscilla, por ter me convidado para dar uma olhada aqui. Fazia um tempão que não visitava e nunca tive coragem de opinar. Beijos e, mais uma vez, admiro muito teu trabalho

      • Ana Lira disse:

        Marcelo, eu acho o teu depoimento super válido. A única coisa que eu queria ponderar aqui é: será que Evandro demorou realmente 50 anos para ver que tinha um trabalho autoral? Eu digo isso porque existe uma fotógrafa muito querida por nós aqui em Recife, a Alcione Ferreira, que praticamente só fotografa no jornal. Ela nem tem uma câmera digital própria, apenas uma F100, que ela mal usa. Ou seja, o trabalho fotográfico dela é quase exclusivamente feito na imprensa. Ela tem 10 anos de fotojornalismo e quando eu vejo uma capa de jornal com uma foto dela, eu sei quem fez. Eu só vou conferir a autoria para confirmar, mesmo. E, talvez isso seja coincidência, mas ela foi uma das únicas fotojornalistas que entrevistei que me disse que crê na própria autoria no fotojornalismo diário, apesar da dificuldade com as pautas. Talvez essa crença se reflita no trabalho. O debate é bom! Continuemos =)

  4. joanafpires disse:

    Ao meu ver, o problema da liberdade não é o fotojornalismo, é o jogo de interesses que sufoca o fotojornalismo. Se você produz num jornal, o trabalho está sempre submetido ao interesse de uma editoria. E se não há um diálogo responsável e sensível entre a editoria e o fotógrafo/repórter, o resultado é que se poda a liberdade do produto.
    Utopicamente somos todos autores, claro, em tudo. Mas, no dia-a-dia, a prática é bem mais controlada do que livre. O que acho uma pena é que muitos editores rivalizam com seus fotógrafos e muitos fotógrafos rivalizam com seus editores. No fim das contas, poucos percebem que um resultado final de qualidade não ameaça ninguém, muito pelo contrário, é lucro para todas as partes. Seria muito bom se o jogo fosse outro, não o ‘queda de braço’.

    • Ana Lira disse:

      E não existe jogo de interesses em outros segmentos da fotografia que sufocam a criação ou distanciam o fotógrafo das coisas que ele realmente gosta, quer fazer ou se sente motivado a realizar?

      • Ana Lira disse:

        Essa própria pressão para se “fazer ensaios” não é uma limitação que sufoca a produção? Será que todo mundo sabe/precisa/gosta de fazer ensaio? Será que o trabalho de alguns fotógrafos não é incrível justamente por conter elos entre imagens que não foram feitas a partir de uma narrativa prévia? Deixa de ser autoral por causa disso?

        E o que é essa ansiedade por “criar um ensaio”? Isso vem de onde? É uma necessidade pautada por quem? Essa coisa de já pensar a coisa na parede/publicação antes dela iniciar? Por que o desejo de se fazer visível ao público tem pautado mais a produção do que o desejo de se jogar em um tema relevante?

  5. Marenco disse:

    Hehehhe, to adorando. Primeiro, Ana, que isto, muito obrigado! Tu é querida demais, mas o Wainer tá anos-luz. Segundo, Pri, devíamos ter falado mais e mais regados a álcool podíamos estar. Talvez tivesse embriagado mais e na ressaca do outro dia algo poderia se resolver. Pq digo isto? Uma confissão. Tb tive esta angústia e quem a omitir em público, talvez seja um baita cafajeste medroso. Quem não a teve que dê logo a dica, tb a quero. Mas comigo, o primeiro, que foi mágico e nunca esqueci – tá bom, isto foi brega, mas é o avançado da hora – simplesmente aconteceu. Não precisou de namoro, flerte ou qualquer coisa do tipo. Ele chegou, se instalou pertinho de mim e eu, curioso, fui conhecê-lo. Simples assim. E foi tão gostoso, pq mais do que imagens, colecionei risadas, amizades e lembranças. E até hoje, nostalgicamente, penso nele.
    Falamos outro dia, Hans, Arnaldo e eu. Entre secadas no jogo de estréia dos hermanos e algumas Patrícias, dissecamos “algumas” fotografias. Muito ti-ti-ti se instalou, eu ouvi, tentei dialogar algumas vezes, pouco entendi em outras e acabei desistindo. Me parece que esta pressão, o que outros vão pensar, possa ser fruto disto. Um pouco do que acabam definindo em certo momento como a “nova fotografia brasileira”. Me parece premonitório demais. Eu adoro o que faço no jornal, não tudo, óbvio, mas na pauta que acho que pode render um pouco que seja, me atiro de cabeça, faço do detalhe ao amplo, contextualizo de todas as formas que eu acho que mereça. Brinco com luzes e sombras, daí paro e brinco com detalhes e minimalizo. Quando mais animado brinco de congelar e de borrar, de explorar todas as cores ou simplesmente tentar deixar quase monocromático, mesmo sabendo que no fundo, o jornal só precisa de uma foto 2colx24. Foda-se. Dou no blog, guardo pra mim, o jornal guarda pra ele. E vá que dê sorte, o espelho aumenta e entra duas no dia seguinte. Não foi trabalho, foi prazer, foi brincadeira. E fora do jornal, se serve aqui uma dica, me divirto! Se não for assim só fico observando…
    Ah, adorei o texto! Agora põe umas fotos… Sem pressão! Bjos pra vcs!

