7Perguntas – Roberta Guimarães

Retomando o nosso #7Perguntas, trazemos uma gostosa conversa com a querida fotógrafa Roberta Guimarães, que hoje à noite lança o seu novo livro “O sagrado, a pessoa e o orixá”, no Recife. A obra é fruto de visitas a mais de 12 terreiros de xangô, em que foram fotografados rituais e cerimônias, muitas vezes reservadas, ao longo de mais de um ano. Neste bate-papo, o 7 convidou Roberta para falar sobre algumas questões quanto a produção do livro e sua trajetória.

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Muitos fotógrafos utilizam a fotografia como pretexto para conhecer melhor o mundo e a si mesmos. Você mergulhou em muitos universos ao longo da sua carreira e nos mostrou as experiências encontradas neles através do seu olhar. Você acredita que os temas que você escolhe para retratar falam de você? Qual a relação que você tem com os universos escolhidos, antes, durante e depois da obra, nos rituais de xângo e em outros trabalhos? 

Acredito que as escolhas fotográficas sempre têm a ver com identificações. Principalmente quando a produção fotográfica não é uma encomenda, quando podemos escolher o tema. Não acredito na fotografia que não me emociona. Como não acredito em desenvolver um trabalho que não me cause empatia. Aliás, o que me move nas produções fotográficas é não sentir o tempo. Ou melhor, estar em tanta sintonia com o “estar” fotografando a ponto de não sentir a passagem do mesmo.

Que sentimentos ou sensações movem e impulsionam a tua busca por esse encontro com o outro, traço tão marcante no seu trabalho?

Apesar da atividade do fotógrafo ser  quase sempre solitária, ele está sempre em busca de mundos. Do encontro consigo mesmo ou com o outro. Penso que  pode-se falar de si próprio, através do outro. Por exemplo, no meu livro sobre os brincantes acompanhei, por mais de um ano, Martelo, personagem do Mateus do cavalo marinho Estrela de Ouro de Condado. Sebastião, é seu nome verdadeiro, mas todo mundo só o conhece por Martelo. E o que mais me entusiasmou nele foi perceber que o seu personagem no cavalo marinho se misturava com a vida real. Ele é um brincante no cotidiano também. Nos seus mais de 76 anos consegue passar amor à vida e um entusiasmo que soa quase infantil. Se Martelo foi o meu norte para construir a ideia  do meu livro Brincantes da Mata, Jeferson foi quem me abriu os caminhos para o Xangô Pernambucano. Através de um ensaio que produzi em Goiana com ele, que chamei de “crossdressing” de oxum. Me emocionei com a capacidade  dele de se colocar dentro da religião africana, sem medos em relação aos preconceitos. A  cumplicidade com a escolha pelo Candomblé, que ele demonstrou, me fez pensar em desenvolver o tema. Mais uma vez o humano sendo o meu maior interesse.

Roberta Guimarães

Roberta Guimarães

O livro de fotografia é um objeto que possui um imenso poder e encantamento.  Guarda um discurso, tem o poder de carregar essa mensagem e fazê-la perdurar no tempo. Tem vida própria, já que ali outra narrativa irá se estabelecer, diferentemente da do ensaio em si, o livro é a síntese do encontro e diálogo entre as imagens, textos e arte gráfica. Você parece sempre fazer questão de produzí-los, o que eles significam para você? Qual a maior dificuldade em produzir um livro de fotografia?

Na realidade foi uma busca. Eu tenho outros livros publicados que, apesar de ter pensado o projeto, chamei uma outra pessoa para produzir. Foi uma necessidade de aprender mesmo. De sentir como é coordenar um projeto. E não é fácil, até porque envolve muitas etapas. Mas é também prazeroso descobrir as nuances de cada uma delas. Talvez seja o sentimento de poder administrar  sabendo que você pode pensar em tudo que achar mais importante para o livro.

Há sempre muita curiosidade sobre o processo de criação de um fotógrafo, cada um estabelece o seu próprio modus operandi. Além disso, geralmente você é a fotógrafa e produtora dos seus trabalhos e livros, esse momento é planejado? Como ele acontece?

Acho que são etapas totalmente diferentes. Diria que o processo mais “desgastante” é a etapa de conceituar o projeto, porque é um processo de criação da ideia . No desenvolvimento do projeto consigo separar bem o ato de fotografar com o de administrar. Quando vou fotografar não estou preocupada com papéis que devem ser assinados ou pagamentos que devo fazer. Isso se dá posteriormente às seções ou, muitas vezes, retorno ao local só para resolver estas questões. Nos meus projetos sempre considero que as pessoas que estão envolvidas devem receber um valor financeiro de acordo com o orçamento do projeto. Acho muito importante colocar isso desde o início para que o projeto se desenvolva a contento para os dois lados. Da mesma forma com relação a interação com o fotografado,  tenho que criar uma cumplicidade, senão, não consigo desenvolver o que estou buscando. Mas acho que isso acontece com todos os fotógrafos, o sentir se a produção está  chegando no desejado ou não.

Em Pernambuco o candomblé é conhecido como Xangô, no entanto há uma tentativa por parte dos terreiros de que a religião de matriz africana seja conhecida pelo nome de candomblé, inclusive como uma forma de quebrar preconceitos. Por que você optou fotografar os terreiros de Xangô e não os de Candomblé?

Na realidade  é uma questão de semântica apenas. No Nordeste, em especial, em Pernambuco e Alagoas, o Candomblé é conhecido como Xangô, talvez porque este orixá seja muito presente nos terreiros daqui.

Roberta Guimarães

Roberta Guimarães

 É possível fotografar o sagrado?

Tudo o que é cabível de ser representado pode ser fotografado. Na realidade  “o sagrado” colocado como ícone, como representação, é encontrado em todas as religiões. A iconografia do sagrado é diferenciada nas religiões, por exemplo, o otá, no candomblé, não tem significado algum para a religião católica, da mesma forma é a óstia para o candomblé.

 O que você fotografa te emociona?

Para mim é o princípio de tudo.

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Lançamento do livro “O sagrado, a pessoa e o orixá”, de Roberta Guimarães
Quando: HOJE, dia 16 de maio, às 19h
Onde: Livraria Cultura do Paço Alfândega, no Recife.

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Roberta Guimarães é formada em Jornalismo, cursou Fotografia no Instituto Superiore di Fotografia de Roma (Itália) e possui mais de 20 anos de experiência na área.  Atuou como repórter fotográfica na Folha de Pernambuco e no Jornal do Commercio. É diretora e sócia fundadora da Agência Imago, no Recife.

Sobre 7 Fotografia

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