7Aniversário – Mistérios Reversos

Depois de ler todos os textos publicados no blog, pude observar com bastante curiosidade que a memória da infância e familiar acabou sendo o ponto de partida para falar da interação com a fotografia. Eu até seguiria pelo mesmo caminho se não fosse um incidente: perdi pela segunda vez a série de fotos que inspiraria este texto. Digo, pela segunda vez porque a primeira perda ocorreu há cerca de um ano, quando uma infiltração dentro de casa dissolveu parte das cenas contidas nas fotos. Guardei o álbum em outro lugar para evitar um estrago maior. Não adiantou: mudei de cidade e uma reforma na casa levou as fotografias para um lugar desconhecido.

Enquanto procurava, com um nó na garganta, ouvia a voz de Priscilla Buhr me dizer: “eita, Aninha, a tua história com estas fotos ainda pode dar um trabalho incrível”. Depois de caixas reviradas, ninguém sabe onde está e se um dia os fragmentos do que foram aparecerão. Diante disso, pensei: talvez não fosse a hora mesmo. Há discussões que precisam maturar, inclusive dentro da gente, mas era importante escrever o texto. Então, retornei à questão inicial: qual a relação da fotografia com as nossas vidas? Me vi diante de uma segunda interrogação: antes ou depois de me tornar fotógrafa?

Antes ou depois de abraçar a fotografia como um dos meus modos de fala?

Ana Lira por Jedson Nobre

Deste momento-antes, eu lembro com clareza quando passei de uma fase em que não me incomodava fotografar ou ser fotografada para o período em que eu não via qualquer sentido estar na frente das câmeras. Por algum motivo não facilmente explicado, eu me sentia deslocada na maioria dos contextos, de modo que quando alguém apontava uma fotográfica para mim, brotava um desconforto sem explicação e eu pedia automaticamente para exercer o papel de fotógrafa. Foi assim que perdi vários momentos bonitos com meus amigos e me safei de algumas narrativas pouco confortáveis, também!

A fase depois é muito delicada porque a prática fotográfica veio acompanhada literalmente de um processo de reflexão sobre processo criativo. Algumas pessoas decidem ser fotógrafas e passam algum tempo derivando pelo mundo, sem pensar muito no que significa falar por meio da fotografia. Eu nunca tive essa experiência. Nunca fui Eva antes da maçã. A minha consciência de ser fotógrafa veio junto com com um turbilhão de informações e questionamentos que não me permitiram viver uma certa “inocência”. Fui pecado desde o princípio…

E neste viver o pecado da fala por meio da imagem fui me entendendo com a fotografia. Fui me situando em seus meandros de linguagem e tentando transformar meus debates sobre o mundo em expressão visual. A questão é que levei isso tão a sério – e, em meio a um processo de ruptura afetiva, o grau desse comprometimento ficou tão exacerbado – que onde se via fotografia eu enxergava apenas trabalho. Para qualquer viagem, eu precisava de uma pauta e, assim, pela segunda vez na vida, eu perdia momentos importantes por não conseguir fotografar para mim.

Memória Afetiva – Porto Alegre 2011 | Foto: Ana Lira

Em uma viagem a Paraty, decidi começar um projeto pessoal que batizei de Memória Afetiva. Fiz um diário fotográfico da nossa viagem e das coisas que me instigavam emocionalmente. As imagens ficaram bonitas, mas faltava alguma coisa. Um dia entrei no flickr de Lari e fiquei em estado de choque ao perceber como ela fotografava lindamente alguns amigos que tínhamos em comum. Então, eu descobri que a lacuna nas minhas fotos eram a ausência de amor, ou melhor, a sua presença escondida.

Eu havia parado de falar para os meus amigos o quanto eu os amava. Eu não escrevia mais cartas, não mandava mais presentes, não telefonava e mal queria encontrar as pessoas ao vivo. E minha fotografia, como qualquer outro meio de expressão, comunicava isso com muita propriedade. Foi preciso tatear de novo esse terreno de dedicar amor ao outro para que o espaço vazio fosse deixando de existir…

Esta experiência mudou bastante o papel da fotografia na minha vida. Passei, então, a observar mais como as pessoas fotografavam suas famílias, amigos e como elas lidavam com as suas fotos pessoais. Lembrei da minha emoção ao ver a última exposição de Thomas Farkas, em Recife, e comprei o livro Notas de Viagem para me ajudar a pensar melhor nos caminhos de Memória Afetiva, que continuo fazendo a cada nova andança pelo país.

Nesta última estada em Paraty, dois anos depois, eu percebi uma segunda lacuna: eu continuo apenas por trás das câmeras. E me veio uma terceira questão: como eu podia continuar falando para os outros em ter tranquilidade diante das câmeras, se eu continuava correndo delas? Pela primeira vez, eu me senti desafiada a lidar com meu próprio desconforto. Fui deixando que amigos me fotografassem e, aos poucos, percebi que talvez para algumas pessoas se tornar fotografável é um aprendizado.

Ana Lira por Marcelinho Hora

Por conta disso, passei a me perguntar se, em algum momento dessa rotina que estabelecemos com a fotografia, precisamos construir uma certa identidade de fotografado. A identidade agrega elementos que usamos para nos posicionar no mundo – e o quanto revelamos depende de quem esteja conosco. Então, eu fiquei me perguntando em que medida esse receio da câmera não seria um receio do ato fotográfico (e do que ele podia captar) ou até mesmo da relação que havia com a pessoa que estava do outro lado da câmera?

Em que medida isso tudo tem a ver com afeto e proximidade?

Digo isso porque percebi que tenho mais dificuldade de ser fotografada por meus amigos do que por desconhecidos. É como se, diante de quem é realmente próximo, essa identidade perdesse algumas cascas e fosse reduzida ao essencial. Ou seja: eu me sinto entregue. Sem defesa. É um exercício completamente revelador de cumplicidade. E, neste momento eu vejo que, nem inconscientemente, eu estava preparada para encarar isso antes de ser fotógrafa. Talvez isso explique o meu desejo de ficar por trás das câmeras naquele momento-antes…há uns vinte anos…

Memória Afetiva – Pedrinho | São Paulo | Foto: Ana Lira

Agora, porém, diante de todas essas mudanças de percepção da fotografia na minha vida e o desejo de continuar fazendo o Memória Afetiva, sinto que preciso investir na vivência desses dois papéis: ver o outro e me deixar ser vista. Descobrir com eu me expresso nestas duas vias. Perceber como a minha representação da vida dialoga com o discurso que o outro cria por meio de imagens minhas – seja este outro amigo ou não. É nesta trilha que pretendo ir caminhando – até que uma nova encruzilhada coloque outras interrogações e eu precise repensar meus mistérios novamente.

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