    • Ana Lira disse:

      É dissoooooooooooooo que eu falo! Marenco, tu salvou o dia!!!
      Queria poder voltar no tempo e refazer meu trabalho da pós e ter você como entrevistado. Obrigaaada!

    • Ah Marenco, esse papo pede uma mesa de bar mesmo ne? Mas qualquer dia o 7 convida todo mundo pra uma grande mesa de diálogos regados a cerveja..! hahah

      Teu comentário deu uma força incrível pra esse debate..!! Brigada hein, guri?

      Independente da linha de trabalho que a pessoa segue, a pressão sempre vai existir, o que a gente não pode é se deixar abalar por ela.. E tuas palavrinhas me enchem de coragem, de instiga, de ânimo!! Essa tua relação com a fotografia é linda!!

      Eu tava bem insegura em relação a esse Diálogo, achando o tom de desabafo não fosse render uma boa troca, mas valeu.. valeu demais!! =)

      E sim, com calma e sem pressão, vou colocando minhas fotos na rua, pode deixar!

    • fotoescambo disse:

      Eu só estava secando los hermanos!!!! Fotos, fotos, gosto de VER fotos. Aliás, tô saindo para a Galeria do Convento trocar fotos no FotoRio!!!!

  6. Lineu Gabriel disse:

    Olá Priscilla,
    Para contextualizar digo logo que não sou fotógrafo… na verdade trabalho com dança e com teatro.
    Porém, encontrei muitas afinidades com suas palavras, procipalemente porque você escreve sobre processo criativo artístico.
    Uma passagem do seu texto me marcou bastante (e é bastante significativa para mim por que retrata um pouco do que tenho vivido em meu processo criativo atual), é quando você escreve sobre se flagrar na “procura descabida por idéias brilhantes”. Sobre isto gostaria de te recomendar um filme do qual gosto muito. Creio que o título seja “Pierre Verger – Mensageiro de dois mundos” é um filme onde Gilberto Gil faz entrevistas e visita lugares por onde Verger passou, lugares no Brasil e no continente afrincano. Enfim, tem um determinado momento do filme, onde Verger, no auge de toda sua rica experiência, muitíssimo perto da morte (Gil é o último a entrevistá-lo dias antes de sua morte), em que ele confessa que toda a sua pesquisa com o candomblé alcançou a profundiade que teve justamente porque ele não estava a procura daquilo…

    • Ana Lira disse:

      Acabei de lembrar deste trecho do filme e, de fato, o diálogo é muito forte. O interesse dele era se envolver com seu objeto de pesquisa, compreendê-lo, dialogar com ele. A fotografia pela fotografia não era o foco. Gostei desse debate =)

    • Lineu, que linda a lembrança desse filme! É justamente isso que sinto.. a gente não precisa sair caçando idéias, a gente precisa apenas viver, observar o mundo com olhos atentos e coração aberto..

      Fico tão feliz quando “não fotógrafos” também entram no debate assim como você! É uma delícia essa troca!!

  7. bellavalle disse:

    Que debate mais delicioso! =)

  8. Pingback: Fotografia e afeto |

  9. Andres disse:

    Eu acabo de dejar que mi comida se queme en el fuego por leer su articulo, lamento dizer que voce vai tener que invitarme a comer un dia, o tendra que dejar de escribir cosas tan boas. perdon por mi portuñol tan malo! abraco andres

  10. Priscila me identifico muito com esse seu momento. Vou te contar um negócio, fui obrigado a entrar de férias do jornal (iam vencer), sem planejamento nenhum, de uma hora pra outra. Pois bem, no primeiro dia de férias resolvi que aquele período deveria servir para eu criar um projeto autoral. Resultado: 50 trabalhos pensados e nenhum produzido. Sobre essa vibe de curtir o processo todo, postei o que aprendi num ws do Claudio Feijó (http://blogs.band.com.br/portrasdaobjetiva/2011/03/28/paranapiacaba/) , pena que ainda não consegui colocar em pratica, mas penso que isso tenha a ver com experiencia, uma vez que, tanto eu como vc, ainda somos muito jovens
    Abs

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