Uma resposta para Diálogo 74 – A fotografia dos corpos

  1. Ana Lira disse:

    Bella, amore!

    Retrato fotográfico é algo que me move, também!!!
    Uma vez eu li a peça de Nelson Rodrigues Álbum de Família, que tem este começo:

    ÁLBUM DE FAMÍLIA – Nelson Rodrigues

    PRIMEIRO ATO
    (Abre-se o pano: aparece a primeira fotografia do álbum de família, datada de 1900: Jonas e Senhorinha, no dia seguinte ao casamento. Os dois têm a ênfase cômica dos retratos antigos. O fotógrafo está em cena, tomando as providências técnico-artísticas que a pose requer. Esmera-se nessas providências, pinta o sete; ajeita o queixo de Senhorinha; implora um sorriso fotogênico. Ele próprio assume a atitude alvar que seria mais compatível com uma noiva pudica depois da primeiríssima noite. De quando em quando,mete-se dentro do pano negro, espia de lá, ajustando o foco. E vai, outra vez, dar um retoque na pose de Senhorinha. Com esta cena, inteiramente muda, pode-se fazer o pequeno balé de fotografia familiar. Depois de mil e uma piruetas, o fotógrafo recua, ao mesmo tempo que puxa a máquina, até desaparecer de todo. Por um momento, Jonas e Senhorinha permanecem imóveis: ele, o busto empinado; ela, um riso falso e cretino, anterior ou não sei se contemporâneo da Francesa Bertini etc. Ouve-se, então, a voz de speaker, que deve ser característica, como a de D´Aguiar Mendonça, por exemplo. NOTA IMPORTANTE: o mencionado speaker, além do mau gosto hediondo dos comentários, prima por oferecer informações erradas sobre a família)

    (O speaker é uma espécie de “opinião-pública”.)

    SPEAKER
    (já na ausência do fotógrafo, enquanto Jonas e Senhorinha estão imóveis)

    Primeira página do álbum. Mil e novecentos. Primeiro de Janeiro: os primos Jonas e Senhorinha, no dia seguinte ao casamento. Ele, 25 anos. Ela, quinze risonhas primaveras. Vejam a timidez da jovem nubente. Natural – trata-se da noiva que apenas começou a ser esposa. E isso sempre deixa a mulher meio assim. Naquele tempo, moça que cruzava as pernas era tida como assanhada, quiçá sem-vergonha – com perdão da palavra.

    (Desfaz-se a pose. Jonas quer abraçar Senhorinha que, confirmando o speaker, revela um pudor histérico.)

    O resto pode ser lido em – http://pt.scribd.com/doc/63437609/ALBUM-DE-FAMILIA-NELSON-RODRIGUES
    === # ===

    Então, depois que eu li esta peça, eu nunca mais na vida – nunca mais – vi um álbum de família da mesma maneira. Em vez de olhar e dizer o “nossa, que lindo!” ou “nossa, que foto linda”, eu passei a investigar os gestos das pessoas envolvidas. Passei a ver o personagem que, diante da cena ensaiada pelo fotógrafo, não está tão feliz ou se desloca no fundo do quadro ou se inquieta ou está tão feliz que ofusca os demais. Passei a buscar aquilo que foge à pose, aquilo que, de certa maneira, desmonta os acordos sociais de determinadas fotografias.

    Esta foi uma época em que eu comecei a me perguntar (muito!), com quem a gente aprende a colocar a mão na cintura para tirar fotos, na infância? De onde isso veio? Por que os noivos precisam posicionar os dedos para mostrar aliança em determinadas fotos? Por que fazer imagens do pai abraçando a barriga da grávida, nos books? (Replicando na pose da imagem a cultura do homem provedor e protetor da mulher, em qualquer situação de vida?).

    Isso me faz pensar, também, na quantidade de pessoas que hoje não querem mais se engessar em poses e preferem ser fotografados “de maneira natural”, se é que isso é o possível, diante de uma câmera. É possível, Bellinha?

    Pensei, ainda, em uma cena do espetáculo que você participou e de quando Rodrigo imitou teu movimento para as câmeras de todos nós. Bella Maia comentou que havia ali um movimento de um bailarino tomando forma no corpo de outra pessoa e trazendo características dessa nova pessoa. Então, eu fiquei aqui refletindo:

    – é possível um movimento, pose ou convenção fotográfica se moldar a todos os corpos?

    – em que momento um corpo, diante de uma solicitação de pose ou de uma convenção de visibilidade, se rebela e desmonta esse pedido de acomodação a algo que não é dele?

    Então, relembro as convenções que são criadas para retratar bandas de metal, de forró, de brega ou os músicos eruditos. Recordo as poses e biquinhos feitos na frente do espelho para o Facebook. As mãos em forma de “legal” que se espalham pelos álbuns dos adolescentes. Os códigos fotográficos das torcidas organizadas. O que estas poses dizem sobre nós? O que elas dizem sobre o que desejamos mostrar? O que elas dizem sobre o que desejamos esconder?

    Esta semana muita gente compartilhou no Facebook um site com uma série de GIFs em que as pessoas, famosas ou não, são fotografadas fazendo as mesmas caras em circunstâncias completamente diferentes. (Veja aqui: sobadsogood.com/2013/04/19/15-people-that-look-exactly-the-same-in-every-photo/). Por que a gente não consegue se mostrar, diante da câmera. Por que é tão difícil? Por que se torna fácil apenas quando vestimos um personagem?

    O que esse jogo de corpos têm a ver com poder, estrutura social e política, filosofia de vida? O que tem a ver com liberdade e repressão cultural?

    Onde o fotógrafo se coloca nisso tudo? Em que momentos ele reproduz ou pondera sobre estas convenções? O que os fotógrafos acham?

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